Mykonos-87

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    Percílio tomou o sentido contrário, precisava conversar o mais rápido possível com Jonas, mas chegou tarde. Laercio, mesmo distante, ouviu que o senhor que tinha vindo em companhia de Percilio era o alquimista Claudius, e que ele iria morar na Comunidade. Como sempre, Luizinha, sua esposa, costumava se sentar nas pedras que ladeavam a plataforma de areia que se descortinava diante a Grande Pedra à espera dos trabalhadores que retornavam da lida, se fazia sempre acompanhar de sua mãe Raquel e sua irmã Laurinha, a viúva de Joninho. Elas buscavam saber as novidades do dia para serem as primeiras a espalhá-las pela Comunidade. Com o tempo, Laércio, mesmo sem saber, acabou se prestando ao papel de pombo correio, em especial, dos acontecimentos nefastos.  Naquele dia, elas perceberam que Rafael e Cirilo não estavam com o grupo, com certeza algo havia acontecido, pensaram. Luizinha levantou-se rapidamente e correu em direção ao marido, dizendo:
     – O que aconteceu? Porque o marido daquela “triste figura” não voltou com vocês? E cadê o irmão do feiticeiro?
     Laércio, já envolvido com energias escuras que teimavam em não se afastar da família de sua esposa, respondeu:
      – Nós encontramos com o líder da Comunidade no caminho, ele vem trazendo o alquimista que cuidou dele quando ele desapareceu, parece que o velho pretende  morar aqui.
      Aquela notícia caiu como uma bomba no ouvido das três mulheres, naquela altura, não contendo a curiosidade, tanto Raquel como Laura, já tinham se aproximado e ouviram a novidade com uma certa euforia, pois, desde que o nativo Hipólito havia se mudado, ninguém mais estabeleceu residência na Grande Pedra, e este senhor em especial, com certeza, traria muito contragosto a Jonas que sabidamente não escondia seu desagrado ao carinho que Percilio se referia aos “pais adotivos”, que cuidaram dele, no período que esteve desmemoriado. Depois de tantos anos de convivência, nunca, o relacionamento da família de Raquel e dos irmãos Massina tinha estado tão deteriorado. Vários acontecimentos isolados contribuíram para que esta situação se delineasse, mas a morte do patriarca da família, Jeremias,  tinha sido a gota d’agua. Era ele que mantinha o bom relacionamento, em nome de uma amizade de anos. Não admitia que ninguém de sua família se indispusesse com qualquer membro da família de Jonas, mas com seu falecimento, esta determinação foi esquecida e o relacionamento estava se tornando cada vez mais insustentável.
     Laurinha, a única das três que ainda conversava com um membro da família, a cunhada Mariane, que sempre cuidou dos sobrinhos, filhos de Joninho – correu para procurá-la, queria contar a novidade antes que Percilio chegasse, no caminho se encontrou com Sibila que se dirigia a caverna de Ana. Laurinha perguntou ofegante:
     – Cadê sua tia?
     – Tia Mirla? Perguntou a menina.
     – É claro que não, esta eu não quero saber se está viva ou morta, respondeu com rispidez.
     Sibila completou, ignorando a grosseria da pretensa tia.
     – Tia Mariane está na caverna de meu avô, ele não está se sentindo muito bem.
     Com um sorriso nos lábios, Laurinha nem respondeu, subiu rapidamente as escadas que a separava da caverna onde estava Mariane, bateu na porta e aguardou inquieta. Depois de alguns segundos, a irmã de Percilio saiu, se assustando com a visita. Disse sem
muita cerimônia:
     – O que aconteceu? Algum problema com os meninos?
     – Não, disse Laurinha, como que procurando as palavras para continuar.
     – Eu vim te contar uma novidade! Seu irmão, o líder da Comunidade, está chegando, trazendo seu segundo pai para morar aqui.
     Sem que houvesse tempo para Mariane fazer qualquer comentário, Jonas apareceu ao lado da porta, disse sem titubear:
     – Como assim? Você está louca como sempre, Percílio saiu ontem para visita-lo, é impossível que já tenha chegado lá e voltado em sua companhia.
     Parecendo desconcertada mais ao mesmo tempo feliz, Laurinha disse em um só folego:
     – Como sempre, ninguém acredita em mim. O senhor vai engolir sua língua!
     Girou nos calcanhares e foi embora, sem dizer mais nenhuma palavra.
     Não demorou e Percilio chegou, já sabendo que sua cunhada tinha se antecipado e contado a novidade a seu pai. Ele ficou aborrecido com a interferência, mas como não havia outro jeito, se dirigiu a caverna de Jonas, disposto a apagar as chamas.
     Assim que entrou, percebeu o clima pesado. Mariane ao lado do fogão levantou os olhos e esboçou um leve sorriso. Jonas, sentado na cama, com as feições endurecidas, ainda digeria a novidade que já tinha certeza absoluta que era verdadeira – o fato de Percilio se colocar diante dele já era uma confirmação.
    O rapaz sentou-se ao lado do pai e tranquilamente disse:
    – Pai, eu te amo profundamente, quis o destino me colocar diante de Claudius, e seja qual for o motivo, isto não altera o que sinto por você.
    Em um istmo de segundo, Jonas viu toda sua vida com Lucas se descortinar diante dele, no âmago de sua alma, podia sentir a alegria do menino, que sentado ao seu lado, aguardava que um grande peixe mordesse a sua isca. Lembrou-se da difícil gestação de Maila e principalmente da certeza que tinha recebido como filho um rapaz de uma grandeza imensurável. O nome Aimanon começou a vibrar em sua mente e em seguida viu claramente Anita sorrindo, com um lindo buquê de amarílis nas mãos, parecendo dizer:
     – Vovô, o Grande Deus sabe o porquê de tudo, não se aflija, receba um grande amigo que retorna!
     Percilio se assustou com a passividade do pai, Jonas não mexia um musculo, seus olhos perdidos, denotava que sua consciência estava muito além daquela caverna incrustrada em uma pequena ilha perdida no imenso Planeta Azul. O jovem aguardou pacientemente que o pai se recuperasse, estava decidido a não dizer mais nenhuma palavra enquanto Jonas não se manifestasse. Passado o instante de divagação, Jonas virou lentamente a cabeça em direção ao filho, disse, com os olhos marejados de lágrimas:
    – Filho querido, seu pai também te ama muito, e quem sou eu para impedir que você dê a mão a um amigo que retorna.
    Mariane, observando a cena, pensou:
    – Papai não deve estar no seu juízo perfeito!
    Percilio, por outro lado, entendeu perfeitamente a colocação, apesar de não conseguir localizar em suas lembranças lúcidas a explicação lógica para esta misteriosa resposta.
    – Agora me conta, como você já está de volta, se partiu ontem para visitar o feiticeiro? Perguntou Jonas.
    A resposta foi instintiva, no ímpeto de não piorar a situação, Percilio fez a seguinte colocação:
    – É uma longa história, depois você vai ficar sabendo em detalhes, mas o que eu gostaria de saber agora é se você permite que Claudius se estabeleça na Grande Pedra pelo tempo que ele desejar?
    Jonas, de posse de uma lucidez que a tempos não sentia, respondeu:
    – Filho, você é o líder da comunidade, quem autoriza ou não alguém a morar aqui é você, mas neste caso, preciso te dizer que recebo o bondoso homem que cuidou de meu filho com muito amor de braços abertos. Fique tranquilo, deste momento em diante, não me referirei mais a ele como “feiticeiro” e sim como Claudius, o homem com quem tenho uma dívida eterna.

continuação… 

 

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