Mykonos-86

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 Cada vez mais curioso, mas ciente que este assunto deveria ser muito bem abordado, mais em outra ocasião, o rapaz disse:
     – Pai, precisamos prosseguir esta conversa depois, agora quero saber como está sua perna, diminuiu a dor?
     Claudius, entendendo perfeitamente a posição do filho, disse.
      – Eu também sou desta opinião, quando chegarmos ao nosso destino, sentaremos, e eu te direi tudo sei a esse respeito e detalhes dos últimos dias de Sara.
      Após uma rápida checagem na perna afetada, Percilio concluiu que o veneno da cobra já tinha sido absorvido pelo organismo e por um milagre não havia chegado ao coração do alquimista. Apanhou algumas sementes que trazia em seu bornal, que naquele momento já não existia mais, pois foi de muita valia para que o desfecho não tivesse sido uma tragédia. Pediu que Claudius as comesse, pois ele precisava de energia para enfrentar a dura caminhada até a Grande Pedra.
    Antes que o sol raiasse totalmente, eles se colocaram a caminho de novas incumbências, Percilio providenciou um galho de amendoeira para que Claudius pudesse se apoiar, mas mesmo assim, ofereceu seu ombro para que o alquimista caminhasse com mais segurança.
    Levaram o dobro do tempo para fazer o trajeto, por volta do meio dia, avistaram a grande mancha escura que se interpunha entre o céu e a floresta. Claudius pediu para descansar um pouco, precisava se refrescar e conversar um pouco com Percilio.
    – Naim! Disse temeroso.
    – Eu preciso te dizer o que meu coração me pede para te revelar neste momento.
    Sentindo que algo muito importante estava para ser dito, Percilio, sentou-se ao lado do pai, dizendo.
    – Sou todo ouvidos, diga o que te aflige.
    Depois de alguns segundos, Claudius disse o motivo pela qual buscava se encontrar com ele:
    – Filho, sua mãe me pediu que eu ficasse ao seu lado até o ultimo dia de minha vida.
    Uma lágrima furtiva pode ser vista escorrendo pela face calejada pelo trabalho, Claudius prosseguiu.
    – Em nome do meu amor por ela e pelo seu frágil estado de saúde, eu concordei, disse que ela poderia ficar tranquila que eu iria procurá-lo.
   Parou um pouquinho e emocionado prosseguiu.
    – Depois que ela se foi, pensei muito sobre esta promessa. Dúvidas me invadiram a mente, afinal eu ainda tenho saúde e posso prosseguir vivendo sozinho do meu trabalho,  mas algo me dizia que eu devia procurá-lo. Fiquei uma semana sem saber o que fazer, então decidi conversar com meu amigo Marriot, precisava saber como você estava e principalmente como seu pai verdadeiro me receberia, caso eu decidisse vir morar na Grande Pedra, pois, as poucas vezes que conversamos, senti que ele não se sentia à vontade em pensar que você me considerava como seu pai também.
    Neste momento, Percilio chorava copiosamente, disse com toda sinceridade:
    – Pai, eu te amo profundamente, mas o senhor tem razão, meu pai Jonas, sente muito ciúmes da relação que construímos nos anos que fui acolhido por você e Sara, mas por favor, me diga o que Marriot te disse, ele é um bom homem e conhece profundamente meu pai, até mais do que eu.
    – Ele me disse que seu pai me receberia de braços abertos.
    Percilio abriu um largo sorriso, completou.
    – Eu tenho certeza absoluta que sim!
    Claudius prosseguiu.
    – Filho, eu tenho ciência do amor que você sente por mim, mas também sei que o seu pai verdadeiro é Jonas, por isso, peço que de agora em diante me chame pelo nome –  Claudius. Sua mãe Sara, de onde ela estiver, concorda com comigo, pois um dia ela me disse que o amor que sentimos por você transcende o que os nossos olhos conseguem ver, e é essa a minha opinião, independente se somos pai e filho, se somos amigos, se somos filho e pai, o que importa é o sentimento que nos une e não a maneira como nos referimos um ao outro.
    Neste momento, Percilio se levantou, abaixou-se diante do velho alquimista e como um urso que protege sua cria, o abraçou como nunca havia feito antes. O abraço durou preciosos segundos, tempo suficiente para que seres de luz se aproximassem e envolvessem pai e filho com energias etéreas que seriam levadas através do trabalho de ambos até os incontáveis doentes – do corpo, da mente e do espírito – que necessitavam de carinho e dedicação.
   Após este emocionante encontro, onde também se presenciava, a energia de Anita, de Messias, de Alberto e de muitos outros amigos, Percilio disse emocionado:
     – Pai, ou melhor, Claudius!! Eu gostaria que de agora em diante você me chamasse apenas de Percilio, ele é Naim, ao mesmo tempo que é Lucas, o filho de Jonas.
     – Sim Percilio, eu compreendi perfeitamente!
     Respondeu Claudius, dando a entender que estava pronto para chegar ao seu destino: A Grande Pedra.
     E assim, pai e filho, prosseguiram, carregando algo mais, um pacto de amor e trabalho cujos primórdios remonta a um tempo perdido no calendário dos homens. Depois de cerca de meia hora de lenta caminhada, já conseguiam vislumbrar várias pessoas que também se dirigiam ao mesmo destino. Eram os trabalhadores, moradores da Comunidade, que neste dia encerraram o expediente mais cedo porque a colheita tinha praticamente se encerrado e havia necessidade de aguardar o período das chuvas para voltarem a preparar a terra e iniciarem um novo ciclo de infindável trabalho em busca de subsídios para sobreviver e alimento para sustentar o corpo.
   Percílio pediu que Claudius descansasse um pouco e seguiu sozinho ao encontro do grupo. O primeiro que percebeu sua presença foi Rafael e depois todos os outros, mas quem ele procurava não estava com eles – Jonas. Cirilo explicou que o pai decidiu ficar na Grande Pedra, caso houvesse uma emergência, já que o trabalho na plantação, naquele momento, não exigia tantos braços. Percilio fez sinal que queria conversar em particular com o irmão e o amigo. Assim que os outros trabalhadores se afastaram, ele disse, se dirigindo ao irmão:
    – Cirilo, por favor, vá com Rafael até aquele senhor!
    Virou-se e apontou para Claudius que aguardava a uns oitocentos metros de distância.
Tanto Cirilo como Rafael observaram ao longe, buscando um traço que fosse familiar. Como nenhum dos dois o reconheceu, Percilio completou:
    – Vocês não o conhecem, ele é Claudius, o alquimista que me acolheu em sua casa e em sua vida quando eu me afastei do convívio com vocês. Ele vai morar conosco na Grande Pedra, por isso gostaria muito de conversar com papai antes que todos ficassem sabendo da novidade.
    Voltando-se para Rafael, falou:
    – Ele foi picado por uma cobra venenosa, por milagre ainda está vivo, por favor, cuide da ferida e faça companhia a ele enquanto vou ter com meu pai para conversarmos longe dos olhos dos outros moradores.
    Desta vez, orientando Cirilo:
    – Irmão, faça companhia a Claudius, auxilie Rafael, caso haja necessidade de alguma coisa, venha buscar na Grande Pedra mas não deixe que ele prossiga enquanto eu não voltar.
    Os dois rapazes assentiram com a cabeça e foram ter com Claudius que aguardava com uma certa ansiedade.

continuação…

 

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