Mykonos-85

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   Sem dar ouvidos a menina, Percilio se colocou a caminho de Semiris sózinho, saiu bem cedo, antes do sol nascer, pretendia chegar na cabana da floresta antes do final do dia. No caminho, seu pensamento se voltou ao alerta da filha, mas preferiu creditar a coisas de criança. Caminhava rápido, sem se preocupar em olhar ao redor, quando de repente, teve a impressão de ouvir um gemido vindo da mata que ladeava a picada que seguia. Parou um pouquinho, prestou atenção ao ruído que prosseguia. No momento, teve certeza que era alguém que precisava de ajuda, sem pensar duas vezes, entrou na mata. O que viu, causou lhe uma surpresa indescritível. Deitado de bruços, com o abdômen sobre uma pedra e as pernas no ar, um homem que lhe pareceu muito familiar. Se aproximou mais um pouco, abaixou-se ao seu lado e só então pode ver o rosto, exclamou:
  – Pai!!
  Era mesmo Claudius que tinha sido mordido por uma cobra, ele tentava fazer com que o veneno não se espalhasse por seu corpo. Percilio imediatamente apanhou em seu bornal uma faca, cortou-o em diversas tiras, deixando os objetos que carregava no chão. Examinando o pé de Claudius, percebeu que a picada tinha sido bem próxima do calcanhar esquerdo. Com o auxílio de alguns galhos, preparou um torniquete que aplicou na altura da panturrilha, apertou o quanto pode, enquanto isso, o marido de Sara prosseguia gemendo, tal a dor que o veneno provocava em seu corpo.
   -Agora é uma questão de horas, pensou Percilio.
  Se o torniquete foi suficiente para conter o veneno que seria fatal se atingisse o coração, Claudius estaria salvo, caso contrário, só lhe restaria encomendar e enterrar o corpo do amigo. Sentou-se ao seu lado e  orou como nunca havia feito. Pediu que o Grande Deus protegesse seu pai neste momento de tanta angústia. Depois de quase uma hora orando com os olhos fechados, Percilio sentiu um leve puxão em sua vestimenta, abriu os olhos e viu Claudius exibindo um largo sorriso. A dor foi tanta que o alquimista desmaiou assim que o torniquete foi colocado em sua perna, mas já faziam alguns minutos que ele observava o rosto do rapaz que um dia acolheu menino em sua casa. Agora, tinha certeza que o pior já tinha passado, ele se recuperaria.
    Percilio não se conteve, assim que percebeu que Claudius tinha melhorado, abraçou-o como nunca tinha feito antes e a seguir chorou. Disse que o amava profundamente e que jamais imaginaria que um dia o reencontro fosse daquela maneira.
    Claudius por sua vez, também ficou muito emocionado. A saudade do filho que ele recebeu em sua vida e em seu coração, era tanta, que lhe fugiam as palavras, ele apenas prosseguiu observando Percilio. Com o passar do tempo, as ideias foram clareando, e só aí Percilio se deu conta que Claudius estava sozinho, perguntou:
    – Cadê Sara papai?
    Ele viu claramente o rosto de Claudius se transformar totalmente, as feições endureceram, as mãos crisparam e a resposta foi como uma flecha a atingir o coração de Percilio.
    – Ela morreu a uma semana, eu enterrei o corpo, fechei a cabana e fui até Semiris conversar com meu amigo Merriot, a conselho dele, decidi te procurar, afinal, você e Mirtes são as únicas pessoas que ainda tenho nesta vida.
    Percilio levou um choque, não esperava tal revelação, imediatamente pensou nas palavras de Sibila, balançou a cabeça como que tentando colocar as ideias em ordem. Disse pesaroso:
    – Sinto muito papai, eu também a amava profundamente. Mas como foi isso? A última vez que a vi, ela estava muito bem!
    Naquele momento, podia-se vislumbrar uma lágrima furtiva escorrendo pelo rosto do alquimista. Ele respirou fundo e a seguir disse:
    – Filho, sua mãe nunca mais foi a mesma desde que você foi embora. Ela foi definhando aos poucos, sempre me dizia que queria muito revê-lo, mas infelizmente isto não foi possível, toda vez que decidíamos te fazer uma visita, algo acontecia. A última vez foi a dois meses atrás, estava tudo pronto para partirmos quando Sara começou a sentir fortes dores nas pernas, de uma hora para outra, praticamente parou de andar.
     Claudius continuou a narrativa muito emocionado, apesar de Sara não ter sido sua primeira esposa, ele a amava profundamente. Foram muitos anos de convivência, onde ele aprendeu a admirá-la, por sua sensatez e força de vontade em auxiliá-lo no que fosse necessário. Quando Lucas chegou à cabana da mata, ela viu seu maior desejo se realizar, ter um filho, mas quando ele partiu, seu espírito se vestiu de luto e nunca mais sentiu a mesma alegria de viver.
    Finalizando, o alquimista completou:
     – No dia que ela se foi, eu a vi conversando pelo manhã com alguém invisível.
     Como assim pai, perguntou Percílio.
     – Acho que ela delirava filho, mas eu ouvi perfeitamente ela dizer um nome, Suzana.
     O rapaz que ouvia atentamente a narrativa, deu um grito de surpresa. Claudius se assustou com a reação de Percílio, disse:
     – Você conhece alguma Suzana?
     – Sim e não! Respondeu Percílio, prosseguindo:
     – No dia que minha mãe morreu eu ouvi este nome pela primeira vez, mas sempre pensei que estivesse delirando.
    Claudius ficou em silêncio, parecia pensativo, escolhendo as palavras que ia dizer, depois de algum tempo, falou lentamente:
     – Filho, você precisa saber o que Sara me disse em seus últimos relatos, ela me confidenciou que via seres que pareciam envoltos de muita luz, mas o nome Suzana, ela disse uma única vez, mas agora estou muito cansado e ainda sinto muitas dores em toda a perna, preciso descansar um pouco.
    – Claro pai!! Respondeu Percilio prontamente.
    – Vamos passar a noite aqui, amanhã bem cedo pegaremos a direção da Grande Pedra.
    E assim o fizeram, naquela época do ano a temperatura amena que fazia durante o dia, prosseguia à noite. Era um convite para um descanso reparador. Claudius estava tão cansado que adormeceu rapidamente. Percilio não, só dormiu alta madrugada e mesmo assim teve um sono entrecortado, acordou diversas vezes. Próximo ao amanhecer conseguiu dormir mais profundamente, mas mesmo assim, teve um sonho que parecia real. Se viu mais jovem, caminhando em direção a uma casa que parecia flutuar na linha do horizonte, estava bem vestido, dando a impressão que se dirigia a alguma comemoração especial, tinha consciência que estava sendo acompanhado por outras pessoas, mas não conseguia distinguir quem eram. Após transpor o portão da residência, parou diante da grande porta de entrada. Como por encanto, ela se abriu e Percilio pode ver com clareza o interior da sala principal, lá dentro haviam muitas pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todos muito bem vestidos. Após alguns segundos, seu olhar pousou sobre uma linda jovem, vestida de branco, sorrindo para ele. Neste momento, o rapaz deu um grito estridente e a seguir pronunciou um nome:
     – Suzana!!
     Claudius acordou assustado, pensou que Percilio tinha sido mordido por outra cobra. Falou preocupado:
     – O que aconteceu?
     Ele, ainda deitado, balançou a cabeça, dando sinal que não havia motivo para preocupação, falou:
     – Acho que Suzana foi minha esposa. Mas como pode ser isso? Se sou casado com Mirtes?
     Depois de alguns instantes de reflexão, prosseguiu.
     – Pai, nós nunca falamos sobre isso, mas o senhor acha que já vivemos outras vidas, em outros lugares, com outras pessoas?
     Claudius respondeu sem pestanejar.
     – Tenho certeza absoluta que sim. Nós já pertencemos à mesma família, senão o Grande Deus não nos reaproximaria.

continuação…

 

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