Mykonos-84

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  CAPÍTULO 11
OS MÉDIUNS TRABALHAM
   O verão findava, a estação que anunciava a transformação da natureza e trazia consigo o frio cortante das noites límpidas, se fazia sentir na tristeza que pairava no ar e nos corações da Comunidade da Grande Pedra. Após a partida de Anita, todos sentiram que um pouco da alegria que envolvia todos os moradores se fora, juntamente com a menina bondosa de cabelos encaracolados e coração sempre disposto a auxiliar quem quer que fosse. Este ano, diferentemente dos outros anos,  a colheita não tinha sido tão generosa como estavam acostumados, o tempo não ajudou, choveu quando tinha que fazer sol, ventou quando o algodão abria suas flores.
   Percilio insistia em trabalhar em dois turnos, durante o dia na plantação, roçando, colhendo, plantando, e à noite e nos finais de semana atendendo não só os moradores da Grande Pedra, como também pessoas que vinham de longe em busca do alento para suas dores. A antiga cabana de Sibele foi reservada para os doentes que chegavam e precisavam de abrigo. Naquele finalzinho de verão, sentindo-se esgotado com tantos afazeres, o líder da Comunidade buscou se aconselhar com Hipólito, que desde a morte de Anita se fazia presente em todos os atendimentos, prestando um auxilio inestimável ao rapaz que se desdobrava em ser útil.
     Certo dia, assim que chegou em casa, Percilio pediu que Sibila chamasse o velho nativo que por seu problema nas pernas já não ia todos os dias para a lida.
    Ao vê-lo, Percilio disse:
    – Hipólito, precisamos conversar um pouco, eu pediria que você fosse muito sincero comigo.
    O nativo o olhou com um visível ponto de interrogação na mente, replicou:
    – Meu amigo, pode me dizer o que te aflige, serei o mais sincero possível.
    Percilio pensou um pouco, falou:
    – Eu sinto que estou me desgastando muito, e mesmo assim, não estou conseguindo fazer bem, nem o trabalho na plantação, nem o atendimento aos doentes, pois chego na Grande Pedra tão cansado que não consigo me concentrar. Gostaria de ouvir de você, qual o melhor caminho a seguir.
    Hipólito se sentindo honrado por Percilio ter se dirigido a ele e não ao seu pai ou ao seu irmão, respondeu com deferência:
    – É uma honra dar minha opinião, que não poderia ser diferente de que não há como continuar desta maneira. Você precisa priorizar atender os que te procuram, o trabalho na plantação prosseguirá sem os seus braços pois muitos jovens estão preparados para substituir aqueles que precisam abraçar outras tarefas.
     Percilio pensou um pouco, perguntou:
     – Você acha que mais alguém poderia se juntar a nós?
     – Sim amigo, tenho certeza que Lêntulo gostaria muito de nos auxiliar.
     Surpreso, o rapaz exclamou:
     – Mas Lêntulo não enxerga quase nada, ele precisa sempre de alguém ao seu lado para    conduzi-lo.
     – Não se preocupe com isso, eu serei seus olhos. Afirmou Hipólito.
    Dando por encerrada a breve conversa, Percilio completou que pensaria em cada palavra que tinha sido colocada. E assim o fez, a partir daquele dia começou a se preparar para se afastar definitivamente do trabalho na plantação, mas para isso, precisava do aval de Jonas e se certificar que não haveria diminuição da produção. Com relação a Lêntulo, Hipólito levantou uma possibilidade que jamais havia passado por sua cabeça. O rapaz ajudava na lida, mas com a mobilidade restrita, era lento e muitas vezes se confundia, mais atrapalhando que ajudando.
   Três meses, foi o tempo necessário para que Percilio se sentisse seguro o suficiente para tomar este passo que significaria uma mudança tão radical em sua rotina. A princípio, pensou em prosseguir trabalhando na plantação duas vezes por semana, mas Jonas, com seu usual bom senso, afirmou:
   – Filho, eu sei que você teme se afastar de nossas obrigações diárias, mas acredito que auxiliar pessoas necessitadas é muito mais importante, ainda mais que o Grande Deus sempre nos supriu com tudo que precisávamos.
   Percilio refletiu muito sobre esta colocação de seu pai, convenceu-se que o fato de sua vida sempre ter sido direcionada para curar os males do corpo e do espírito, de todos que se aproximavam dele, devia significar que o Grande Deus tinha lhe dado uma grande missão e ele tinha obrigação de fazer jus a esta confiança.
   Neste período, Lêntulo também foi preparado, a princípio se recusou a aceitar deixar a lida pois imaginou que estivesse sendo poupado por apresentar deficiência visual mas depois que Percilio lhe explicou detalhadamente qual seria sua nova incumbência, ele se acalmou e aceitou. A muito tinha a nítida impressão que poderia fazer muito mais, sua mediunidade de cura o deixava confuso, a ponto de imaginar que jamais conseguiria ser mais útil, mas o sentimento de que algo maravilhoso o aguardava jamais o deixou, nestes momentos, ele se recordava de sua mãe que sempre lhe dizia que ele era especial. Mas, fazer o quê? Sempre se perguntava. No dia que seu irmão o procurou, tinha acabado de entornar um cesto cheio de milho recém colhido, por não ter visto uma pedra no meio do caminho. Imaginou que ele queria afastá-lo porque o achava incompetente, mas quando Percilio lhe disse que ele próprio também se afastaria para cuidar dos doentes, pediu que o irmão lhe explicasse melhor qual seria seu novo trabalho. Quando ouviu:
   – Você trabalhará para o Grande Deus, usando suas mãos para curar as doenças que não podem ser vistas pelos nossos olhos.
   Imediatamente o rapaz que tanto sofreu por não ter a visão saudável, abraçou o irmão, sentindo que sua mãe o observava feliz. Disse:
   – Sim, eu aceito, meu irmão!
   Naquele dia, ele dormiu tranquilo, com a certeza que uma nova etapa se iniciaria em sua vida, tal era a crença que o Grande Deus cuidaria para que ele pudesse ser útil, independente das dificuldades que sempre encontrou.
  Lêntulo, assim como Luizinha e Mirtes, foram tratados pelos médiuns da Comunidade em sessões que ocorriam semanalmente em um local que ficava atrás da Grande Pedra, onde os moradores se reuniam para orar e agradecer ao Grande Deus pelas benesses recebidas. Dos três, apenas Mirtes prosseguia sob tratamento para “limpar” sua energia de influências maléficas que a centenas de anos teimavam em acompanhá-la.
  Quem coordenava este trabalho era Albertinho, agora, um rapaz seguro e claramente intuído por Amigos de outras dimensões, que a partir do momento que decidiu ajudar, deixando o medo de lado, puderam se aproximar e auxiliar na depuração da energia consciencial de muitos moradores da Grande Pedra e outros doentes que procuravam Percilio para tratar os males do corpo, mas que segundo Albertinho, utilizando seu dom de vidência, precisavam também passar por tratamento espiritual.
   Uma semana antes de comunicar seu afastamento do trabalho na plantação, Percilio decidiu visitar Claudius e Sara. Desde a chegada do nativo Hipólito, ele aguardava ansiosamente que seus pais viessem até à Grande Pedra, mas como isso não ocorreu, primeiramente devido as chuvas que castigaram a região por meses seguidos, depois, uma doença misteriosa que acometeu Sara e a impedia de caminhar. O rapaz tinha a impressão que não devia mais protelar o encontro, já que eles não vieram, ele decidiu ir até a cabana da floresta. De início, Jonas discordou, dizendo que seria uma caminhada inútil, mas depois, movido por um sentimento de agradecimento, disse a Percilio que era o melhor a ser feito. Sibila pediu para ir junto, mas Percilio não permitiu, deixando a menina muito triste, a ponto de dizer a seu pai que ele deveria se preparar pois Anita havia lhe falado em um sonho que algo muito triste estava para acontecer.

continuação…

 

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