Mykonos-83

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   Neste momento, ouviram novamente os gritos de Mirtes, desta vez mais próximo, ela estava de pé, prestes a entrar na caverna de Mirla. Sibila virou-se rapidamente, disse para mãe:
   – Por que você está gritando mamãe, vovó já foi embora.
   Parecendo confusa, Mirtes respondeu:
   – Eu não gosto que você fique de conversa com esta aí, foi ela que me roubou Anita.
   As três perceberam de pronto que Mirtes delirava, estava completamente isenta de razão.
   Neste momento, ouviram passos de alguém que subia as escadas que dava acesso a plataforma superior, era Percilio. Assim que a confusão inicial se tornou assunto de todos os moradores, Raquel pediu que sua neta Pilar, filha de Joninho e Laurinha, corresse até a plantação e chamasse o marido de Mirtes, ela temia que o estado de sua amiga se agravasse e pudesse causar algum dano aos moradores da Comunidade.  Assim que o viu, Sibila soltou um grito de alivio, correu a abraçá-lo, dizendo:
   – Papai, mamãe não está bem, por favor converse com ela.
   Calmamente, Percilio deu um longo abraço na filha, abaixou-se e disse:
   – Não se preocupe filhinha, papai vai conversar com mamãe e logo ela estará melhor.
   Mirtes que ouviu o diálogo, disse a seguir:
   – Eu não quero conversar com você, mamãe está lá dentro e tenho certeza que ela vai dizer coisas a meu respeito, e você vai acreditar como sempre.
   Percilio fez de conta que não ouviu, puxou Mirla para dentro da caverna, disse em seu ouvido.
   – Vá agora mesmo procurar papai, Albertinho e Cirilo, digam que eles venham até aqui.
   Mirla retrucou:
   – Mas eles estão na plantação!
   – Não, não estão, eles vieram comigo, corra e traga-os até aqui agora mesmo.
   Mirla compreendendo a gravidade da situação, desceu correndo escada abaixo.
   Virando-se para as duas meninas, Percilio completou:
   – Vocês duas, fiquem com Ana, que eu preciso conversar sozinho com Mirtes.
   A seguir, chamou delicadamente a esposa, que a princípio resistiu, mas depois, como que conduzida por uma força maior, seguiu o marido em direção à caverna da família. Após alguns minutos de silêncio absoluto, Percilio falou:
   – O que está acontecendo com você, sua mãe já morreu, ela não poderá me dizer nada que possa te atingir.
   Muito nervosa, Mirtes disse:
   – Perdão Percilio, eu menti para você. Minha mãe nunca teve nenhum amante, a pedra preciosa que eu disse ser dele, na verdade, eu achei entre as coisas de Cirilo e peguei para mim.
   – Não se preocupe mais com isso, eu sempre soube, o próprio Cirilo me disse que a pedra que ele havia encontrado na praia havia desaparecido, na hora entendi que você havia me pregado uma grande mentira, mas isso é coisa do passado, esqueça.
   Mirtes abaixou a cabeça envergonhada, naquela momento, toda a irritação havia desaparecido, ela parecia muito mais uma criança indefesa.  Percilio percebendo isso, sentou-se ao seu lado e disse baixinho:
   – Mirtes, precisamos conversar seriamente a respeito de seu comportamento nos últimos tempos, eu estou muito preocupado com você, não é normal alguém reagir com tanta agressividade sem nenhum motivo. Sua mãe está morta, isto é certo, eu não compreendo como ela pode ter sido o estopim de tanta confusão.
   – Percilio, eu preciso te confessar uma coisa. Mamãe me persegue sempre, por mais que eu tente ela não me deixa, vive me dizendo que foi ela que levou Anita por eu ter sido uma mãe muito má.
   Neste momento, Mariane apareceu na entrada da caverna e pediu que Percilio a acompanhasse. Bastou isso, para que Mirtes começasse a destratar a cunhada, dizendo:
   – Saia já daqui, é por sua causa que minha mãe vive me recriminando, se não fosse você, que carregou minha filha para longe de mim, eu poderia ter tido uma chance de amá-la.
   Ao ouvir isso, Percilio abaixou a cabeça desanimado, instintivamente disse mentalmente:
    – Preciso de ajuda, tenho certeza que não conseguirei auxiliar Mirtes.
    – Filho acalme-se!
    Ouviu claramente a voz de Menéas que veio em seu socorro. Desde o dia da morte de Anita em que ele se revoltou contra a vontade de Deus, dizendo que ele não existia, as vozes que o auxiliavam desapareceram totalmente, a última vez que recebeu uma orientação de seu velho amigo, foi quando, amarrado na cama, sentiu um alivio quando percebeu que Menéas o orientava, mas depois disso, ele nunca mais ouviu sua voz.
   Menéas prosseguiu:
   – Percilio, já se passarem três meses da morte de Anita, chegou a hora de você prosseguir um trabalho que ainda não se encerrou. Siga sua irmã até sua caverna, seu pai e seu irmão o aguardam, em companhia de Albertinho, chegando lá, peça que Mirla volte e faça companhia a Mirtes, não se preocupe que eu a acalmarei.
   E assim foi feito, ao chegar a caverna de Mirla, Percilio encontrou seu pai muito apreensivo. Viu Cirilo sentado na cama, de cabeça baixa, parecia meditar, Albertinho assustado com o curso dos acontecimentos,  tinha certeza que à partir de agora ele teria que enfrentar algo que fugiu durante toda a vida.
   Percilio disse.
   – Vamos fazer uma oração de mãos dados, depois conversamos. Os três homens se aproximaram imediatamente, seguraram as mãos uns dos outros, formando um círculo. Após alguns segundos de absoluto silêncio, Percilio falou:
   – Grande Deus, com a sua condução, estamos a inteira disposição para dar início a este trabalho que poderá auxiliar tantos irmãos em desiquilíbrio. Peço humildemente que nos proteja e nos guie.
   Após estas rápidas palavras, todos sentiram como que invadidos por uma energia de paz e segurança que não deixava dúvidas que eles estavam sendo amparados por uma força sobrenatural.
   A seguir, Percilio pediu que os três homens o acompanhassem até sua caverna. Aos vê-los entrar, Mirla fez menção em sair, mas seu irmão pediu que ficasse, ao mesmo tempo que olhou firmemente para a esposa que neste momento parecia mais calma, disse:
  – Mirtes sente-se nesta cadeira, feche os olhos e deixe que façamos uma oração para que você fique melhor.
  A princípio, ela pareceu não ter entendido, mas alguns segundos depois, levantou-se e dirigiu-se a cadeira, no meio da caverna, a qual o marido apontava. Sentou-se e fechou os olhos.
 Todos os presentes, inclusive Mirla, se posicionaram em círculo ao redor da cadeira, estenderam os braços e com as mãos espalmadas começaram a orar e visualizar na tela mental  a imagem que faziam do Grande Deus, pedindo que as energias ruins que porventura estivessem ao lado de Mirtes se deslocassem para outros lugares deste imenso Universo.     Foram aproximadamente três minutos, findo este tempo, todos abaixaram os braços e começaram a sair sem nada dizer, dando a nítida impressão que algo acima do entendimento dos parcos conhecimentos que eles tinham a respeito do mundo espiritual, os conduzia.
  Os últimos acontecimentos foram traçados de uma maneira absolutamente intuitiva, nada tinha sido combinado com antecedência, pelo contrário, no caso de Cirilo, ele desconhecia totalmente o motivo pelo qual o irmão tinha pedido que ele o acompanhasse até a Grande Pedra antes do final do dia de trabalho. Albertinho e Jonas, ao saberem que Mirtes estava tendo uma séria crise de desequilíbrio, concluíram que eles precisavam auxiliar Percilio a tentar manter seu espírito em equilíbrio, afastando as energias ruins. Mirla, apesar de ser uma médium de vidência, tempos atrás, tinha pedido ao irmão que não contasse com ela caso precisasse de algum auxílio que envolvesse este assunto, de tão difícil entendimento. Na ocasião, ela disse que estava à disposição para cuidar das meninas, lavar suas roupas ou qualquer outra tarefa que dissesse respeito a algo que ela soubesse fazer.
  Percilio assistiu impassível a saída de todos os familiares, assim que se viu sozinho com Mirtes, se aproximou da esposa, abaixou-se, pois ela permanecia sentada com o olhos fechados parecendo estar em outra esfera de vida. Disse baixinho em seu ouvido:
  – Mirtes, você vai ficar boa, o Grande Deus jamais abandona um filho que passa por um momento de necessidade.
  Ela abriu lentamente os olhos e lágrimas furtivas escorreram por seu rosto, demonstrando que tinha consciência do bem que seus amigos haviam praticado.

continuação…

 

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