Mykonos-76

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  Com o pouquíssimo conhecimento que os dois irmãos tinham sobre o assunto não era possível formatar nenhuma estratégia de auxílio ao irmão caçula. Percilio pensou um pouco, prosseguiu:
  – Eu sempre pensei que o que aconteceu com Joninho fosse algo ligado a este tipo de interferência, mas eu não sei o que poderemos fazer para auxiliar Lêntulo, que aliás, hoje pela manhã agrediu verbalmente Mirtes sem tem sido molestado por ela.
  – Está vendo? Se não fizermos nada, logo perderemos nosso irmão!
  Neste momento, um barulho vindo da mata chama a atenção dos dois irmãos, era Lêntulo que se aproximava. Aproveitando a ocasião, Percilio levantou-se e pediu que o irmão caçula sentasse ao seu lado. A princípio ele titubeou, mas algo que atingiu diretamente seu coração obrigou-o a obedecer. Passados alguns segundos de um profundo embaraço, o rapaz falou:
  – Eu sei o que você quer conversar comigo, mas preciso te dizer que não queria falar aquelas asneiras para Mirtes.
  Lêntulo abaixou a cabeça e lágrimas escorreram de seus olhos, fazendo que os dois interlocutores se emocionassem profundamente.
  – Calma irmão, eu sei que você é bom e sensato, vamos conversar sobre isso.  Percilio falou pausadamente.
  Sentindo segurança e no ápice do desespero, o rapaz desabafou:
  – Quando mamãe morreu eu morri um pouco com ela, depois disso, eu sinto que não sou mais eu que comando minhas atitudes. Eu sei que algo ou alguém me conduz, me diz o que tenho que fazer e não é nada de bom.
  Cirilo, vendo confirmada suas suspeitas, completou:
  – Eu e Percilio não sabemos muito deste assunto, mas vamos te ajudar, fique tranquilo.
  Os três irmãos se abraçaram como nunca tinham feito antes. O amor fluiu em todas as direções, do Alto, via-se um clarão advindo de um pontinho perdido em um Planeta distante, e um pai que um dia foi filho, um irmão que em um passado distante foi amigo e um irmão que já foi pai se uniram novamente para enfrentar algo desconhecido.
  Na manhã seguinte, Percilio foi ter com Hipólito que pernoitara na caverna de Ana e Rafael, que era grande e tinha uma cama extra. Assim que o viu, saudou-o efusivamente, pois o jovem curandeiro não sabia de onde vinha a simpatia que sentia pelo velho nativo. Hipólito correspondeu, dizendo:
  – Filho, que bons ares o trazem, estava ansioso por seu diagnóstico a respeito de minhas pernas, desde que Dr. Alecsander faleceu nunca mais tivemos alguém que cuidasse dos doentes destas terras com tanta dedicação.
  Ao ouvir a referência ao velho médico, Percilio se entristeceu, desde o dia que soube de sua morte, isto, a quase um ano atrás, ele vinha tendo muitos sonhos onde o Dr. Alecsander aparecia e lhe dizia para cuidar de seus doentes. O rapaz olhou para o alto e silenciosamente saudou-o em pensamento. A seguir, pediu que Hipólito se deitasse para que pudesse examinar suas pernas, no momento que tocou a perna direita, ouviu claramente uma voz que lhe disse:
   – Ele tem erisipela, um mal que afeta a circulação, peça que se levante e caminhe lentamente, veja se tem mais dificuldade em apoiar-se com a perna direita.
   Apesar do susto, Percilio fez o que a voz lhe pedia, imediatamente percebeu que a perna direita, além de mais fraca, estava escura com pontos avermelhados do joelho para baixo. A voz prosseguiu dizendo:
   – Peça que ele faça repouso absoluto por no mínimo uma semana, enquanto isso, peça que Rafael prepare infusões de malva e erva de São João e você faça cataplasmas de argila e mel, cubra toda a região onde a coloração está alterada. Ele não pode voltar para Semiris em hipótese alguma, pelo menos nos próximos trinta dias, caso contrário, corre o risco de morrer.
   A riqueza de detalhes impressionou Percilio, até aquele dia, ele seguia sua intuição e os conhecimentos adquiridos com Claudius durante o tempo que morou na casa da mata. Não pode deixar de pensar nas palavras de Lêntulo: -Eu sei que algo ou alguém me conduz!
   Assim que terminou as recomendações, deixou o doente sob os cuidados de Ana, que de imediato aceitou a incumbência, tal a empatia que sentia pelo nativo. Naquela noite conversaram até tarde. Hipólito disse para Rafael que sentiu a morte do aventureiro Mario, sua consciência o castigou pois lhe dizia que deveria ter dito a ele que a bússola estava quebrada, sentiu que indiretamente acabou sendo o responsável pelo desfecho trágico. Rafael ponderou sabiamente:
   – O Grande Deus nos pede que sejamos gentis com aqueles que nos rodeiam, ninguém tem o direito de humilhar seus semelhantes, você omitiu o fato da bússola estar defeituosa porque ele o tratou com desprezo e não porque é mau ou desejasse que tivesse o fim que teve, mesmo porque, só o Grande Deus tem o conhecimento do futuro.
   Hipólito se emocionou com as colocações do novo amigo. Pediu que  prosseguisse falando deste Deus que ele já tinha ouvido falar mas nunca aprendeu muito a respeito, a não ser quando morava em Nápoles e servia na residência da família do velho médico. Lá, aprendeu a respeitar este Deus, que segundo eles era o responsável por tudo que tínhamos ao nosso redor, desde as montanhas, as matas, o mar, até os pássaros e todos os outros animais. Disse também que no fundo no fundo sempre soube que uma força sobrenatural que criou tudo que nos rodeia também estava dentro dele, o conduzindo em todos os momentos. Quando se mudou para Semiris, logo após a morte de Raina, sua esposa, foi orientado por esta força a ajudar Dr. Alecsander a cuidar de seus doentes, que naquela localidade eram muito mais numerosos que na Vila Cantar. Ele afirmou:
  – Era um sentimento tão forte que só podia ser conduzido por algo que estava além de minha própria vontade, de início pensei que era minha consciência pesada que me levava a ajudar os outros, como forma de compensação por ter tido a infelicidade de ter sido o responsável pela morte de Mario.
  Até a alta madrugada os três conversaram sobre diversos assuntos, mas sempre voltavam a mencionar esta força inqualificável que cada um deles formatou durante a vida. Celeste dormia profundamente ao lado dos pais, mas seu espírito em desdobramento pairava sobre os amigos que participavam do alegre colóquio. Após a curta noite de descanso, assim que o sol raiou, Rafael acompanhou os trabalhadores que se dirigiam a plantação para mais um dia de colheita. Ana por sua vez, caprichava no desjejum pois não queria decepcionar o novo amigo, enquanto se ocupava com as panelas, Celeste sentou ao lado de Hipólito e disse:
   – Senhor, ontem à noite uma moça de olhos azuis e cabelos longos me pediu para dizer ao senhor que ela está bem e olha para que não sofra mais com tudo que aconteceu com ela.
   Hipólito arregalou os olhos, respondendo de imediato.
   – Filha, mas eu não vi nenhuma moça nesta caverna, o que vi, foi você dormindo feito uma princesa.
   Celeste, parecendo não ter ouvido a resposta do nativo, prosseguiu:
   – Ora, quando eu durmo eu converso com muitas pessoas. Mamãe me disse que são sonhos e que não devo ficar contando para todo mundo, mas esta moça me falou que o Senhor é bonzinho e que não devo ter medo de dizer o que ela me pediu.
   Com a testa franzida e um ar de descrença, Hipólito perguntou:
   – E ela disse como se chama?
   – Sim, ela se chama Raina. Disse a menina displicentemente.
   Neste momento, Ana anunciou que o desjejum estava servido. Celeste, em um salto, correu para a mesa, deixando Hipólito totalmente paralisado. Ana, percebendo que algo, dito por sua filha, tinha mexido com o velho nativo, disse:
   – O senhor não dê ouvidos a Celeste, ela adora contar histórias que fazem parte apenas de sua imaginação.
   Hipólito, ainda desconcertado, pediu que ela sentasse na beira da cama, pois não poderia deixar de fazer uma pergunta.
   – Em algum momento, durante nossa conversa desta noite, eu disse o nome de minha esposa?
   Ana estranhou a pergunta, mas respondeu categórica:
   – É claro que não, eu nem sabia que o senhor era casado.
  – Não sou mais casado, sou viúvo. Ela morreu logo após o desembarque de vocês na Grécia, mas preciso lhe dizer que sua filha Celeste acaba de me passar um recado enviado por minha falecida esposa, e o mais espantoso é que ela disse o nome dela com todas as letras: Raina!
  Ana levantou-se em um tranco, caminhou resoluta em direção a filha, falou séria:
  – Celeste, eu já te disse para não ficar falando sobre o que acontece nos seus sonhos! Isto é imaginação filha.
  – A menina, mesmo com a boca cheia de pão com geleia de amora, abriu um sorriso, respondeu:
  – Mamãe, não se preocupe, Raina me disse que o senhor Hipólito é uma boa pessoa e não fica contando nada pra ninguém.
  Tudo terminou com muita risada, mas o coração de Ana estava apertado, ela não sabia de onde vinha e como lidar com este dom da filha. Hipólito por outro lado, orou em agradecimento ao Grande Deus e a Raina, pois desde sua morte ele carregava o fardo de não tê-la ouvido no primeiro momento que reclamou de dores, quando Dr. Alecsander a socorreu, já era tarde, a apêndice supurada espalhou pus e bactérias por todo o corpo, levando-a a morte.

continuação….

 

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