Mykonos-67

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  Mirla, como que tomada por uma força descomunal, empurrou Sibele e entrou, se deparou com Mirtes, deitada na cama, se contorcendo de dor. Luizinha e Raquel estavam sentadas na mesa, comendo um pedaço de pão, conversavam animadamente.
  Sem maiores considerações, ela disse incisivamente:
   – Saiam já daqui, as duas!  Eu e Ana resolveremos isto!
   Sibele entrou a seguir, mas não querendo dar motivo a Percilio para expulsá-la da Comunidade, disse calmamente:
   – Pelo que sei, nenhuma das duas sabe fazer um parto mas se é assim que querem, a responsabilidade é toda de vocês duas, se algo acontecer a meu neto ou a minha filha, eu jamais perdoarei.
   Virou nos calcanhares, sendo acompanhada por mãe e filha.
   Assim que a porta se fechou, as duas se entreolharam como se estivessem diante de uma situação totalmente conhecida. Sem dizer uma palavra, Mirla foi até o fogão e colocou água para ferver, Ana sentou-se ao lado de Mirtes, pediu que ela controlasse a respiração e se acalmasse que tudo seria rápido, logo ela teria seu bebê em seus braços.
   Mirtes, já sem forças, agradeceu do fundo de seu coração, o que ela mais queria era que tudo passasse rapidamente. E assim foi, após uma hora, a criança nasceu, uma menina bem pequena.  Assim que Mirla a banhou com todo o cuidado, Ana a envolveu em panos alvíssimos, mas quando fez menção de entregá-la nos braços da mãe, ouviu a seguinte frase:
   – Por favor, tire-a de perto de mim.
   Mirla, totalmente desconcertada, respondeu:
   – Como assim cunhada, a bebê é sua filha e precisa mamar.
   Vencida pelo cansaço e sem condições de raciocinar, Mirtes estendeu os braços,  pegou a nenê das mãos de Ana. O que sentiu no momento que a trouxe para junto de seu peito foi um misto de repulsa com indiferença, mal conseguia olhar para aquele rostinho delicado e indefeso. Ana e Mirla se ocuparam em arrumar a caverna enquanto do lado de fora, Sibele, Laurinha e Raquel, mal continham a ansiedade de saber o que estava acontecendo. Conversavam entre si, utilizando palavras de baixo calão, não escondiam o desejo de que as duas amigas, aparentemente sem experiência em fazer um parto,  abrissem a porta pedindo auxilio. E foi no meio de especulações sem nenhum respaldo que Percilio apareceu de repente. Ele estava trabalhando na plantação quando uma intuição fortíssima invadiu sua mente trazendo um desejo incontrolável de voltar para a Grande Pedra. Assim que viu as três mulheres postadas diante da porta da caverna de seu pai, perguntou em tom autoritário:
   – O que vocês estão fazendo aí, que não estão cuidando de suas vidas?
   Sibele levou um susto, ela fazia o impossível para não desagradar seu genro, tentou pensar rápido, respondeu:
   – Percilio, Mirtes começou a sentir as dores do parto, estamos aguardando o nascimento do meu neto, ou melhor, do seu filho.
   – Como assim estão aguardando? Quem está lá dentro com Mirtes?
   Desta vez foi Raquel que respondeu, mas sem nenhum cuidado para medir as palavras.
   – Sua irmã e Ana, elas nos expulsaram da caverna, disseram que  cuidariam de tudo sozinhas, mesmo não tendo nenhuma experiência em trazer crianças ao mundo. Só o Grande Deus sabe se seu filho e sua esposa ainda estão vivos.
   Percilio se conteve para não agredir fisicamente a vizinha, crispou as mãos e respondeu secamente:
   – Apesar de seu mau agouro, tenho certeza que minha irmã e Ana estão fazendo muito bem a tarefa que sempre foi de minha mãe.
  Dito isto, fez menção em bater na porta com os nós dos dedos da mão direita quando a porta se abriu, era Ana, carregando os resíduos que se acumularam do trabalho de parto. Ao vê-la, Percilio não conteve a emoção, abraçou-a com muita força, fazendo com que o recipiente que ela carregava caísse no chão. As três mulheres se entreolharam, e como que conduzidas por uma força inimaginável se afastaram rapidamente do local, sem ao menos perguntarem se a criança havia nascido ou não.
  Após auxiliar Ana a recolher o recipiente que caiu, Percilio entrou silenciosamente e se deparou com Mirtes amamentando sua filha. Mirla, sentada ao lado, observava embevecida a cena. Percilio sentiu seu coração se encher de um carinho tão grande que teve vontade de orar, e foi o que fez, cerrou os olhos, disse silenciosamente:
   – Grande Deus, obrigada por trazê-la de volta!
   Abriu os olhos e prosseguiu em voz alta.
   – Esta menina nos ensinará o valor do amor.
   Mirla disse, parecendo não ter entendido:
   – Como você sabe que é uma menina? Pelo que sei todos os bebês são parecidos independente se meninos ou meninas.
   Desta vez foi Ana que respondeu:
   – Percilio, você acertou, é mesmo uma menina.
   – E se chamará Anita, disse o pai.
   – Como assim? Eu não gosto deste nome, afirmou Mirtes.
   – Está decidido, você escolheu o nome de Sibila, agora, sou eu que escolho. O nome dela é Anita.
   A seguir, Percilio estendeu os braços e pegou a recém nascida que já tinha terminado de mamar. A sensação de carinho e alegria foi tão grande que ele se sentiu fundir-se a aquele pequeno ser, não se cansava de olhar o rostinho rosado, parecendo uma pequena romã, e de repente, eis que sua mente é invadida por lembranças que ele não conseguia precisar de onde vinham. Crianças pequenas brincando em um jardim, uma casinha branca com janelas azuis, cabras mugindo, e ao longe divisava um rio que lentamente bailava sob seus olhos. Só voltou de sua divagação quando a porta se abriu e entrou Mariane acompanhada de Sibila e Celeste, a filha de Ana. A cena que ocorreu a seguir foi de arrepiar, como descreveu Mirla para seu irmão Cirilo, posteriormente.
  Mariane disse:
  – Celeste pediu para virmos ver sua amiguinha que já tinha nascido.
  – Filha, como você sabia que ela já tinha nascido se ninguém ainda sabe? Indagou Ana.
  – Ora mamãe, o moço bonito me disse.
  Percilio, intrigado, ajoelhou-se aos pés da menina de apenas quatro anos, falou:
   – Querida, nenhum moço sabia que sua amiguinha tinha nascido.
   – Não tio, o moço não mora aqui na Grande Pedra, ele mora lá. Apontou para o alto.
   Todos ficaram visivelmente desconcertados, ninguém ousava dizer absolutamente nada, até que Sibila quebrou o silêncio, disse:
   – A nenén é mamãe!
   Ninguém pareceu entender o que a criança disse, mas Percilio compreendeu de imediato, pois viu sair da casinha branca uma jovem morena de cabelos cacheados e olhar sereno se dirigindo ao grupo de crianças, pegou na mão da menina mais velha e disse:
   – Filha, já é hora de banhar-se!
   Quando a menina levantou o rosto para responder a mãe, Percilio viu nitidamente as feições de Sibila. Imediatamente fechou os olhos e perguntou:
   – Grande Deus, o que é isso, Anita mãe de Sibila?

continuação…. 

 

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