Mykonos-66

voltar a introdução

voltar a Mykonos-65

   Sentiu-se empalidecer a ponto de Ingrid lhe perguntar se estava se sentindo bem. Gaguejando, ele respondeu que havia se levantado com muita rapidez, mas o tempo parecia ter parado, as palavras que acabara de ouvir não saiam de seu subconsciente. Mirtes se apressou a quebrar o mal estar, dizendo:
   – Querido, a senhora gostaria de conversar um pouquinho com você.
   Percilio, ainda confuso, balbuciou:
   – É claro, minha senhora, sou todo ouvidos.
   Ingrid, claramente escolhendo as palavras, disse:
   – Meu filho, agradeço ao Grande Deus por ter poupado a vida de sua sogra, apesar do pouco tempo de convívio, já minha amiga. Prosseguiu.
   – Conversando com sua esposa, fiquei sabendo de seu enorme desejo que sua mãe fosse morar na Comunidade onde você e sua família residem.
  Antevendo aonde Ingrid queria chegar, Percilio endureceu as feições, crispou as mãos e ao fechar os olhos, viu claramente um rapaz de aproximadamente quinze anos com uma estaca de madeira nas mãos desferindo golpes mortais em uma senhora que o olhava com os olhos injetados de sangue, ao mesmo tempo que emitia gargalhadas assustadoras. Tentando afastar a visão horripilante, abriu os olhos, percebeu que Ingrid prosseguia falando:
   – Em vista deste desejo, que sei ser compartilhado por mãe e filha, gostaria de pedir que aceitasse nosso auxilio, meu e de meu marido, para que possamos enviar trabalhadores a sua Comunidade, munidos de material necessário para que seja construída uma moradia digna para que sua sogra possa viver e participar do crescimento de seus netos, recebendo o amor de sua única filha.
   Percilio simplesmente emudeceu, não sabia o que dizer. Intermináveis segundos se passaram, até que ele olhou firmemente para Ingrid e disse:
   – Se esse é o desejo de minha esposa, eu concordo.
   Mirtes correu para abraçá-lo, ela sabia que algo muito especial havia acontecido, pois nunca tinha visto o marido voltar atrás em uma decisão, com certeza, foi esta senhora doente que o convenceu, oferecendo esta ajuda irrecusável, pensou maldosamente.
   Não houve tempo de maiores considerações, pois Jonas e Pierre Merriot voltaram da reunião no armazém de grãos. Assim que adentrou o recinto onde seu filho e sua nora estavam, Jonas disse:
   – Combinei com Merriot, eu, e um empregado de nome Luís, vamos acompanhar Sibele até a casa de Claudius, vocês conversem com Dr. Alecsander, vejam se está tudo bem com o bebê e voltem para Comunidade.
   Ingrid, sentindo que este era o momento de intervir, disse, olhando para seu marido:
   – Querido, acabei de conversar com estes dois jovens, em vista do aceite de Aimanon, Sibele irá morar na Comunidade da Grande Pedra.
   Era visível o constrangimento de Merriot, que disse sem tituber:
   – Ingrid, você está muito confusa, este rapaz de chama Percilio, e é o menino que foi criado por nosso amigo Claudius. Vá descansar um pouco, que nós resolveremos esta situação.
   Ingrid prosseguiu como se não tivesse ouvido as considerações do marido.
   – Peço desculpas pela confusão, eu não sei de onde tirei este nome, mas querido, ouça o que o rapaz tem a dizer.
  Olhou fixamente para Percilio, dizendo mentalmente: vamos menino, reafirme o que acabou de dizer. Neste momento, todos voltaram a atenção para o marido de Mirtes, que sem outra escolha, falou:
   – Eu concordo que Sibele vá morar na Grande Pedra.
   Imediatamente, Jonas partiu em sua direção, abraçando-o com muito carinho, disse em seu ouvido:
   – Meu filho, me orgulho muito de você, esta é uma decisão sensata e justa.
   Merriot, se sentindo aliviado, com o desfecho desta desagradável situação, tomou a palavra.
   – Minha esposa tinha me pedido que auxiliasse na construção de uma moradia digna para a avó do bebê que está a caminho, e assim o farei, amanhã, enviarei alguns homens a Comunidade, com ferramentas e material.
   Seis meses se passaram, a cabana foi primorosamente construída ao lado da grande plataforma de areia que se estendia em frente a imensa formação rochosa que servia de abrigo aos moradores da Comunidade. Sibele se adaptou rapidamente à nova vida, à ponto de Percilio nunca mais implicar com sua conduta, a não ser a amizade extrema que passou a cultivar por Luizinha e seus familiares, nada que partisse dela fazia jus a algum tipo de repreensão.
   Mirtes retribuiu a concessão de seu marido em concordar com a vinda de sua mãe para Grande Pedra, tornando-se mais amorosa e menos crítica com relação à vida que levava. Sibila crescia a olhos vistos, falava muito, imitando os primos maiores nas brincadeiras. Mirla prosseguia cuidando da sobrinha com esmero, não fazendo diferença entre seus filhos e ela. Apesar da boa fase que Mirtes parecia atravessar, cuidar da filha, sempre se mostrou uma tarefa muito pesada para suas poucas habilidades como mãe.
   Em uma manhã de abril do ano de 301 AC, Mirtes começou a sentir fortes dores, anunciando a chegado do novo bebê. Percilio já havia se dirigido a plantação em companhia dos homens da Comunidade e como não havia tempo para chamá-lo, Sibele assumiu a responsabilidade de tomar as providências para trazer seu neto à vida. Como não tinha nenhuma experiência neste tipo de tarefa, acatou a sugestão de Luizinha de pedir a Raquel que fizesse o parto. Ao saber de tal decisão, Mirla se colocou terminantemente contra, ela sabia que seu irmão não via com bons olhos a aproximação de Sibele com Luiza, Laura e sua família, e Raquel, sendo sua mãe, nunca escondeu seu desagrado com relação a liderança que Percilio exercia sobre os habitantes da Grande Pedra, mesmo informalmente.
  Mirla, não tendo outra alternativa, bateu à porta da caverna de Ana, assim que a amiga abriu a porta, falou impacientemente:
  – Ana, você precisa me ajudar, Mirtes entrou em trabalho de parto e Sibele quer que Raquel faça o parto, temo pela vida do bebê, todos sabemos do ódio mortal que ela e sua família nutrem por meu irmão.
   Ana, tomada de surpresa, respondeu:
   – Amiga, eu nunca fiz um parto, o máximo que posso fazer é te acompanhar até a caverna de seu pai e ficar bem atenta a todos os movimentos de Raquel. Desde que sua mãe morreu, nenhum bebê nasceu aqui e era ela que trazia ao mundo todos os bebês da Comunidade, por isso, acho que não há mais ninguém que possa fazer este trabalho.
   Mirla desolada, respondeu:
   – Eu sei, Percilio me disse que o bebê nasceria no final de abril, ele pretendia trazer Dr. Alecsander quando as dores começassem, mas pelo que fiquei sabendo, não há mais tempo para isto.
   As duas amigas saíram rapidamente em direção a caverna de Jonas, mas ao chegarem lá, Sibele impediu que as duas entrassem, dizendo que Luizinha estava ajudando a mãe e não havia espaço para ninguém.

continuação…

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s