Mykonos-52

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   Nael nunca tinha pensado em fazer tal coisa, ele tinha certeza que os reencontraria por obra do Grande Deus, que nos últimos dias tinha se tornado parte integrante de sua essência, ou melhor, voltado à luz de sua consciência. Teve certeza que tinha que silenciar a angustia que via transparecer no rosto de seu pai. Disse, segurando suas mãos:
  – Pai, eu jamais vou procurá-los, mas se um dia eu os reencontrar, e eles me quiserem de volta, voltarei a morar com eles.
  Era um remédio amargo, mas tinha que ser dito, Claudius viu seu corpo estremecer, mesmo ele, sentia que este dia se aproximava. A conversa se findou regada de muito amor. Pai e filho sentiram que esta conversa ficaria eternamente guardada no baú do coração de ambos.
  Os meses se passaram rapidamente, Sibila estava prestes a completar sete meses e até aquele momento nada havia acontecido. Nael já tinha esquecido da predição de August, não guardava nenhuma ansiedade com relação a voltar a se encontrar com sua antiga família. Sibila era esperta e muito curiosa, enchia a casa de alegria. Enquanto não estava trabalhando, Nael se desdobrava em cuidar da filha. Banhava, alimentava, ninava, se dedicava tanto que muitas vezes Mirtes reclamava atenção para si, dizendo que o marido não era mais dela. As duas avós viviam às turras, mas mesmo assim tentavam manter a harmonia do lar.
  O futuro ia se desenhando como se nada pudesse alterar o rumo dos acontecimentos. Até que um dia, Claudius pediu para que Nael o acompanhasse na entrega de muitos preparados que seriam embarcados para a França. August, com o auxílio de Merriot havia intermediado a venda de um grande lote de remédios que seriam comercializados nas feiras de Marselha. Nael estranhou o convite, pois não era comum que ele acompanhasse o pai nestas tarefas, o seu trabalho era colher a matéria prima e prepará-la para o consumo. Claudius justificou dizendo que o volume era muito grande e seria necessário dois homens para transportar a carga, já que tudo deveria ser levado acondicionados em grandes fardos e carregados nas costas.
   No dia marcado para o transporte dos preparados, Nael amanheceu febril, caso não pudesse ir, Sara teria que acompanhar Claudius em seu lugar. O navio que transportaria a encomenda já estava ancorado no porto de Semiris e partiria no dia seguinte. Em um esforço sobre humano, Nael se levantou e disse que iria. Tomou um chá de melissa se despediu de Mirtes, na hora de sair, voltou, e abraçou Sibila que ainda dormia, algo lhe dizia que aquela viagem deveria ser feita custasse o que custasse. A princípio supôs que esta sensação se devia ao compromisso assumido com seu pai anteriormente, jamais imaginou o que estava por vir.
  A caminhada foi dura e cansativa, caia uma chuva fina mais persistente, por várias vezes Claudius pediu que Nael parasse para descansar, pois o esforço fazia com que tivesse muita dificuldade em respirar, mas o rapaz não atendia, caminhava sem parar. Em duas horas chegaram a Semiris, a chuva fez com que todos se recolhessem, não se via ninguém circulando pelas “ruas” de terra batida. Foram direto ao armazém de Merriot. Como a porta estava aberta entraram sem se fazer anunciar, deram alguns passos e perceberam ao fundo o proprietário conversando com dois homens. Como os três estavam de costas, caminharam lentamente em direção ao grupo. Assim que estavam próximos o suficiente, Claudius exclamou:
  – Saudações meu caro amigo Merriot!
  Em uma fração de segundos, os três homens se viraram e ficaram frente a frente com o alquimista e seu filho do coração. O que se presenciou a seguir foi algo inacreditável. Jonas olhou diretamente nos olhos de Nael e gritou a seguir:
  – Lucas, é você meu filho!!
  A princípio, Nael não compreendeu exatamente o que aquele senhor de cabelos grisalhos e olhar sereno estava querendo dizer, mas quando ele o abraçou com ternura, inúmeras lembranças invadiram sua mente. Lembrou-se do dia que Jonas o ensinou a pescar, de sua mãe cozinhando, de seus irmãos brincando na areia e principalmente da Grande Pedra, a sua casa. No momento seguinte, o cansaço, a emoção daquelas lembranças, fizeram com que as forças o abandonassem e Nael se sentiu desfalecer. Todos correram para acudi-lo, a não ser seu irmão Cirilo. O rapaz não se lembrava em detalhes do rosto do irmão, mas trazia vivo em sua memória o prazer que sentia de estar ao seu lado, a diferença de idade entre eles não era grande, mas quando meninos, Cirilo o via como alguém sábio e amigo, que nunca ralhou com ele e o protegia das maldades dos garotos mais velhos que moravam na Grande Pedra. A “morte” de Lucas o deixou descrente da existência de um Deus amoroso que cuidava de seus filhos, tornou-se um adolescente triste e arredio, tamanha a falta que sentia do irmão mais velho. Com o tempo, as lembranças foram ficando cada vez mais distantes e naquele momento, onde havia a possibilidade de reaver aqueles laços que pensava estarem perdidos para sempre, ele se recusava a acreditar, tal a grandeza daquele acontecimento, caso fosse verdadeiro.
  Os três homens carregaram Nael para o interior da casa de Merriot, acomodaram-no em uma cama que o dono da casa reservava para os muitos amigos que recebia. Jonas não parava de olhar seu rosto, examinava as mãos, os cabelos e a certeza que se tratava de seu filho era tanta que disse para Claudius:
  – Este rapaz é meu filho, como ele foi parar em sua casa?
  Antes da chegada dos dois, Merriot havia dito a Jonas que aguardava uma remessa de unguentos e xaropes que seriam trazidos por um amigo alquimista e seu filho.
  Claudius respirou fundo e falou serenamente:
  – Senhor, eu não direi absolutamente nenhuma palavra a respeito da como meu filho chegou até minha casa, quando ele acordar vocês poderão conversar.
  Virou as costas e saiu sem dizer mais nada, foi em busca de folhas para fazer um chá para baixar a febre de Nael que estava muito alta. Merriot tinha ido em busca do Dr. Alexsander que estava na localidade e Cirilo não saiu do armazém, sentou-se em uma pilha de madeira e chorou muito, pela primeira vez, pediu com todas as forças que o Grande Deus fizesse com que seu irmão estivesse vivo. Repetiu inúmeras vezes que se aquele rapaz fosse realmente Lucas, ele jamais duvidaria de sua bondade novamente.
  Apenas Jonas estava presente quando Nael recobrou a consciência e abriu os olhos lentamente. Sentado na cabeceira da cama, ao lado do filho, Jonas pode ver o brilho de seu olhar, algo que ele jamais esqueceria ou confundiria. Nael balbuciou baixinho:
  – Pai! É você?
  Jonas começou a chorar copiosamente, a ponto de perder o fôlego. Nael só observava, mas não conseguia conter as grossas lágrimas que teimavam em escorrer de seus olhos, seu corpo parecia ter sido tomado de uma carga elétrica que o fazia tremular incessantemente.
  Assim que conseguiu conter um pouco a emoção, Jonas pediu que ele se acalmasse que o Dr. Alecsander já estava a caminho e que os dois teriam todo o tempo do mundo para conversarem. Neste momento, Cirilo entrou silenciosamente no aposento e se recostou ao lado do corpo do irmão. Jonas o fitou longamente, dizendo a seguir:
  – Cirilo, seu irmão não morreu, ele está vivo!
  O rapaz já havia intuído que era a mais absoluta verdade o que seu pai acabara de afirmar, silenciosamente orou com fé pela primeira vez na vida. Nael pousou o olhar em seu irmão, disse com muita dificuldade:
  – Como você cresceu? A última vez que te vi era apenas um pirralho!

continuação…

 

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