Mykonos-53

voltar a introdução

voltar a Mykonos-52

   Novos abraços, mais lágrimas, toda emoção dos últimos momentos transbordou em forma de um carinho indescritível. Jonas agradecia a todo momento a bondade divina  por ter devolvido seu filho querido são e salvo. Cirilo acariciava o rosto do irmão como que para se certificar que ele era mesmo de carne e osso.
   Dr. Alecsander chegou acompanhado de Claudius e Merriot, já ciente de alguns detalhes do atendimento a que foi solicitado, desconhecia apenas que Jonas era o pai do rapaz desaparecido. Quando o viu, disse:
  – Meu grande amigo, pelo que vejo, seu filho não morreu, e sim, foi cuidado com muito carinho por meu concorrente.
  Olhou para Claudius e deu uma piscadinha, completando:
  – Se não fosse ele, meu trabalho seria cinco vezes maior, muitos pacientes se curam sem ao menos passar por minhas mãos.
  Jonas ouviu estas palavras com atenção e só naquele momento percebeu que tinha uma dívida de gratidão imensurável por aquele homem. O velho médico terminou de examinar Naim e decretou que o que ele tinha era um misto de emoção com uma gripe forte. Nada que um bom chá de Claudius não desse conta.
   Assim que Dr. Alecsander se retirou, Jonas se aproximou de Claudius dizendo:
   – Senhor, não tenho palavras para lhe agradecer por cuidar tão bem do meu menino. Pensei que ele tivesse sido levado pelo mar. É certo que no fundo, nunca acreditei que ele estivesse  morto.
   Claudius sorriu e disse:
   – Seu filho é meu filho e de minha esposa Sara, ele chegou na nossa casa a mais de três anos atrás, totalmente desmemoriado, não sabia nem ao menos o seu nome. Nós o adotamos e agora não existe nenhuma possibilidade de revertermos esta situação.
   Jonas ficou muito apreensivo com a resposta do alquimista, mas mesmo assim insistiu:
   – Seu nome é Lucas e é meu filho e de minha esposa Maila, o que aconteceu foi uma armadilha do destino, eu jamais abrirei mão dele.
   Percebendo que o clima entre os dois pais estava ficando tenso, Nael interferiu:
   – Gostaria que os dois deixassem que eu tomasse a decisão sobre o que será de minha vida daqui para frente. Olhou para Claudius com firmeza e prosseguiu:
   – Apesar de já termos conversado sobre este assunto e o senhor sabe qual é minha opinião.
   O assunto se encerrou por aí. Ficou combinado que Jonas voltaria sozinho para Grande Pedra e Claudius também voltaria para a cabana na floresta sem Nael, que ainda se recuperava. Naquela época não existia um meio de avisar as pessoas a não ser pessoalmente, por isso, todos acharam por bem não deixarem os familiares apreensivos. Cirilo passaria a noite com o irmão na casa de Merriot e no dia seguinte, caso Nael já estivesse se recuperado, iria com ele até a casa onde agora era seu lar. Voltaria para a Grande Pedra só depois de dois dias. Depois que todos partiram, os dois irmãos tiveram muito tempo para conversar e contarem as novidades, só aí, Lucas contou que já estava casado e tinha uma linda filhinha de nome Sibila. Cirilo ficou encantado, pois todos os sobrinhos já estavam crescidos, e a muito não nascia um bebê na família.
   Lucas queria saber de todos os seus, em especial da mãe Maila, durante todo o tempo que esteve desmemoriado, ele sentia que havia uma mulher que não deixava de inclui-lo em suas orações. Cirilo confirmou que sua mãe jamais o esqueceu e algumas vezes dizia que estava vivo, sensação compartilhada por Mirla, a irmã mais velha e Mariane a mais nova. Apenas Lêntulo prosseguia esquisito como sempre, trabalhava a pulso e parecia não fazer parte da família, tanto distanciamento que o apelidaram de “o solitário”.
   Cirilo detalhou o desaparecimento de Joninho e sua posterior morte, fato que deixou Lucas muito triste, apesar de ter sido o irmão o causador de tantos desencontros em sua vida. Não guardava nenhum rancor, ao contrário, ele sabia que existia um motivo oculto para Joninho agir da maneira que agia.
   A madrugada ia alta quando finalmente os dois irmãos adormeceram. Lucas teve um sono agitado, repleto de muitos sonhos onde ele via um velho Senhor de barbas longas, vestido com uma túnica branca e que dizia insistentemente:
   – Não se esqueça que hoje nasceu Percilio!
 Pela manhã ainda pensava no que tinha ouvido durante o sonho:
   – É claro que Nael não existe mais, pois de agora em diante eu retomarei a minha vida ao lado de minha verdadeira família, prosseguirei amando Claudius e Sara, mas não poderei mais morar na floresta. É bem verdade que Lucas não é mais o mesmo garoto sonhador que queria saber o que havia além da linha do horizonte, portanto, de hoje em diante realmente Percilio será o meu nome, ele carregará todas as experiências de Nael e de Lucas.
   Como Nael estava bem melhor, a febre havia cedido, apenas uma leve coriza o incomodava, decidiram partir. Assim que a decisão foi tomada, Cirilo foi ao encontro de Merriot para agradecer a acolhida, voltou ao quarto para buscar o irmão, quando chegou, ele não estava mais lá, partira sozinho. No momento que ficou só, Nael decidiu que  o seu novo endereço deveria ficar em segredo, caso mudasse de ideia. A conversa que teve com Cirilo a respeito de sua antiga casa e de seus familiares, o deixara muito angustiado, pois se sentia dividido, ao mesmo tempo que queria reencontrá-los temia ser ingrato com Sara e Claudius. Decidiu partir sozinho para pensar um pouco, Cirilo estranharia a atitude mas depois entenderia. E foi o que aconteceu, o irmão mais novo entendeu perfeitamente a atitude de Lucas, tomou o rumo da Grande Pedra.
    Durante o trajeto de volta, um turbilhão de lembranças invadiu a mente de Nael, detalhes de quando era criança, a sua relação com os tios, os amigos, o trabalho na plantação e em especial Joninho, lembrou-se das atitudes ríspidas que partiam de seu irmão mais velho, não só para com ele mas com todos que o contrariassem. No momento que a imagem de Joninho tomava forma em sua mente, Nael titubeava em levar em frente sua decisão de voltar para Grande Pedra, algo lhe dizia que o fantasma do irmão o perseguiria caso pisasse novamente na antiga Comunidade. E assim, foram duas horas de caminhada acompanhada de intensa reflexão, quando finalmente avistou as duas cabanas que acolhiam sua atual família ainda não tinha certeza do que fazer, mas cada vez que desistia da firme decisão que havia tomado de voltar a morar com Jonas e seus irmãos a voz que vinha de seu interior dizia: Percilio não pode ficar longe dos seus!
   Assim que colocou os pés no pequeno cômodo que servia de sala e cozinha da sua cabana, Mirtes correu ao seu encontro dizendo:
   – Sibila está com minha mãe na casa de Sara, podemos conversar sossegados a respeito do nosso futuro.
   Nael a olhou com firmeza não entendendo exatamente o que ela tinha pronunciado. Falou:
   – Mirtes repita o que você disse, eu acho que não compreendi.
   A esposa com ares de preocupada disse:
   – Você perdeu novamente a memória? Cadê seu irmão, que Claudius disse que viria com você?
   Nael respondeu de má vontade:
   – Não quero falar sobre este assunto agora, vá buscar Sibila que estou morrendo de saudades.

continuação…

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s