Mykonos-51

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   Nael estranhou um pouco a postura do médico, com certeza ele iria falar sobre o bebê que não existia, mas sua sogra sabia de tudo e não havia motivo para ela não participar da conversa.  O velho doutor, visivelmente embaraçado, começou dizendo:
   – Sua esposa sofre de um mal incurável, você está ciente disso?
   – Sim. Respondeu Nael prontamente.
   – Você sabia que ela não está grávida?
   – Sim. Repetiu o rapaz.
   Em vista disso, Dr. Alecsander disse para Nael levá-la para casa e quando novas crises acontecessem só lhe restava aguardar que cedessem, não existia nada que um médico pudesse fazer.
   Assim que Mirtes e Sibele chegaram, levadas pelas mãos de August, Dr. Alecsander percebeu que algo muito errado tinha acontecido. A jovem se queixava de fortes dores no abdômen e afirmava que tinha acabado de perder o bebê que estava gerando. A mãe, confirmava todos os detalhes que a filha relatava ao médico, mas em um exame rápido, ele teve a certeza que a moça nunca havia estado grávida, nem ao menos, seu corpo estava maduro o suficiente para gerar uma criança. Ao ter certeza da mentira que estava sendo alvo, ele simplesmente disse que só a liberaria quando o marido viesse buscá-la. Fazia muitas horas que Sibele e Mirtes aguardavam, mesmo dizendo ao médico que elas poderiam ir sozinhas e que o marido não sabia que a elas estavam em Semiris, o médico foi irredutível, dizendo que August o avisaria.
    Após a breve conversa com o médico, Nael foi conduzido por uma enfermeira ao aposento onde a esposa e a sogra o aguardavam. Assim que o viu, Mirtes correu em sua direção e o abraçou. Aconselhada pela mãe ela não tocou no assunto do bebê. Nael a beijou como se nada tivesse acontecido e os três voltaram para a cabana na mata. Assim que chegaram, Sara disse que August tinha estado lá, relatado tudo que havia acontecido e que, naquele momento,  Claudius estava na floresta trabalhando. Ela aproveitou quando mãe e filha foram descansar, chamou Nael para conversar, pois como ninguém havia dito uma palavra sobre a gravidez, ela estava muito curiosa. Após Sara perguntar, com velada petulância, se o bebê estava bem, Nael respondeu:
    – Sim. Só que ele vai demorar um ano para nascer, ou melhor, ela.
    Sara se espantou com a resposta, tentou pedir maiores explicações, mas quando se deu conta já estava sozinha. Assim que respondeu à pergunta de sua mãe, Nael deu as costas e se afastou. Claudius também estranhou a colocação do filho, mas pediu que Sara nunca mais tocasse no assunto, pelo visto os dois já haviam resolvido esta questão, e para ele, isto já era o suficiente. Sara a contragosto acatou as ordens do marido, mas mesmo assim, não se conformava que uma mentira daquelas tinha sido esquecida sem nenhuma retaliação, mal sabia ela que o futuro se incumbiria de colocar a verdade em seu devido lugar.
    Após três meses deste episódio, Mirtes realmente engravidou, Sibele não cabia em si de contente, tinha certeza absoluta que dali para frente não precisaria mais se preocupar com o futuro. Com o passar do tempo, ela foi aos poucos demonstrando sua personalidade fria e autoritária, só se continha quando estava diante de Nael, ele se tornava cada vez mais frio e distante para com ela, às vezes, a sogra tinha um pressentimento que ele a culpava por alguma coisa, mas como nunca disse absolutamente nada, ela creditava a sua consciência, que não era nada leve. Aquela notícia pegou a todos de surpresa, excetuando-se Nael, que apenas aguardava a concretização das predições de August. Todos ficaram muito felizes, inclusive Sara, que já tinha se acostumado com o casamento, e por hora, havia se esquecido do episódio do primeiro bebê.
   A menina nasceu forte e saudável, exatamente um ano após o dia que Mirtes voltou para casa, depois de “perder” o filho que esperava. O fato de Nael sempre ter afirmado que seria uma linda menina e seu nome seria Sibila, mesmo antes de sua esposa engravidar, suscitou alguma curiosidade,  mas ninguém teve coragem de perguntar para o rapaz o motivo de tanta certeza, a não ser Claudius, que algumas horas após o nascimento de Sibila, abordou Nael e pediu que tivessem uma conversa particular. O rapaz atendeu a contragosto pois sabia muito bem o assunto mas decidiu se abrir com o pai que o acolheu, pois breve teria que voltar a morar junto com sua família original e seria bom que ele já estivesse preparado e pudesse apoiar Sara quando chegasse a hora.
   Claudius foi direto ao assunto, dizendo:
  – Filho, preciso saber o que aconteceu no dia que Mirtes desapareceu, no ano passado, tenho certeza absoluta que ela não estava grávida e você sabe muito bem que eu tenho razão.
   Nael tentou retroceder na decisão de dizer a verdade, mas não houve jeito, uma voz que vinha de seu interior e que o alertava a muitos dias pediu que ele fosse sincero. O amor e o agradecimento que tinha por aquele homem, falou mais alto, apesar de titubear em contar a verdade, ele respirou fundo e pensou, não posso enganá-lo, ele me acolheu, a verdade é soberana. Pausadamente, contou detalhe por detalhe, o acolhimento de August, as revelações, o pedido de não se separar de Mirtes, as duas meninas e quando chegou a hora de dizer que breve partiria, não teve coragem, parou a narrativa, abaixou os olhos e chorou. Claudius olhou aquele jovem indefeso, chorando feito uma criança, o abraçou com muito amor, neste momento, viu em sua tela mental, um templo maravilhoso, como jamais tinha visualizado nesta vida, ele estava vestido como um sacerdote. Em sua mão direita tinha um macerador de ervas, estava preparando um unguento para feridas purulentas, com as mesmas ervas que costumava buscar na floresta para o mesmo fim.  Diante dele, um garoto aflito que dizia a todo momento: Sacerdote Ramon, meu pai está cada vez pior, será que ele vai morrer? Assim que sentiu o calor do corpo de Naim, tudo desapareceu como por encanto, mas o nome Ramon prosseguiu martelando em sua mente, isto por muitos dias.
   A seguir, Nael enxugou as lágrimas e retribuiu o abraço do velho amigo. Assim que aquela avalanche de emoções deu uma amainada, o rapaz começou a dizer:
  – Pai, preciso te contar mais uma revelação do velho ancião.
  Claudius teve a certeza que era algo muito terrível, pois sentiu um aperto em seu coração como nunca havia sentido. Respondeu sereno:
   – Prossiga filho, seu pai está preparado seja o que for que tenha a me dizer.
   Nael olhou dentro dos olhos de seu interlocutor. Disse:
   – August me disse que quando eu encontrasse meu velho pai nasceria um novo homem.
   – O quê? Ele está querendo dizer que você vai reencontrar sua família? Perguntou Claudius.
  – Tenho certeza que sim, eu sinto, e sei que terei que voltar a morar com eles
  – Mas ele não te disse isso. Disse?
  – Não, mas desde o dia que falei com August, uma vozinha não se cansa de repetir no meu ouvido: Percilio não pode ficar longe dos seus!
  Cada vez mais confuso, o alquimista perguntou:
  – Quem é Percilio?
  – Percilio sou eu pai!  Disse Nael lentamente.
  – É o seu antigo nome? Você se lembrou?
  – Não, tenho certeza que meu nome não era este, mas Percilio será o novo homem que nascerá quando voltar para casa, uma mistura deste Nael e do antigo Nael. Entendeu pai?
   Claudius balançou a cabeça indicando que não havia entendido, mas mesmo assim completou.
   – Não acredito em predições, a história do nascimento de Sibila é uma coincidência, você é feliz conosco e não vai procurar sua antiga família. Vai?

continuação…. 

 

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