Mykonos-36

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   Atílio ficou surpreso com a resposta, pois ele acreditava em reencarnação, mas como algo que perpetuasse a família, ou seja, os membros de uma mesma família voltavam para continuar aproveitando os bens terrenos que foram amealhados em outras vidas. Agora, existir alguma relação entre o que acontece agora e o que aconteceu no passado, ele jamais imaginou, por isso, prosseguiu curioso:
   – Mas Jonas, o fato de eu não ter me casado até hoje, pode ser porque em outra vida fui um mal marido ou um pai relapso, por isso estou sendo punido?
   – Não foi isso que eu quis dizer, eu acredito que nós passamos por situações nesta vida para que possamos  aprender, e nunca como punição por alguma atitude. É claro que você se casará um dia, apenas ainda não chegou o momento.
   Atílio queria fazer outras perguntas, mas de repente Jonas ficou calado, olhando fixamente no vazio que se descortinava acima cabeça de seu irmão. Ele via uma nuvem escura que teimava em não se dissipar. Piscou os olhos várias vezes, puxou o braço do irmão para que ele se deslocasse do local onde se encontrava, mas a nuvem insistia em acompanhá-lo. Diante deste quadro estranho, Jonas disse para Atílio:
   – Irmão, tome cuidado com as atitudes que anda tomando, acho que alguma coisa ruim pode te acontecer.
   Atílio sentiu um arrepio percorrendo seu corpo da cabeça aos pés, falou assustado:
   – O que está acontecendo Jonas? Parece que você viu um fantasma?
   – Desculpe Atílio, mas me conta o que anda fazendo?
   – Eu não ando fazendo nada, a não ser trabalhando duro e aturando os desmandos de seu filho mais velho, que aliás, jamais deveria ter assumido a liderança da comunidade.
   – Atilio, não quero mais falar neste assunto. Me diga o que anda fazendo além de trabalhar.
   – Jonas, eu não devia te contar, mas como tenho a impressão que você já sabe, vou te dizer. Já fazem alguns meses, que Laura, sua nora, vem se insinuando, outro dia ela me disse que não ama seu filho e se eu quisesse poderíamos ser mais do que amigos.
   Jonas arregalou os olhos, falou contrafeito:
   – O que você está me dizendo? Esta mulher não sabe se pôr em seu lugar? Que ela não ama Joninho eu sempre soube, mas este tipo de atitude não condiz com uma pessoa que é mãe de meus netos!
   – E você Atilio, fique longe dela, não se envolva com alguém que não merece o prato que come.
   Atílio ficou pensativo por um instante, pois receava contar ao irmão o resto da história, mas de repente, como que movido por uma força sobrenatural, decidiu se abrir.
   – Eu não te contei tudo, nós já nos relacionamos como homem e mulher, mais de uma vez.
   Jonas ficou possesso com a revelação, a vontade que teve era de esmurrar o irmão sem piedade, mas se conteve. Mediu as palavras antes de prosseguir.
   – Irmão, você tem que deixar a comunidade hoje mesmo.
   – Mas Jonas, eu não posso porque estou apaixonado por outra mulher, mas Laura parece que me enfeitiçou, toda vez que ela chega perto de mim eu não consigo ser dono da minha vontade.
   Jonas estava perdendo a paciência, se sentia diante de um adolescente inexperiente. Disse:
   – Não me diga que está apaixonado pela esposa de meu filho!
   – Não Jonas, eu amo Rosana, sempre amei, mas ela me despreza, pois um dia me pegou beijando Laurinha, isto antes do casamento com Joninho.
   – Meu Deus irmão, quando ela se casou, tinha treze anos, era uma criança. Esta história é muito antiga. É mais grave do que eu podia supor.
   – É verdade, ela sempre se insinuou para mim e para outros rapazes da comunidade, inclusive Fernando e Minélo, mas naquela época achávamos que era coisa de criança e não demos muita importância. Na véspera de seu casamento, ela me procurou e me disse que sentia que não gostava de seu filho, era a mim que ela amava e quando eu menos esperava me roubou um beijo. Foi este beijo que Rosana viu, depois daquele dia ela nunca mais me dirigiu a palavra, pois eu já havia me declarado, disse que a amava e queria me casar com ela.
   – Atilio, se foi assim que aconteceu, porque você insistiu em ter um romance secreto com esta víbora?
   – Toda vez que Laura se desentende com Joninho, ela me procura, eu não consigo resistir, como já te disse, ela me enfeitiçou.
   – Então foi por isso que trocou de caverna com Fernando, para ficar mais fácil estes encontros. Então, Fernando sabe de tudo?
   – Sim, não só ele, como Minelo e Rafael. Eles sempre me aconselham a não mais me envolver com ela, mas como já te disse, eu não consigo.
   Só agora Jonas se deu conta do tamanho da confusão que seu irmão caçula se meteu, o problema parecia não ter solução, mas um sopro de esperança invadiu a mente do irmão mais velho.
   – Atilio, preciso te fazer uma pergunta, o seu futuro depende da resposta que você vai me dar, então pense antes de responder e seja sincero:
  – Você ama mesmo Rosana?
  – Sim amo!
  – Então, em nome deste amor, a partir de hoje, você vai fazer exatamente o que eu te pedir. Sim ou não?
  – Sim Jonas, eu o farei.
  – Promete?
  – Prometo! O que mais desejo é me ver livre desta mulher e constituir minha família com a mulher que sempre amei.
  – Agora vá, e assim que chegar na Grande Pedra, diga a todos que você conversou comigo e eu te pedi para morar com você, em sua caverna, por uns tempos. Deixa que eu converso com Maila.
  – Mas Jonas, você não pode se sacrificar por minha causa.
  – Você quer voltar atrás na sua promessa? Disse Jonas resoluto.
  Atílio abaixou a cabeça e respondeu em um fio de voz:
   – Não!
   – Então faça o que eu te pedi.
   Não tendo mais nada a acrescentar, Atílio se levantou e colocou-se a caminho da Grande Pedra, pensando no que acabara de fazer. A muito tinha vontade de contar tudo a Jonas, mas achava que jamais teria coragem, caminhava lentamente, falando alto para afastar os maus pensamentos. Já sentia muita vontade de correr para os braços de Laurinha.  Era nestes momentos que se encontravam. Joninho era sempre o último a voltar da plantação, chegava todos os dias, duas a três horas depois que a maioria dos homens, inclusive Atílio. Assim que chegou ao destino, foi direto a caverna de Fernando, mas este ainda não havia chegado. Sentou-se em uma cadeira, com os cotovelos apoiados na mesa e a cabeça entre as mãos. Disse em voz alta:
   – Grande Deus, ilumine meu irmão, faça com que ele encontre uma solução para esta enrascada em que me meti.

continuação…

 

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