Mykonos-35

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   Jonas abriu os olhos repentinamente e seu espírito foi trazido de volta em um tranco. Novamente não tinha conseguido descobrir o que queria. Ficou deitado por horas a fio, naquele dia não foi trabalhar na plantação. No fim do dia, Joninho veio até sua caverna para ver o que tinha acontecido com o pai. Quando o rapaz entrou, Jonas o encarou, e disse rispidamente:
   – O que você quer? Eu não fui trabalhar porque estava indisposto, só isso. Você não precisa correr atrás de mim porque eu sei muito bem quais são minhas obrigações.
   – Pai, eu só vim ver se estava doente, mais nada!
   Jonas se arrependeu da maneira com que o recebeu, mas disse apenas:
   – Eu estou bem, amanhã bem cedo estarei na plantação!
   E deu por encerrada a conversa que mal tinha começado. Joninho saiu cabisbaixo sem pronunciar mais nenhuma palavra, deixando seu pai pensativo.
   – Grande Deus! Por que este menino me causa tanto asco? Eu não consigo nem ao menos encará-lo, sem que inúmeros sentimentos ruins, invada meu coração?
   Neste momento, Lucas estava sentado em um banco em frente a Grande Pedra quando viu Joninho passar com ares de poucos amigos, desde que este assumiu a liderança do grupo o menino via seu irmão mais velho como um patrão austero, que mandava e desmandava sem se importar com a opinião nem o sentimento de ninguém. Movido por alguma força que Lucas não sabia de onde se originava, se levantou e caminhou ao encontro de Joninho, ao chegar lado do irmão, disse apenas:
   – Se você precisar de alguma coisa, é só me pedir que eu te ajudo.
   Parecendo não entender o que Lucas dizia, Joninho disse apenas:
   – Não preciso de nada!
   Lucas abaixou a cabeça e fez menção em se afastar; quando o irmão mais velho pegou no seu ombro e lhe deu um grande abraço, pela primeira vez nesta vida. O menino olhou demoradamente para Joninho e uma lágrima escorreu de seus olhos, tamanha a emoção que sentiu. A seguir, os dois se separaram, sem pronunciar mais nenhuma palavra.
   O domingo chegou e encontrou o garoto Lucas muito ansioso, ele já tinha providenciado todos os equipamentos de pesca. Cada tio colaborou como podia, Atilio separou anzóis e varas, Josias os pesos para diversas profundidades, Rubens disse que faria uma cesta de bambu para que ele colocasse os inúmeros peixes que iria pescar naquele dia. Antes do sol raiar lá foram eles, pai e filho, rumo ao mar para a primeira aula de muitas que estavam por vir. Se ajeitaram em uma pedra plana, bem na flor da água. Jonas deu as primeiras instruções a um menino atento e muito interessado, toda vez que tinha alguma dúvida não se acanhava em perguntar. Quando o pai lhe disse para “sentir” a linha como se ela fosse uma extensão de suas mãos, Lucas replicou:
   – Pai, não é só isso, a gente sabe que o peixe fisgou a isca quando a superfície da água começa a ter ondulações diferentes.
   Jonas pensou um instante e disse:
   – Mas se o peixe estiver em uma profundidade muito grande, não haverá ondulações na superfície.
   Mesmo assim Lucas insistiu:
   – Não pai, se nossos olhos estiverem treinados, nós sempre saberemos!
   Jonas ficou o dia inteiro intrigado com a colocação de seu filho, como podia um menino de oito anos, que nunca havia pescado um peixe na vida, saber disso, isto é, se fosse uma afirmação verdadeira e não uma fantasia de criança. Ele próprio nunca havia ouvido falar disso.  No fim da tarde, exaustos, com a cesta feita por Tio Rubens repleta de peixes de todos os tamanhos, voltaram para casa, felizes e satisfeitos com o resultado da primeira aula. Lucas pescou a maioria dos peixes, mostrando uma habilidade desproporcional a sua pouca idade.
   No dia seguinte, na plantação, Jonas chamou os três irmãos e disse:
   – Preciso fazer uma pergunta aos três, qual de vocês disse para Lucas que um pescador com os olhos treinados pode saber que um peixe mordeu a isca – independente da profundidade que ele esteja – só de ver o movimento da superfície da água?
   Os três se entreolharam, sem entender o motivo de uma pergunta tão inusitada. Atilio falou primeiro:
   – Eu nunca toquei neste assunto com ele, apesar de já ter ouvido alguns pescadores da Itália fazerem tal afirmação. Nunca consegui ver nenhuma diferença na superfície da água, apenas sinto a pressão da linha se alterar.
   Os outros dois, Josias e Rubens disseram que nunca falaram nada porque nem sabiam que isto era possível. Jonas disse que era uma bobagem e que esquecessem o assunto, mas este episódio rendeu muitos dias de divagação para ele, quando menos esperava seu pensamento se voltava para aquele domingo, via Lucas felicíssimo, como se retomasse algo que já tinha lhe dado muito prazer em um passado remoto. Agora tinha certeza que Lucas foi realmente Aimanon e também um pescador, mas quem foi Suzana? Jonas imaginou todo tipo de resposta, até que ela poderia ter sido Mirla, mas logo afastou este pensamento, pois sua filha, agora com treze anos não deixava transparecer nenhum sinal que pudesse confirmar a suspeita como aconteceu com Lucas.
    Naquela época, muitos acreditavam em reencarnação, pois ainda não havia começado os impedimentos dos credos, que com o tempo foi tomando tanto vulto que até pensar no assunto já trazia muito arrependimento e em certas épocas, punições severas. A família de Jonas e a grande maioria dos habitantes da Grande Pedra também tinham suas crenças calcadas nesta Lei Divina, o assunto era comum entre os moradores da comunidade, mas sempre tratado com leveza e objetividade. Certo dia, após um dia inteiro de trabalho duro, Jonas sentou-se em uma plataforma à beira mar para descansar um pouco, antes de voltar para casa. Atílio o avistou ao longe e foi ao encontro de seu irmão mais velho. Sentou-se ao seu lado e disse:
   – Irmão, faz tempo que a gente não para um pouco para conversar, eu gostaria de te fazer uma pergunta, por isso resolvi atrapalhar o seu descanso.
   Jonas o encarou com ternura, o garoto que teve tanta dificuldade em vir ao mundo agora era um homem feito, trabalhador e correto. Ele disse:
   – Não se preocupe Atílio, é sempre um prazer conversar com você, pode perguntar o que quiser.
   – Ultimamente eu tenho pensado muito em me casar, pois já estou com trinta anos, e se esperar mais, vou ser avô de meus filhos.
   O irmão mais velho achou muito engraçada a última colocação, disse:
   – Atilio, os filhos virão no dia que o Grande Deus achar que é o melhor. Você não precisa se preocupar, se eles tiverem que chegar, chegarão.
   – É exatamente isto que eu queria te perguntar, você acha que tudo que acontecerá em nossa vida já está traçado pelo Grande Deus, antes mesmo do nosso nascimento?
   Jonas ficou visivelmente atrapalhado, pois ele mesmo ainda não tinha chegado a nenhuma conclusão sobre este assunto, apesar de muitas vezes ter se feito a mesma pergunta.
  Respondeu pausadamente:
   – Irmão, eu não sei o que te responder. Esta pergunta já me tirou muitas noites de sono, mas o que tenho certeza absoluta é que ninguém está vivo nesta terra pela primeira vez e tudo que vamos passar está relacionado com outras vidas que já tivemos.

continuação…

 

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