Mykonos-34

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   A plateia ficou em silêncio por algum tempo, mas depois começou todo tipo de protesto, desde aqueles que achavam que era um exagero se preocupar tanto com limpeza, até aqueles que tinham filhos com sete, oito anos, que nunca tinham ido trabalhar na plantação. Jonas era da opinião que criança tinha que trabalhar sim, mas ajudando a mãe nos serviços domésticos, ou cuidando das crianças menores. Salvo aqueles que espontaneamente pediam para trabalhar com os adultos, como foi o caso de Joninho, que aos seis anos já insistia em acompanhar o pai na plantação.
   Aos poucos todos se retiraram, levando a sensação que nada poderia ser feito, a não ser seguir as determinações do novo líder. Jonas não se mexeu, ficou onde estava por quase duas horas, tempo suficiente para fazer um balanço dos últimos dez anos. O silêncio e a solidão colaboravam para que o médium em desdobramento pudesse receber as interferências dos céus. Ele começou a se sentir em total plenitude com a natureza, a ponto de perder a noção de qual lugar do espaço seu corpo se encontrava. Em um momento de puro relaxamento ele conseguiu não só visualizar Messias e Alberto, como também conversar com eles. A impressão que  tinha, é que já não mais pertencia a este mundo, tal o nível de desdobramento que seu espírito atingiu. Messias, tão sorridente como em vida, pronunciou a seguinte frase:
   – Filho, não se martirize tanto. Tudo que está acontecendo servirá de aprendizado a muitos integrantes do grupo de italianos que tão corajosamente fincou pé nesta terra tão hostil, mas ao mesmo tempo hospitaleira.
   Jonas se sentia tão distante que mal conseguia entender o que seu pai dizia, foi Alberto que o ajudou a ouvir com mais clareza, dando-lhe um passe no chacra frontal. Assim que tomou consciência do que estava lhe acontecendo, tudo ficou absolutamente nítido, ele conseguia não só ouvir como também enxergar com absoluta nitidez. Nos primeiros instantes desta nova realidade, Jonas ficou extasiado com tanta beleza – viu flores multicoloridas, pássaros, cachoeiras e inúmeras residências, idênticas as que existiam nas vilas em Verona. Alberto pediu que ele se sentasse em um banco diante de uma fonte. Jonas olhou firmemente para o jardim que circundava a fonte como se já conhecesse o local. A seguir, viu um Senhor de barbas, vestido com roupas simples, se aproximando. Messias explicou que ele se chamava Iane na última encarnação e que agora era o mentor de Jonas.
    O velho pai de Constaninopla se sentou ao lado de Jonas, abriu um sorriso encantador e disse:
    – Fico muito feliz que o Grande Deus tenha autorizado que este encontro se concretizasse. Eu cuido de você desde antes de seu nascimento. Sou seu amigo e professor, ou seja, aceitei ser seu mentor porque somos velhos conhecidos. Na última vida, em Constantinopla, você foi meu filho e nós cuidamos com muito amor de um casal muito especial – Aimanon e Suzana; pois sabíamos que eles trariam ao mundo inúmeros descendentes que se espalhariam pelos quatro cantos do Planeta, e no futuro, seriam  eles os responsáveis por trazer ao Planeta Terra as Determinações do Alto para uma Nova Era que se estabelecerá daqui a mais de dois mil anos.
    Jonas ouvia atentamente quando um barulho ensurdecedor o fez abrir os olhos. Era Joninho que gritava com Laurinha. Eles se desentenderam porque a esposa se negava terminantemente a ajudar as outras mulheres da Grande Pedra a cuidar das plataformas externas. Como Piedade estava dormindo, resolveram acertar o impasse no local que pensavam, teriam privacidade para mais um duelo inútil, não contavam que Jonas ainda permanecesse  sentado como se a reunião ainda não tivesse terminado. Quando Joninho percebeu a presença do pai, já era tarde, seus gritos já haviam feito com que ele perdesse totalmente a concentração. O antigo líder deu um profundo suspiro e se retirou sem nada dizer. O casal parou de brigar e começou a especular se Jonas ainda gozava de seu perfeito juízo.
   Ao entrar em sua caverna, Jonas tentou novamente se concentrar, começou a fazer o balanço dos últimos dez anos, mas de nada adiantou. Foi um momento único, mas desta vez, tinha certeza absoluta que não tinha sido um sonho, tanto é, que se recordava de tudo com nitidez. Até o nome do casal – Aimanon e Suzana. Mas quem seriam eles? Se perguntou inúmeras vezes. Não chegou a nenhuma conclusão, apenas que deveriam ser duas pessoas que ele amou muito e talvez ainda ame. Será Mirla? Será Albertinho? Silenciosamente ele martelou este assunto em sua mente por dias seguidos. Até que, passadas umas duas semanas da tal reunião –  Lucas, agora com oito anos, entrou correndo na caverna ocupada por sua família, parou diante de seu pai e disse:
   – Papai, eu já sou quase um homem, quero aprender a pescar!
   Jonas olhou para o garoto como se não tivesse entendido o que ele dizia, pois um flash de lembrança invadiu sua mente. Viu um rapaz alto, moreno, com um turbante protegendo sua cabeça, ele carregava um bornal de tecido que parecia estar cheio de alguma coisa. De repente, o jovem abre o bornal e pega um grande peixe, oferecendo-o para Jonas.
   Lucas pensou que seu pai estava passando mal, ele não respondeu sua pergunta, ficou imóvel e de repente seus olhos se encheram de lágrimas.
   – Papai você está bem? Perguntou o menino aflito.
   Voltando a realidade, o pai replicou:
    – Sim, Lucas, papai está ótimo. O que foi mesmo que você disse?
    – Que eu já tenho idade para aprender a pescar. Se o Senhor pode me ensinar?
    Jonas respondeu automaticamente que no próximo domingo ele o levaria para aprender a pescar. O menino saiu radiante, já contando as horas para o esperado acontecimento. Desde muito pequeno ele sempre sentiu muita atração pelo mar, tudo que se relacionava a peixes, barcos, anzóis o fascinavam. Quando tinha uns cinco anos, Atílio o levou para pescar em alto mar, mas como o garoto ficou muito mareado, Jonas pediu para que o irmão não o levasse mais, e a partir de então, nunca mais tinha tido oportunidade de realizar o seu grande desejo – aprender a pescar.
   Assim que seu filho se distanciou, Jonas se deitou na esteira, com o corpo relaxado e a mente fervilhando, concluiu:
   – Só pode ser ele! É por isso que eu amo tanto este menino, muito mais que os outros. Ele é Aimanon.
   – Mas quem foi Aimanon? Terá sido meu filho?
   Não adiantava, por mais que pensasse, nada lhe vinha à mente, a única coisa que tinha certeza é que ele tinha sido um pescador. Mesmo assim, não sabia de onde vinha esta certeza, pois o simples fato de ter lhe oferecido um peixe não significava que ele o havia pescado. Jonas pensou no assunto por muito tempo, até que adormeceu. Logo já estava sonhando com a mesma fonte, a mesma praça, o mesmo Senhor de cabelos brancos e olhar sereno. Iane lhe dirigiu a palavra. O antigo líder ainda estava meio entorpecido, não conseguia raciocinar com clareza, mas mesmo assim, sabendo que o Senhor queria se comunicar com ele, se esforçou ao máximo, pois existia muita coisa que ele queria saber. De repente, Jonas começou a ouvir com clareza o que Iane dizia:
   – Filho, eu sei que você está muito intrigado com os últimos acontecimentos, mas estou aqui para lhe responder todas as perguntas que você me fizer.

continuação…

 

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