Mykonos-90

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CAPÍTULO 11

A UNIÃO AGREGA MAIS LUZ

    Era uma manhã de domingo, todos os homens permaneciam na Comunidade em busca do descanso merecido. As mulheres cuidavam de seus afazeres matinais que incluía buscar água no riacho que circundava a Grande Pedra. Mirtes, como sempre, dormia a sono solto, obrigando Sibila a tomar frente com os cuidados de higiene da caverna que ocupavam. O fato de seu lar ser no terceiro piso demandava muito esforço da menina que ainda não completara quatorze anos. Os baldes de água eram muito pesados e naquela manhã especialmente ela não podia contar com a ajuda de seu pai. Percilio estava em Lagos, uma comunidade muito pobre, cuidando dos doentes que naquelas redondezas eram muitos.  Tinha partido na manhã de sábado, em companhia do nativo Hipólito, seu fiel auxiliar.
    Assim que chegou no segundo piso, a menina ofegante, tropeçou e entornou um dos baldes, a água se espalhou por toda a plataforma que dava acesso ao piso superior chegando a escorrer em direção a caverna onde morava Luizinha e sua família. Assustada, Sibila tentou evitar o pior, pois sabia que a moradora  não se relacionava bem com sua família, mas na ânsia de não deixar que a água se espalhasse, acabou entornando o segundo balde, piorando muito mais a situação. Bastou alguns segundos para que Luizinha saísse da caverna aos gritos e avançasse em direção a Sibila, que abaixou a cabeça, pedindo perdão.
    Foi uma fração de segundos, mas a esposa de Laercio como que congelou ao ver claramente Anita ao lado de Sibila. Ela abaixou os braços que já estavam em posição de agredir a menina, ficou absolutamente estática, disse:
    – Perdão Sibila, eu vou te ajudar a limpar esta bagunça, fiquei muito nervosa porque pensei que você tinha feito isso de propósito, mas eu sei que não foi.
    Com a mudança de comportamento da vizinha, Sibila suspirou aliviada, respondeu:
    – Os baldes estavam muito pesados, eu tropecei no degrau e derrubei toda a água, desculpe.
    – Não se preocupe, assim que terminar de limpar a plataforma, eu vou pedir que Laercio vá com você até o riacho buscar mais água, ele já acordou e já tomou o desjejum, vai ser bom para ele dar uma voltinha e tomar um ar, devido o verão, nossa caverna está muito abafada.
    Sibila estranhou a solicitude de Luizinha, mas ficou muito feliz por ela ter entendido o que aconteceu. Alguns minutos depois, a menina voltava para o riacho, desta vez não estava só, Laercio a acompanhava de bom grado. Era a primeira vez que estava tendo a oportunidade de caminhar sozinha ao lado dele, toda a sua vida tinha sido pautada em ajudar seu pai e sua mãe e como as relações de inimizade entre a sua família e a de Luiza tinham se iniciado antes mesmo de seu nascimento, ela jamais tinha se dirigido a Laercio, apesar de ter certeza que se tratava de um bom homem, pois sempre lhe inspirou muito confiança. Após alguns minutos de caminhada silenciosa, foi o marido de Luiza que primeiro se manifestou, dizendo:
    – Sibila, eu gosto muito de seu pai, ele é um homem de bem e muito caridoso, você tem muita sorte de ser sua filha.
    A garota corou imediatamente, ficou ligeiramente encabulada, não sabia o que responder, pois o fato de ser filha de quem era sempre lhe pareceu um presente do Grande Deus e não uma questão de sorte, mas mesmo assim esboçou um sorriso e timidamente falou:
    – Foi o Grande Deus que me deu o pai que tenho. Eu sei que ele é uma pessoa maravilhosa mas eu o vejo cuidando de mim a muito, muito tempo, muito mais tempo do que o tempo que moro na Grande Pedra.
     Caminhando lentamente, Laercio respondeu:
     – Eu sei Sibila, quando você nasceu, seus pais ainda moravam com Claudius, então, desde aquela época você tem a sorte de ter o pai que tem.
    Tentando se fazer entender, a menina prosseguiu:
    – Não é sorte minha senhor, foi o Grande Deus que pediu a ele que cuidasse de mim novamente e ele aceitou muito feliz.
    Apesar de Laercio ser um homem que sempre trouxe consigo a certeza da existência do Grande Deus, seu casamento e o convívio com a família de Luiza, tinham deixado marcas em seu espírito, a muitos anos não repetia as orações que costumava fazer em companhia de sua mãe, na época que era um molecote. Sua esposa o condicionava a obedecê-la e não permitia que nada que não fosse comprovado com os olhos terrenos fosse motivo de conversação em sua casa, seus filhos cresceram absolutamente à parte da existência de uma força maior que tudo criou e tudo conduz. Com meia dúzia de palavras, aquela menina tinha lançado em sua consciência, flashs de lucidez que a muito tempo tinha perdido. Perguntou curioso:
    – Vejo que acredita na existência do Grande Deus, me conta como pode ter tanta certeza do que me disse.
    Se fazendo de desentendida, Sibila respondeu pausadamente:
    – Se o senhor se refere ao fato de ter sido o Grande Deus que pediu para meu pai cuidar de mim, foi Anita que me disse.
    Um arrepio percorreu a espinha de Laercio, a primeira imagem que lhe veio à mente foi a do enterro da menina que morreu a alguns meses atrás, mas mesmo assim, curiosíssimo, falou:
     – Me explique melhor, sua irmã Anita está morta!
     Como que sendo avisada, Sibila pensou um pouquinho, lembrou-se das inúmeras vezes que Ana havia lhe dito para não dizer nada a ninguém à respeito do dom que ela e Celeste carregavam, disse:
     – O senhor não entendeu, Anita me disse antes de morrer.
     Sem tempo para maiores comentários, Laercio pegou os baldes e os encheu, pois haviam chegado ao riacho. Sibila também encheu uma pequena moringa que servia para armazenar água para beber e voltaram imediatamente.
     Foi um encontro casual que causaria uma reviravolta na relação entre as famílias. No momento que caminhavam em direção ao riacho, uma horda de espíritos da mais alta hierarquia, conseguiram se aproximar do rapaz. Durante os últimos anos, a influência insana de Luiza, Raquel e Laurinha, não permitia que sua mãe Rute se aproximasse e intuísse lucidez ao seu filho.  O episódio da água que Sibila derramou na plataforma que dava acesso a sua caverna foi provocado por amigos que queriam muito resgatar o rapaz, seria através dele que a paz voltaria a reinar entre as famílias.
     Assim que entrou em sua caverna, Luizinha notou que Laercio parecia diferente, mas creditou a repentina mudança ao ar fresco que havia respirado. O rapaz sentou-se pensativo,  inúmeras imagens de sua infância invadiram seu subconsciente, se viu sendo alimentado por sua mãe, brincando com seu pai, parecia que revivia um tempo a muito sepultado e encoberto com o véu da dor e do sofrimento. Pensou em seus filhos, agora adultos, que a muito já tinham perdido o frescor da inocência infantil, pensou em sua vida com Luizinha, que também não tinha o colorido da felicidade e da leveza.
     Em um dado momento, indagou mentalmente:
     – Qual o mistério que tem essa menina, filha de Percilio, que me fez refletir sobre tantos assuntos? Será obra do Grande Deus? Ou será mamãe? As respostas vinham aos borbotões, mas nenhuma mereceu atenção, a não ser, uma afirmação contundente, com os contornos de um pedido de socorro:
     – Preciso de ajuda!

continuação…

 

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