Mykonos-80

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   – Filhos, Percilio tem razão, quando partimos de Verona, ocorreram muitos fatos que fizeram com que eu desejasse procurar um sacerdote grego para entender melhor o que acontece quando as pessoas partem para outra vida, mas os afazeres, a distância, me impediram que pudesse concretizar este desejo de saber mais sobre o que é a morte e  o que ela representa na nossa vida.
   Durante os próximos trinta minutos, Jonas explicou detalhadamente tudo que ocorreu no dia da partida da família para Grécia, contou da visão que teve de seu pai em seu quarto, do susto que levou quando ele apareceu sorrindo sentado na cabeceira da cama. Todos ouviam com a respiração suspensa, pois era algo que no fundo cada um dos presentes tinham a certeza que era verdade, mas ao tempo um medo muito grande tomava conta da consciência de todos, inclusive de Percilio. Assim que terminou de detalhar todos os acontecimentos que o acometeram durante a vida, Jonas abaixou a cabeça e disse:
   – Filhos, eu sei que sou um covarde, talvez se eu tivesse tido coragem de encarar estes acontecimentos com mais naturalidade eu poderia estar ensinando a vocês muito mais do que pude durante a vida de cada um de vocês.
   Desta vez foi Mirla que disse:
   – Pai, quando partimos da Itália eu era muito menina, mas me lembro claramente de ter visto vovô acenando da terra firme enquanto nossa embarcação deslizava rumo à Grécia. Isto quer dizer que o senhor não estava sonhando, nem delirando, nós temos algo que não sei dizer o que é, mas que nos possibilita enxergar aqueles que já estão vivendo em um outro lugar.
    – Sejamos práticos! exclamou Cirilo.
    – O motivo desta reunião é encontrar uma solução para o problema de papai. Ele não pode continuar tendo tantos lapsos de memória, pois vai chegar o dia que ele não poderá mais sair da Grande Pedra, sob risco de não mais voltar.
    Percilio criticou o modo ríspido que o irmão se referiu ao problema do pai, disse:
    – Agora, quem fala sou eu, não quero mais que ninguém se dirija a papai como ele já estivesse prestes a se tornar um inútil. O que vou dizer pode parecer estranho mas tudo que eu faço, desde a indicação dos remédios, dos chás, dos unguentos, aos doentes que me procuram, até a orientação quando aos cuidados com a alimentação e a higiene, são transmitidos a mim através do pensamento por Dr. Alecsander.
   Todos os irmãos ficaram atônitos com a revelação.
   – Como assim? O nativo Hipólito nos disse que o velho médico já morreu. Afirmou Lêntulo.
   – Não perguntem como isso se processa, mas eu sei o que estou dizendo, o pouco que aprendi quando morei com Claudius não seria suficiente para atender tanta gente e obter tanto sucesso nas orientações, eu precisaria saber mais sobre o corpo humano e sobre as doenças que o acometem, como um verdadeiro Doutor, que estudou e se diplomou.
   Neste ponto, ninguém ousava dizer nada, afinal todos sabiam que era verdadeira a colocação de Percilio, era impossível alguém ser tão preciso em seus diagnósticos sem nunca ter estudado à fundo o assunto.
   Percilio prosseguiu:
   Além de Dr. Alexander existe uma outra pessoa que eu também conheci e que me auxilia, o ancião de nome August que celebrou o meu casamento com Mirtes.
   – Grande Deus! Disse Jonas.
   – Este também já morreu, não faz muito tempo que seu corpo foi achado sem vida no meio da floresta, quem me disse foi meu amigo Merriot.
   – Sim papai. Completou Percilio.
   – Ele me disse que em uma outra vida, antes dessa, ele se chamava Menéas e eu Aimanon.
   – Como assim! Gritou Jonas, lívido como uma folha de papel.
   – Repita o ultimo nome que você acabou de dizer!
   – Aimanon! Disse Percilio lentamente.
   Jonas parecia que ia perder os sentidos, mas se conteve, olhou para o filho com lágrimas nos olhos, falou:
   – Filho, eu acredito em cada palavra do que você nos disse, acredito também que eu tenho que fazer alguma coisa para recuperar o tempo em que não tive coragem, nem ânimo, para descobrir um pouco mais dos mistérios que nos rodeiam, algo me diz que você tem toda razão, eu vou fazer tudo que você me disser.
   Percilio deu um longo abraço em seu pai, gesto seguido pelos outros irmãos, um por um saudou o velho líder da Comunidade da Grande Pedra.
   Um novo tempo teve início a partir desta reunião. Ficou combinado que Jonas começaria a trabalhar com Percilio junto aos doentes do corpo e ficaria encarregado de levá-los até o local onde a Comunidade se reunia para orar e saudar o Grande Deus. Segundo orientação de Menéas, ele nada precisaria fazer, a não ser elevar seu pensamento e pedir auxílio ao seu mentor pessoal: Iane, seu pai em Constantinopla, ele se encarregaria de auxiliá-lo a afastar os espíritos indesejáveis que rondavam muitos doentes do corpo, que na verdade sofriam de males ligados a energia de seus espíritos que por persistirem em atitudes e pensamentos nefastos acabavam por atraí-los. Desde o primeiro atendimento, Jonas sentiu o auxílio, apesar de invisível, percebia claramente a segurança e o amor que lhe eram direcionados.
  Duas pessoas que precisavam extremamente dos cuidados espirituais que Jonas se encarregava de ser o condutor, se negavam terminantemente a se submeter, seja qual fosse o tratamento a elas direcionado, uma delas era Mirtes e a outra Luizinha, assim que ficaram sabendo, através de seus maridos, que deveriam procurar Jonas para uma sessão de realinhamento de seus espíritos, começaram a evitar até se encontrar com ele. Por outro lado, Albertinho, de livre e espontânea vontade, procurou Percilio e disse:
   – Primo, fiquei sabendo através de Cirilo que tio Jonas está te auxiliando no atendimento aos doentes, esta noite eu sonhei com meu pai e ele me pediu que o procurasse, porque, segundo ele, eu serei de muita valia a missão de meu tio, e ao mesmo tempo, utilizarei um dom que por anos me incomodou, em prol de ajudar aqueles que mais necessitam.
   Percilio, já sabendo a que Albertinho se referia, disse apenas:
   – Primo, a partir de hoje, você será o parceiro de meu pai nos atendimentos, antes de iniciar o tratamento, diga a ele, o que você vê e não se preocupe em detalhar, diga apenas o aspecto da energia, que ele saberá o que fazer.
  Albertinho emoldurou seu rosto com um largo sorriso, hoje, ele já era um homem maduro, pai de família, mas a angustia que sentia desde menino, toda vez que vislumbrava algo que sabidamente ninguém via, o atormentava sobremaneira, a ponto de roubar-lhe a alegria de viver.
   E assim, teve início um novo tempo na Comunidade, os tratamentos se tornaram mais abrangentes, os médiuns, à olhos vistos, se tornaram mais tranquilos, mais felizes, mais solidários, e Jonas, por incrível que pareça, obteve de volta o equilíbrio e a memória de tempos atrás. Visivelmente, a Comunidade se dividiu, de um lado, Jonas e seus filhos e do outro, Luizinha, sua família e Mirtes, que com a morte de Sibele, se tornou grande amiga da família.

continuação…

 

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