Mykonos-81

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  Em casa, Mirtes mal olhava para o marido, e aparentemente nutria uma raiva doentia por Anita, o mesmo não acontecendo com Sibila, que em alguns momentos, até recebia um elogio carinhoso da mãe. Esta situação abalava a estrutura familiar, Percilio pedia que Mariane e Mirla não descuidassem da filha caçula, no período em que ele estivesse trabalhando na plantação, pois temia que Mirtes pudesse agredi-la verbalmente ou até mesmo machucá-la fisicamente.
  Certo dia, ao chegar em casa, ele encontrou a filha com um grande ferimento na sola dos pés, ela tinha pisado em uma pedra pontiaguda enquanto corria a beira mar em companhia das meninas da Grande Pedra. Mirtes, ao seu lado, a recriminava initerruptamente, mesmo Sibila dizendo que não tinha sido sua culpa. Percilio, percebendo a gravidade do ferimento, logo chamou Rafael, para que ele providenciasse preparados para conter a infecção, que fatalmente ocorreria, todos sabiam que as pedras tinham muitas bactérias que se instalam em suas superfícies, trazidas pela água do mar, contaminada por resíduos de elementos em putrefação. Mesmo com todos os cuidados, depois de algumas horas, a menina começou a delirar, o suor banhava sua face, em desespero, Percilio se ajoelhou e orou com todas as suas forças, pedindo clemência ao Grande Deus. A Grande Pedra, em silêncio absoluto, também orava, em cada caverna havia alguém pedindo pela vida da menina alegre e prestativa.
   O nativo Hipólito ficou dois dias e duas noites colocando compressas de água fria em seu corpo para que a febre baixasse.  Sibila e Celeste, a pedido de Percilio, permaneceram com Ana, na caverna de Mariane, lá se juntaram a Mirla e alguns moradores que se revezavam nas orações, pedindo pela menina que todos amavam.
  No final do segundo dia, Anita deu o último suspiro. Percilio chorou e gritou desesperadamente, precisando ser amparado por seus irmãos, tamanha a dor que se estampava em suas feições, ele parecia tomado por uma força descomunal, um misto de revolta e desespero. Mirtes permaneceu impassível, na cabeceira da cama da filha, não soltou nenhum lamento, nem mesmo uma única lágrima escorreu de seus olhos. Sibila em companhia das tias, também chorou compulsivamente e só se acalmou quando se achegou no colo do avô. Celeste, ajoelhada, ao lado da mãe, orava para que o Grande Deus recebesse sua amiga de folguedos, no fundo, ela sentia que a morte nada significava perante a grandiosidade do Deus que tudo criou.
  Percilio precisou ser amarrado à cama, com o auxílio de todos os irmãos. Jonas tomou a decisão extrema por temer que o filho se jogasse no mar, tal a revolta que se via estampada em seus olhos. Cirilo, sentado ao seu lado, tentava acalmá-lo, dizendo:
  – Irmão, o Grande Deus a trouxe, o Grande Deus a levou, somente ele sabe a hora que devemos chegar e também o momento de partir. Anita ficará bem aconchegada em seus braços, ela era um anjo, que veio alegrar as nossas vidas e prosseguirá fazendo isso, esteja onde estiver.
   Mas o rapaz não continha a revolta, e a resposta veio de pronto:
   – Eu não aceito, minha menina não merecia um triste fim como esse, ela era a bondade em pessoa, que Deus é esse que pune alguém como ela?
   Neste exato momento, Percilio fechou os olhos, pois começou a ouvir a  voz de Menéas, que desde a tarde em que encontrou a filha ferida havia se afastado, deixando que seu pupilo vivenciasse sua dor sem sua interferência. O velho adivinho disse:
  – Filho, Anita está conosco, sua trajetória nesta vida já se encerrou, peça que Sibila não se desespere, pois logo sua irmã virá conversar com ela. Será através de um sonho. E você, aja como um intermediário do Grande Deus que tem muitas tarefas a cumprir, pare de fazer escândalo e cuide de encaminhar o corpo de sua menina.
  Percilio abriu os olhos lentamente, totalmente envergonhado, quem era ele para ir contra uma determinação do Grande Deus. Os braços e as pernas amarradas na cama eram a representação do desiquilíbrio que tomou conta de sua mente e de seu corpo. Ele deu uma olhada na situação em que encontrava, fechou os olhos novamente e orou com toda sua fé.
    – Grande Deus, perdão por esta atitude egoísta e mesquinha, eu sei que com a sua glória, Anita prosseguirá sua trajetória como sua filha, não minha, e do Alto cuidará de todos nós, como fazia aqui.
   A seguir, sentiu como que um bálsamo de luz invadir todo seu corpo, os músculos retesados relaxaram milagrosamente, a mente aclarou, os nervos pareciam que haviam se integrado ao ambiente ao redor. Olhou carinhosamente para Cirilo que permanecia vigilante ao seu lado, disse pausadamente:
    – Irmão, estou melhor! Retire estas amarras que preciso cuidar de encaminhar o corpinho de minha filha ao Grande Deus!
   Cirilo prontamente se colocou na posição de um irmão zeloso. Disse:
    – Está bem, sinto que você já entendeu que não há como ir contra as determinações do Alto, Anita voltará um dia.
   Enquanto o rapaz desatava os nós, Percilio pensava, quando foi que Cirilo agregou a sua essência esta fé inabalável que o Grande Deus é o comandante mor de todas as vidas? Ele mesmo titubeava em aceitar um destino aparentemente tão cruel destinado à sua filha.
   O que ele não sabia é que Cirilo tinha muito mais conhecimento dos mistérios que envolvem o Universo do que ele próprio, foram inúmeras encarnações anteriores a essa, aprendendo e buscando respeitar as forças invisíveis que conduzem cada centelha de vida que ornamenta este Lar tão aconchegante. Foi seu tio na vida de Constantinopla, e quem o encaminhou a ter uma oportunidade de se envolver na descoberta das Leis que regem a interação entre os homens e o Criador, respondia pelo nome de Tio Elias, irmão de sua mãe Linizia.
   Quando Cirilo se movimentava para retirar a última amarra que prendia um dos pés do pai de Anita, entra no aposento, Jonas, acompanhado de Sibila e Celeste, ele cedeu aos pedidos das meninas de ter com Percilio, pois elas insistiam que tinham algo muito importante para dizer a ele. Assim que percebeu que seu filho estava mais calmo e sereno, suspirou aliviado, olhou inicialmente para Cirilo, dizendo que ele terminasse de retirar as amarras, a seguir prosseguiu, se dirigindo a Percilio:
   – Filho, vejo que você está mais tranquilo, sente-se, tome um copo de água, que precisamos conversar – eu, você, Cirilo, Sibila e Celeste. As meninas insistiram que eu as trouxesse até aqui. Sibila me disse que precisa conversar com você a respeito de Anita.
   Percilio, como que se não tivesse entendido, sentou-se lentamente na cama, colocou Sibila em seu colo, pediu que Celeste se sentasse ao seu lado, disse:
   – Meninas, o que de tão importante vocês tem para me dizer?
   Abraçando Sibila ternamente, prosseguiu:
   – Filha, Anita não está mais conosco, ela agora é um anjo que prosseguirá cuidando da gente do local aonde será levada por nossos amigos, mas não poderemos mais vê-la.
   Sibila escorregou do colo do pai, postou-se diante dele, disse:
   – Papai, acabo de ver Anita ao seu lado, ela está linda, os cabelos penteados e brilhantes, usando o vestido florido que tia Mirla fez para ela.
   Percilio levou um choque, ele sabia que Anita tinha muita sensibilidade, algumas vezes chegou a dizer que tinha vista pessoas estranhas ao lado de Lêntulo, mas Sibila nunca demonstrou qualquer sinal de que pudesse “ver” os mortos, como acontecia no passado com seu pai e sua irmã Mirla.
   Ao perceber o embaraço do filho, Jonas entrou na conversa, dizendo:
   – Filho, você sabe muito bem que sua filha está dizendo a verdade, ela, como eu, tem este poder, de enxergar o que ninguém enxerga.
   Celeste, que até aquele momento permanecia sentada na cama e calada, disse:
   – Tio, Anita também apareceu para mim, foi muito rápido, enquanto eu orava para que ela se recuperasse, eu a vi ajoelhada ao meu lado. Mamãe me disse que tinha sido minha imaginação, mas depois que ela morreu, eu e Sibila estávamos juntas quando ela apareceu e tia Mirla viu também.
   Cirilo de olhos arregalados não acreditava no que ouvia, ele respeitava muito seu pai, e todas as vezes que Jonas afirmara que tinha visto o velho Messias, ele não contestou, mas no fundo nunca teve certeza absoluta.
   As duas meninas aguardavam ansiosas as colocações de Percilio, afinal, não havia o que duvidar e com certeza o líder da Comunidade teria uma explicação que clareasse um fato tão misterioso.
   Percilio pensou um pouco e disse:
   – Meninas, o fato de vocês duas serem tão amigas de Anita fez com que ela aparecesse em espírito para vocês, até mesmo antes de morrer, quando Celeste a viu. Eu quero que vocês jamais se esqueçam que a vida continua, ninguém morre, só muda de morada e quando o Grande Deus achar que chegou a hora, aquela pessoa que “aparentemente” morreu poderá voltar em um outro corpo.
   Jonas respirou profundamente, nunca tinha ouvido uma colocação tão clara a respeito da continuidade da vida, ele acreditava em cada palavra de seu filho, arriscou dizer:
   – Prezo muito sua explicação, filho. Sua filha vive, isto é mais certo que eu estar aqui neste momento.
   Um profundo silencio se seguiu a esta afirmação, todos, inclusive as meninas queriam mais explicações a respeito do assunto mas concluíram que não era a hora. O corpo de Anita ainda repousava na caverna da família, sendo velada pelos tios e amigos próximos. Apenas Mirtes se afastou assim que a morte foi constatada por Rafael e não mais se aproximou. Neste momento, ela caminhava sem rumo bem distante da Grande Pedra, tomou a direção de Semiris, com a convicção de não mais voltar.

continuação….

 

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