Mykonos-79

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   Percilio temendo que a voz se afastasse definitivamente, se apressou em pedir a Menéas que o orientasse em como fazer para ajudar Luiza e principalmente seu pai a se livrar deste peso que o destino lhe impôs.
   Após um breve silêncio, Menéas respondeu:
   – Filho, você precisa se inteirar mais de como as energias atuam sobre a vida de cada um, só assim poderá ajudá-los.
  Percilio percebeu neste momento que Menéas se fora, deixando-o com uma interrogação. Como saber mais a respeito de energia? Neste momento, lhe veio à mente procurar seu pai para entender mais o que se passava em sua vida que foi tão cruel à ponto de deixá-lo tão debilitado, obrigando-o a  não poder mais se ausentar sem a companhia de alguém. Por alguns minutos, o rapaz fechou os olhos e pediu ao Grande Deus que o auxiliasse nesta tarefa aparentemente de difícil solução.
   Assim que retornou a Grande Pedra, Percilio foi direto à caverna do pai. Lá chegando, encontrou sua irmã Mirla, que tinha ido levar a refeição da noite. Naquele dia Jonas tinha se queixado de dores na garganta. Foi aconselhado a não ir à plantação pois o tempo chuvoso poderia piorar a inflamação. Ao abrir a porta, um forte cheiro de incenso chamou a atenção do rapaz, que perguntou:
  – Mirla, o que significa este cheiro tão forte?
  A jovem olhou demoradamente para o pai, disse:
  – Papai pediu que eu acendesse.
  – Mas aqui dentro não tem ventilação, é perigoso pegar fogo em algum objeto ou até mesmo deixá-los intoxicados. Afirmou Pecilio.
  Jonas, com feições que não tinha entendido as colocações do filho, falou:
  – Filho, não se preocupe, não vai acontecer nada, a fumaça das folhas queimando carregam com elas as energias ruins que atrapalham o sono da gente.
  Percilio teve a impressão que levou um choque, aí estava a resposta para suas indagações, ele precisava de muito incenso para atingir seu objetivo de auxiliar seu pai, seu irmão e Luizinha.
  Depois de um longo momento em que os três ficaram em silêncio absoluto, Mirla se arriscou em dizer:
   – Irmão, nosso pai anda tendo muita dificuldade em dormir, acho que é isso que o deixa muito cansado e com a memória falha.
   Jonas, não se conformando em ser conduzido pelos filhos, disse indelicadamente:
   – Filhos, parem de me controlar, eu ainda tenho muita vida para viver e não preciso de ninguém para decidir o que eu posso ou não posso fazer.
   Percilio, ouvindo a voz de seu amigo Menéas, fechou os olhos e prestou muita atenção:
   – Aimanon, seu pai precisa ser esclarecido do que está acontecendo, só assim ele se recuperará, não deixe passar esta oportunidade, chame Mariane, Cirilo e Lêntulo, seus irmãos devem estar cientes de tudo que acontecerá daqui para frente.
  Com as feições endurecidas, o rapaz abriu lentamente os olhos, disse:
  – Papai precisamos conversar longamente.  Completou, se dirigindo a Mirla.
  – Vá chamar nossos irmãos, esta conversa deverá ocorrer na presença de todos os filhos.
  Prontamente a jovem foi em busca dos irmãos. Enquanto isso, Percilio se sentou ao lado do pai e o abraçou longamente. Depois de alguns minutos, Mirla retornou em companhia de Cirilo e Lêntulo, que levaram um susto quando receberam o convite de se reunirem para conversar, pensaram o pior com relação a saúde de Jonas. Mariane chegou pouco depois, mas não veio só, trouxe Anita que estava muito apreensiva com a demora do pai em voltar da plantação.
   Percilio olhou para filha, como se a visse pela primeira vez, viu claramente, seu pai Jonas caminhando ao lado dela em um local totalmente desconhecido.
   – Grande Deus, o que está acontecendo? Perguntou o rapaz em voz alta.
   Os dois rapazes e as duas jovens se assustaram com o tom de voz que Percilio usou para fazer a pergunta tão enigmática. Foi Anita, com a inocência de seus sete anos de vida, que quebrou o desconforto que pairava no ar, dizendo:
   – Ora papai, não está acontecendo nada, o senhor não vê que vovô precisa apenas trabalhar, quando ele fica em casa, fica triste e adoece.
   Todos riram da explicação tão óbvia. Jonas, com um largo sorriso,  se levantou e caminhou em direção a neta, abraçou-a e rodopiou seu corpo no ar. Novamente, Percilio viu cenas desconhecidas em sua tela mental, desta vez, chegou a ouvir até a voz da menina que dizia:
   – Para de rodar papai, o senhor está me deixando tonta!
   Assim que voltaram à realidade, Percilio pediu que todos se sentassem ao redor da mesa, menos Anita, que já tinha se dado por satisfeita ao rever o pai e disse que iria brincar com Sibila e Celeste.
   Jonas a contragosto também sentou-se, pois temia que os filhos novamente o proibissem de trabalhar na plantação. Percilio tomou a palavra dizendo:
   – Meus irmãos, precisamos conversar longamente sobre o mal que acomete papai.
   Jonas, sem pensar, disse:
   – Ora, pare com isso rapaz, eu não tenho nenhum mal, apenas alguns esquecimentos que não me atrapalham em nada.
   Desta vez foi Lêntulo quem decidiu falar.
   – Papai, não seja tão turrão, deixe nosso irmão falar, se ele disse que o senhor sofre de um mal, precisamos nos unir para ajudá-lo.
   Percilio pigarreou, buscando as palavras certas para iniciar a exposição, disse:
   – Não me perguntem como eu sei, mas tenho certeza que papai sofre de um mal que o abateu porque ele deixou de fazer certas obrigações.
   Era visível que ninguém tinha entendido nada, afinal Jonas, sempre foi um homem trabalhador, íntegro, bom marido e pai. É certo que com Joninho ele colheu arrependimentos, mas mesmo assim cumpriu com seu papel de pai e protetor. Cirilo pediu que o irmão explicasse melhor, pois, por mais que pensasse, não conseguia visualizar algo que seu pai tenha deixado de fazer.
    Neste momento, Percilio pediu mentalmente ajuda a Menéas, que de pronto respondeu:
    – Não se preocupe, comece do começo, diga que seu pai em um dado momento da vida foi solicitado para aprender mais sobre as energias de pessoas que já estão morando em outro lugar e conseguem interagir com os vivos, mas não deu ouvidos, seguiu a vida e hoje colhe as consequências deste ato.
    Percilio seguiu à risca as orientações do velho Menéas, assim que terminou, um mal estar pairou no ambiente, ninguém ousava dizer nada, nem mesmo Jonas. Foi Mariane que se arriscou a dizer:
   – Eu acho que você está delirando, isto é impossível, os mortos estão definitivamente longe da gente, é impossível que alguém possa estar sofrendo com uma doença que foi ocasionada por um motivo tão incompreensível.
   Á partir daí todos queriam falar, Percilio pediu calma e deu a palavra a seu pai, que naquele momento se mantinha de cabeça baixa, absorto em seus pensamentos. Disse:
   – Papai, preciso ouvir o que o senhor tem a dizer.
   Jonas levantou a cabeça lentamente, olhou para o filho e uma grande lágrima escorreu de seus olhos, demonstrando claramente a emoção que sentiu ao ser tão diretamente solicitado para dar o seu ponto de vista a respeito de um assunto que durante toda a sua vida lhe incomodou bastante, falou lentamente.

continua na próxima quarta-feira

 

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