Mykonos-78

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   Foi um mês de muita reflexão, tanto para ele, como para os irmãos Massina, em especial Jonas, que já com avançada idade, tinha lapsos cada vez mais frequentes de esquecimento, ele tentava por todos os meios levar uma vida normal, mas o vigor da juventude já o havia abandonado, o único divertimento era conversar com suas netas, em especial Anita, desde que nasceu, a menina lhe despertava um carinho que nunca sentiu por neto nenhum, apenas Mirla, sua filha mais velha foi capaz, na época que era menina, fazer despertar algo parecido, atualmente, com três filhos, eles mal conseguem se falar.
    Percilio andava muito preocupado com seu pai, a alguns meses o havia dispensado dos trabalhos na plantação, mas aconselhado por seus tios, mudou de ideia. Jonas ficou muito triste, e temendo que algo pior acontecesse, Percilio voltou atrás. Sem o pai saber, combinou com os tios e outros amigos que todos se revezariam para observá-lo, pois, era cada vez mais comum ele se embrenhar na mata e não saber como voltar para a Grande Pedra.
    Finalmente o período de chuva parecia que ia se findar. Novos ares pareciam soprar naquele pedacinho de mundo perdido entre o mar e as pedras. Percilio se concentrava cada vez com mais afinco em descobrir um meio de ajudar seu irmão, Lêntulo e a esposa de seu melhor amigo, Luizinha, irmã de sua cunhada. Quanto mais ele pensava a respeito, mais chegava a conclusão que o mesmo mal que acometia os dois também havia roubado a memória de seu pai. Mas o que será? Não se cansava de repetir. Até que um dia, retornando da lida, sozinho, ele parou diante do mar, da mesma maneira que tinha feito inúmeras vezes enquanto era menino e exclamou:
    – Grande Deus, eu já não quero mais saber o que há após a linha que vejo ao fundo porque eu sei que o Senhor em sua infinita sabedoria deve ter colocado lá, algo bom, que represente sua  bondade  e sabedoria.
    Neste momento, ele teve a impressão que o mar crispou mais do que de costume e uma voz, que parecia estar dentro de sua cabeça, lhe disse:
    – Aimanon, muito ainda há de vir, o que peço é que você fortaleça esta fé que hoje coloca na mão do Grande Deus a responsabilidade por tudo o que você não encontra resposta.
   Percilio piscou, olhou para trás, para os lados e não havia absolutamente ninguém.
   Pensou:
   – Quem é Aimanon?
   E a voz disse:
   – Aimanon é um rapaz que viveu a muitos anos atrás, em uma outra localidade denominada Constantinopla, mas que hoje responde pelo nome de Percilio, ou melhor, Lucas, o menino que queria saber o que havia depois da linha do horizonte e hoje não quer mais saber, já se deu por satisfeito, porque a fé que animava o corpo de Aimanon, finalmente envolve a mente e o coração de Naim.
   Percilio largou os braços como que se houvesse se rendido a algo magnifico que jamais o abandonou, lentamente se sentou em uma pedra, deixando ao lado os apetrechos que trazia do dia extenuante de trabalho, uma grande lágrima escorreu de seus olhos, seus lábios se moveram como que desejando emitir algum som, mas nada aconteceu, apenas sua mente prosseguiu em alerta. A voz prosseguiu:
    – Hoje, você recebeu um presente do Grande Deus, todas as perguntas acerca do mal que acomete seus entes queridos serão respondidas, graças apenas a fé que  demonstrou acerca da sabedoria daquele que criou tudo o que se esconde atrás da linha que separa o céu do mar.
   Imediatamente, Percilio formatou mentalmente a pergunta que tanto martelou em sua mente durante os últimos meses:
   – Como posso ajuda-los?
   – É simples! Respondeu a voz.
   – No caso de seu irmão Lêntulo, anos e anos, sem enxergar o mundo que o rodeava, fez com que ele se ligasse a energias que envolvem o Planeta – todas da ciência e do controle do Grande Deus – que são atraídas quando alguém pensa reiteradamente em acabar com a própria vida.
   Percilio já sabia que Lêntulo não tinha uma boa visão, mas nunca imaginou que os delírios e a vontade de se afastar de todos e de tudo se devesse a algo dessa natureza, perguntou reticente:
   – Como posso ajudá-lo?
   – Nos dias de hoje, onde os povos apenas engatinham na evolução de técnicas que no futuro poderão corrigir facilmente deficiências visuais, não há o que fazer.
   Decepcionado, Percilio suplicou:
   – Seja você quem for, me dê uma luz, preciso ajudar meu irmão!
   Uma rajada de vento varreu toda a orla marítima, o rapaz sentiu como que sua pergunta já tivesse sendo respondida, pois visualizou Lêntulo ao seu lado, sorrindo, diante de uma flor oferecida por ele. E a voz prosseguiu:
   – É exatamente isto que você pensou, reúna seus irmãos, Cirilo, Mirla e Mariane e conte para eles que a partir de agora, vocês quatro serão os olhos de Lêntulo, ele enxergará o mundo através de seus olhos, enquanto um trabalha, o outro toma o seu lugar, e assim, não o abandonem um segundo sequer, da mesma maneira que sua mãe fazia. Breve, ele se verá livre destas influências nefastas, e no dia que se casar, sua esposa tomará o lugar de vocês quatro.
   Percilio, aos prantos, agradeceu a valiosa ajuda. A voz prosseguiu:
   – Filho, como já passou pela sua mente, eu sou Menéas, seu velho amigo de muitas vidas, nesta, você me conheceu como August – o ancião que fez seu casamento com Mirtes.
   Esta revelação o deixou muito confuso, como um passe de mágica todos os momentos em que esteve com August passou por sua mente, e também recordou que o nome Aimanon não era totalmente desconhecido, disse:
   – Grande Deus, que mistério é esse, alguém que tive o prazer de conhecer nesta vida, agora conversando comigo, sem corpo?
   – Mistérios da Criação meu filho, que no momento não há como detalhar, em um futuro distante você entenderá tudo. Respondeu Menéas.
  À seguir, ele explicou que o caso de Luizinha era mais complexo, entidades vis que se colocavam ao redor de sua família, esperando o momento de se aproximarem, encontraram a oportunidade quando a menina que se casou com Laercio por amor começou a espezinhar Mariane e Mirla pelo simples fato das duas garotas serem irmãs de Joninho, que segundo ela foi o causador das atribulações sofridas por sua irmã no decorrer da vida, na qualidade de irmã mais velha, se achou no direito de tomar partido, e quanto mais se envolvia mais o ódio invadia seu coração, sua mente, seu espirito, até que sua vibração ficou tão baixa que acabou atraindo energias afins, que por centenas de anos rondavam vários integrantes de sua família, em especial sua mãe e sua irmã Laura, viúva de Joninho.
  Ao ouvir esta explicação, Percilio ficou muito aflito, pois imaginou que o mesmo pudesse estar acontecendo com seu pai. Menéas tranquilizou-o dizendo que Jonas era um médium, intermediário do Grande Deus a muitas vidas, mas nesta, ele tentou de todas as maneiras se esquivar deste dom, que quando não direcionado da maneira correta acaba por roubar a saúde de quem se nega a aceitá-lo e utilizá-lo em prol de auxiliar quem precisa. Por ocasião da partida da Itália, ele teve várias oportunidades de buscar entender mais o que acontecia com ele, mas não o fez, com o tempo a energia estagnada acabou por roubar-lhe a memória e a alegria de viver.

continua na próxima quarta-feira

 

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