Mykonos-56

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   Passados vinte minutos da saída de Maila, Jonas retornou com Mariane, assim que soube do motivo da saída de Maila correu para a caverna de Luizinha para ver como estava o neto. Encontrou o menino agonizando, respirava com dificuldade e com tremores que sacodia todo o seu pequeno corpo. As tias choravam desesperadas. Jonas não pensou duas vezes, pegou o garoto e correu para onde o grupo aguardava por ele e Maila. Esta por sua vez, tomou outro caminho,  sem imaginar em ir beirando o mar, que apesar de ser mais longe, era mais seguro e neste caso fatalmente passaria onde seu filho a aguardava.
   Assim que Jonas alcançou o grupo, gritou para Rafael acudir o garoto. Lucas levou um susto, o pai mal conseguia falar direito. Disse apenas:
    – Lêntulo, corra atrás de sua mãe, ela tomou o caminho do milharal, mas foi pelo caminho mais curto, floresta adentro.
   Ao mesmo tempo que Rafael veio ver Pedro, Lêntulo se levantou para fazer o que o pai tinha pedido, mas foi interpelado por Lucas. Este disse:
   – Eu e Cirilo vamos com você, se bem me lembro este é um caminho muito traiçoeiro, cheio de pedras perigosas e animais selvagens. Jonas disse então:
   – Não, Cirilo fica, caso precise chamar Dr. Alecsander em Semiris, ou melhor, se Rafael não conseguir descobrir o que ele tem, nós o levaremos até o médico, e para isso, precisamos de homens fortes. Vão vocês dois, os outros fiquem aqui.
   Lucas e Lêntulo correram em direção a mata, em busca da mãe. Depois de meia hora de caminhada a encontraram caída em um precipício, estava morta, tinha batido com a cabeça e o sangue ainda jorrava do ferimento. Ao ver a cena horripilante, Lêntulo deu um grito aterrador, tampou os olhos e não parava de gritar. Lucas por sua vez manteve-se mais calmo, precisava acudir a mãe e assegurar-se que tudo estava realmente perdido. Desceu precipício abaixo, enquanto o irmão permanecia em estado de choque, gritava initerruptamente. Assim que se aproximou mais, teve certeza absoluta que não havia mais nada a fazer, ela teve morte instantânea. Lucas se ajoelhou e aconchegou-a nos braços, beijou aquele rosto sereno um pouco mais envelhecido de como ele se  recordava e rezou para que o Grande Deus a recebesse em sua casa. Neste momento, percebeu um clarão ao lado do corpo da mãe, olhou atentamente e viu claramente um senhor idoso com um sorriso nos lábios que lhe disse:
   – Percilio, você agora ficará no lugar de sua mãe, cuidará de seu pai e de Lêntulo, ele precisa muito de você. Traga sua esposa e sua filha para morar na Grande Pedra que logo sua família estará maior.
   Dizendo isso, o clarão desapareceu e Lucas ficou alguns instantes totalmente fora da realidade. Assim que se recobrou, fitou longamente o rosto de Maila e chorou, chorou muito, por quase meia hora, nem percebeu que Lêntulo havia se afastado da beira do precipício e voltava para avisar o pai o que havia acontecido. Correu tanto, que ao encontrar o grupo que ainda estava no mesmo local cuidando para que Pedro melhorasse, conseguia apenas chorar e não dizia nenhuma palavra. Jonas se assustou com o estado do filho, puxou-o pelo braço e pediu que se acalmasse. Rafael deu lhe água fresca e fez massagem em suas têmporas. Todos os trabalhadores fizeram um círculo em volta de Lêntulo, sabendo que algo terrível havia acontecido, aguardando apenas que ele se acalmasse. Pedro, repousava nos braços de Cirilo, o pior já tinha passado, Rafael tinha conseguido estabilizá-lo, com uma mistura de ervas e raízes que sempre carregava junto aos seus pertences.
   Passado algum tempo, Lêntulo, olhou firmemente para o pai e disse:
   – Mamãe está morta, caiu em um precipício, sua cabeça estava toda ensanguentada, Lucas está lá com ela.
    Jonas ficou aturdido, disse apenas:
    – O quê? Você tem certeza do que está dizendo?
  – Sim pai! Respondeu Lêntulo, balançando a cabeça afirmativamente.
   Jonas sabia que tinha que ir até lá, mas suas pernas tremiam e pela primeira vez o líder da Comunidade titubeou, deu alguns passos cambaleando, sentou-se em uma pedra e disse de cabeça baixa:
   – Meu filho jamais se enganaria, pelo visto não há mais o que fazer. Cirilo, Rafael, Laercio, por favor, acompanhem Lêntulo até onde Maila está e tragam seu corpo, quero que tenha um enterro digno. Digam a Lucas, que nem pense em ir embora, preciso dele ao meu lado.
   Dito isto, pegou Pedro dos braços de Cirilo e tomou o rumo da Grande Pedra, acompanhado pelo trabalhadores que caminhavam ao seu lado em silêncio absoluto. Os três amigos, acompanhados do garoto de onze anos, partiram em busca de realizar a missão mais dolorosa desde o dia que Alberto se fora.
   Lucas prosseguia ajoelhado ao lado do corpo da mãe. Quando finalmente conseguiu parar de chorar percebeu que Lêntulo havia ido embora, resolveu aguardar, pois com certeza tinha ido avisar o pai do que havia acontecido. Seu corpo parecia totalmente anestesiado, não sentia dor nos joelhos, nem fome, apenas uma tristeza profunda por não ter tido tempo de abraçar a mãe novamente. Envolvido pelo silêncio da mata, começou a orar para que o Grande Deus acolhesse e guiasse aquela que tinha lhe dado a vida. De repente, ouviu claramente a voz de uma mulher, olhou ao redor, procurando alguém que pudesse ter chegado sem que ele tivesse percebido, mas, nada viu, além de árvores e pedras. Fechou os olhos e a voz doce, parecendo partir de alguém muito jovem, falou:
   – Aimanon, sou eu, Suzana. Você não se recorda de mim, mas nós já fomos muito felizes juntos. Sua mãe, já está sendo cuidada por seu pai Iane, sua mãe Rute e amigos que a receberam com muita alegria. Nesta vida, ela fez tudo que lhe foi pedido pelo Grande Deus, portanto, chegada a hora, foi chamada de volta à casa de nosso Pai.
   Ao ouvir isso, Lucas arregalou os olhos, dizendo:
   – Estou ficando louco, não conheço nenhuma Suzana!
   E a voz respondeu claramente:
  – Não se preocupe em se lembrar, no momento que me pegar nos braços pela primeira vez, sentirá o amor que sempre nos uniu.
   Neste momento, Lucas ouviu um barulho que vinha do alto, mais precisamente da beira do precipício, olhou para cima e viu Cirilo, Rafael e Laercio. Assim que mostrou o local onde Maila caiu, Lêntulo correu de volta para casa, estava apavorado de ter que ver novamente a mãe morta. Os três amigos desceram cuidadosamente e constataram que não havia mais nada o que fazer, a não ser levá-la para casa para ser enterrada. Cirilo deu o recado do pai a Lucas, que concordou, apesar do plano original era voltar para casa no início da tarde, mas Claudius estava ciente de onde ele estava, acalmaria Sara e Mirtes.
   Como saíram correndo, nem pensaram em trazer um lençol para fazer uma rede improvisada para carregar o corpo, sem outra solução, cada um carregou o corpo no ombro, por um trecho. A volta demorou muito, quando chegaram, o sol já se punha e cobria com seus últimos raios a Grande Pedra, que imponente como sempre, os aguardava, mas hoje, especialmente, parecia envolvida de tristeza e lágrimas. Foi exatamente isso que encontraram assim que pisaram na plataforma de areia que se esparramava à frente das cavernas que ficavam no primeiro nível.

continuação…

 

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