Mykonos-57

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  Lucas visualizava aquela cena, como se o tempo houvesse congelado. Em seus ombros, jazia aquela que tanto o amou, os passos firmes, pareciam os mesmos daquele menino que tanto brincou na areia que agora servia de tapete para saudar seu retorno. Não havia mais o titubear e uma única palavra invadiu sua mente: Voltarei! A seguir seus olhos foram invadidos pelas lágrimas que teimaram em escorrer sem que nada pudesse controla-las, pensou:
  – Seja quem for a moça que conversou comigo no fundo do precipício, é certo que minha mãe já está nos braços do Grande Deus, portanto, nada me resta, a não ser cuidar de meu pai e meus irmãos. Voltarei a morar na Grande Pedra.
  Parou, exatamente diante da entrada principal, por onde desembocava a saída de todas as cavernas, lentamente, colocou delicadamente o corpo de Maila no chão. Todos os moradores tinham se recolhido para aguardar a chegada da esposa de Jonas. Assim que foram avisados por Laercio que a missão tinha sido cumprida, todos começaram a sair, um a um, passavam ao lado do corpo, faziam uma breve oração e seguiam. Por fim, Jonas, ladeado por Mirla e Mariane se aproximou, ajoelhou-se e disse em tom de despedida:
  – Minha querida, foram muitas anos de muito amor e dedicação, neste momento, me despeço, pedindo que o Grande Deus a leve para sua Casa, prometo que cuidarei de nossos filhos e de nossos netos, por mim e por você. Vá em paz!
  Dito isto, levantou-se, segurou o braço de Lucas e pediu que ele o acompanhasse. O rapaz  atendeu de pronto. Seguiram para a caverna da família, que naquele momento, estava vazia, todos estavam na parte externa da Grande Pedra, preparando-se para cuidar do velório de Maila. Assim que entrou naquele lugar, tão familiar, Lucas teve a impressão que tinha sido tomado por alguma energia desconhecida que o tornava tão lúcido a ponto de dizer ao pai que daquele dia em diante, ele seria o responsável pelo bem estar da família. Ao ouvir isso, Jonas quase desfaleceu, de tanta emoção. Pensava que seria muito difícil convencer o filho a ficar, ainda mais que agora ele já era casado e tinha sua própria família. Sentados na pequena mesa, pai e filho conversaram como antigamente, Lucas contou detalhes de sua nova vida, falou da filha, da esposa e sua decisão em não trazer a sogra. Jonas o aconselhou a ter calma, prosseguir os planos com tranquilidade e mudar-se quando achasse melhor. Lucas agradeceu a compreensão do pai e disse que não havia mais nada a pensar, ele sentia por se afastar de Claudius e Sara pois os amava como se fossem sua própria família mas jamais deixaria de visitá-los, quanto a Sibele, sentia-se aliviado por afastar-se dela, algo naquela mulher o incomodava muito. Ao final da conversa, Jonas serviu chá e pão, disse:
  – Filho, como a decisão já está tomada e você voltará para casa, gostaria que assim que tudo voltasse ao normal, pudéssemos conversar seriamente em você ser o novo líder da Comunidade.
  Lucas, respondeu de pronto:
  – Papai, o Senhor é insubstituível, portanto não gostaria mais de tocar neste assunto.
  Jonas se surpreendeu com o desprendimento do filho, lembrou-se de imediato da arrogância e da sede de poder de Joninho, o filho que morreu totalmente desiquilibrado, exatamente por conta do poder.
  Terminada a refeição, pai e filho se dirigiram ao pequeno santuário, situado atrás da Grande Pedra, onde o corpo de Maila estava sendo velado. Para aquela família, a morte representava apenas uma passagem, todos acreditavam piamente que a vida continuava em outro plano e que seus entes queridos seriam muito bem acolhidos, e tinham toda razão. Maila já tinha sido conduzida para esferas sutis, esta vida tinha sido de muito crescimento para seu espírito, apesar de não ter vencido o sentimento de exclusão e ódio que sentia por Suzana.
    A alguns meses ela estava sendo preparada para a volta de sua sobrinha, em desdobramento, foi informada que seu filho retornaria ao lar e depois traria ao mundo uma filha que já tinha sido sua esposa em outra vida, Suzana. Ela deveria ser acolhida pela avó e pelo avô, com amor e generosidade. Maila, se recordando do sentimento de raiva e ódio que Croele carregava por Suzana, negou-se terminantemente a recebê-la como neta, foi este o motivo de seu desencarne. Em vista de já ter cumprido grande parte de sua missão nesta encarnação, gerar e amar Lucas, seu sobrinho Aimanon, que casou-se com a mulher que seu filho Minélus queria para si; retribuir a Adelane os cuidados que dispensou a ela quando seus pais Rute e Iane morreram afogados durante uma tempestade enquanto pescavam no Rio Nilo, enfim, venceu o amargor, aproveitou a vida e o casamento com o irmão Nuno, o qual sempre admirou; seu espírito teve lastro suficiente para pairar sobre seu corpo e ser levado por seus pais de Constantinopla.
  Quando Lucas e Jonas chegaram ao local do velório, o corpo de Maila, já estava arrumado, cuidadosamente colocado em cima de um lençol que cobria uma pedra plana que ficava em uma das laterais do local onde a Comunidade se reunia uma vez por semana, para orar e agradecer ao Grande Deus os presentes recebidos do Alto. Mariane e Mirla, prepararam a mãe para a última viagem, banharam-na, pentearam seus cabelos, fizeram um curativo no ferimento, trocaram a roupa ensanguentada e não se esqueceram de envolvê-la com o xale que ela dificilmente se esquecia de usar, colocaram em seus pés as sandálias preferidas – presente de Jonas. As mulheres e as crianças da Comunidade colheram flores silvestres, e com elas, não só adornaram a pedra onde Maila foi colocada, como também as espalharam por todo o local onde o corpo estava sendo velado. Os homens providenciaram tochas para que o houvesse iluminação  durante a noite que já se anunciava ser uma das mais escuras dos últimos dias, a lua minguante mal iluminava o topo da Grande Pedra.
  Todos estavam respeitosamente em silêncio, sentados em bancos de madeira rustica que circundavam o local que em algumas ocasiões era utilizado para reuniões onde se discutiam assuntos de interesse da Comunidade. Mariane e Mirla, percebendo a aproximação do irmão, correram em sua direção, seguidas pelos filhos de Mirla, Amara, Caio e Frederico. Os filhos de Joninho, foram impedidos por Laurinha de se aproximar do tio, para ela, ele foi o causador da morte do marido. As duas irmãs, apesar da tristeza pela perda da mãe, não escondiam a felicidade de rever o irmão, que no fundo sabiam estar vivo e bem.
   E assim, a noite deu lugar a um belíssimo amanhecer, aos primeiros raios do sol, o corpo foi colocado em uma amarra feita com cordas de fibras de bananeira, montada em uma esquadria de madeira com quadro cabos, onde Lucas, Cirilo, Rafael e Laercio apoiaram as mãos para erguer o corpo e transportá-lo até a cova preparada durante à noite por Albertinho, Tales e Artur, marido de Mirla.
  Após uma rápida oração proferida por Josias, irmão de Jonas, a corpo foi colocado na cova, as crianças jogaram as flores que trouxeram. Os três filhos e o marido apanharam pequenas porções de terra que lançaram lentamente para dentro da sepultura, este gesto foi repetido por todos os presentes. Finalmente, o corpo de Maila ficou totalmente coberto pela terra que o protegeria.
  No caminho de volta, Lucas pediu que o pai reunisse os membros da Comunidade, porque ele queria conversar com todos, antes de pegar o caminho de volta para a cabana da floresta. Assim que ouviu o pedido, Jonas parou de caminhar, olhou para trás, pediu que todos parassem e disse:
  – Cumprida a nossa obrigação, a vida continua. Meu filho Lucas quer conversar com todos antes de ir embora, por favor, não se dispersem, se reúnam no santuário para ouvirmos o que ele tem a dizer.

continuação….

 

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