Mykonos-58

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  Neste momento, a voz de uma mulher se destacou, era Laurinha, que com cara de poucos amigos, disse:
  – Não vou perder meu tempo para ouvir o que este assassino tem a dizer.
  Lucas levou um susto, ergueu a cabeça e caminhou em sua direção:
  – O que você disse? Acho que não entendi?
  – É claro que você entendeu, você sumiu de propósito para punir Joninho, ele te amava tanto que acabou enlouquecendo e se matando. A culpa é sua.
  Jonas não conseguiu deixar de intervir:
  – Você está louca Laurinha, meu filho perdeu a memória, por isso não voltou para casa durante todo este tempo e Joninho era um desequilibrado, isso sim!
  Mas, a mulher nem ouviu, se afastou, levando os filhos com ela.
  Lucas fechou os olhos e recapitulou a decisão de voltar, com certeza Laurinha não o deixaria em paz, será que valeria a pena? No momento seguinte, a voz de uma mulher ecoou em seu cérebro e disse:
  – Não há o que fraquejar, Percilio. Você precisa voltar para junto dos seus, só assim, eu também poderei voltar.
 Abriu rapidamente os olhos e viu que todos o observavam estáticos, então decidiu:
  – Bem, não é necessário nos reunirmos, o que tenho a dizer é rápido, não levará mais que dois minutos.
  – A partir de hoje, gostaria que todos me chamassem de Percilio, Lucas, o menino que nasceu aqui e desapareceu aos quatorze anos, não existe mais, Nael, o rapaz que foi adotado desmemoriado por um casal maravilhoso, também não existe mais. Percilio é o que viveu Lucas e o que viveu Nael, portanto, um novo homem que voltará a morar na Grande Pedra.
  Todos ouviam extasiados as palavras firmes e seguras de Percilio, sentiam uma força indescritível emanando de seus lábios. Percilio prosseguiu:
  – Eu já sou casado e tenho uma filha de alguns meses, as duas virão comigo. Gostaria que elas fossem muito bem recebidas, pois são a minha família e nós três juntos caminharemos ao lado de vocês, meus tios, meu pai, meus irmãos, meus sobrinhos, meus amigos queridos. Disse isso pausadamente, olhando demoradamente em cada um dos presentes, seu coração parecia que ia saltar do peito, tal a emoção que sentiu.
   Escondida em uma pedra, Laurinha ouviu tudo, franzindo os olhos de preocupação, seu achaque não surtiu efeito, ele viria mesmo. Desde que soube que Lucas não tinha morrido, ela destilou nele todo o ódio contido em seu coração, achava injusto, ele voltar como se nada tivesse acontecido, para ela, não importava se ele tinha perdido a memória ou não.     Desde aquele dia na plantação, onde Joninho escorraçou o irmão e este fugiu, sua vida virou de cabeça para baixo, ninguém a respeitava mais, até seus pais se voltaram contra ela, quando declarou que não tinha nascido para cuidar de criança chorona. Luizinha, pouco a pouco cortou relações e o máximo que fazia era auxiliar na criação das duas crianças menores Pedro e Pilar. Vivia pelos cantos, como uma trouxa de roupas sujas e agora isto, o irmão que foi o causador de tanta desgraça em sua vida, voltar, do nada! Ao pensar isso, ouviu uma salva de palmas e uma frase em uníssono:
   – Seja bem-vindo Percilio!
   Saiu de repente do esconderijo e gritou:
   – Vou fazer de sua vida e de sua família um inferno!
   Todos se voltaram para Laurinha, Piedade, a filha mais velha, de doze anos falou, antes que alguém tivesse tempo de replicar:
    – Minha mãe tem razão, você matou meu pai!
    A partir daí, foi a maior confusão, Jonas não se conformava da nora ter colocado uma ideia dessas na cabeça da neta tão jovem, mas mesmo assim, pediu calma. Luizinha e Laércio vieram se desculpar com Percilio, enquanto Jeremias e Raquel corriam para cuidar da filha e da neta, que nestas alturas já tinham desaparecido.
    Assim que chegaram a Grande Pedra, Percilio se despediu de todos e partiu. Sua cabeça girava, seu corpo tremia, os passos eram descompassados, mas mesmo assim caminhava com a certeza que voltaria, independente da agressão da cunhada e da sobrinha. No meio da tarde, chegou a cabana, Mirtes o aguardava ansiosa. Claudius havia dito que ele voltaria logo, mas ela estava muito apreensiva com a possibilidade de ele não voltar mais, pois pensou na hipótese da amnésia tê-lo acometido novamente.
   Depois de abraçar a filha e descansar um pouco, Percilio pediu que Mirtes o acompanhasse até a cabana de Claudius, ele precisava conversar com todos, inclusive Sibele, até aquele momento, a jovem não havia perguntado absolutamente nada, pela cara de poucos amigos do marido, decidiu esperar que ele se abrisse, o momento havia chegado. Assim que adentraram a cabana ao lado, perceberam que Claudius e Sara não haviam voltado do dia de trabalho na mata, apenas Sibele se encontrava, ela preparava uma sopa para ser servida no jantar. Percilio tentou recuar, mas a esposa o impediu, dizendo:
    – Minha mãe e eu precisamos conversar com você, vamos aproveitar enquanto meu tio não chega.
    Percilio, visivelmente irritado, completou:
  – Não há nada a dizer sem a presença de meus pais, volto mais tarde!
  Se desvencilhou de Mirtes e saiu, tomando rumo da mata.
  As duas ficaram pasmas, Mirtes comentou que nunca tinha visto Nael tão alterado, Sibele completou:
  – Talvez a visita tenha sido desanimadora, é bem provável que ele tenha desistido de se mudar daqui.
  Mirtes abriu um enorme sorriso, falou:
  – Será mamãe? É o que mais desejo, quem sabe nós duas não precisaremos nos separar. Eu estava mesmo muito receosa de insistir com ele novamente, como combinamos.
  Assim que as duas souberam que Nael tinha ido ao encontro de sua família, sem avisá-las, as duas decidiram que assim que ele voltasse, caso insistisse mesmo em morar na Grande Pedra, tentariam novamente fazê-lo mudar de ideia, pois Sara, tinha se oposto terminantemente em ceder a cabana de Lucas para a cunhada morar, disse que ela deveria voltar a morar com o marido, afinal ela se casou de livre e espontânea vontade e cuidar dele, era sua obrigação, já que agora, Mirtes era uma mulher casada o cenário tinha se modificado, pois o receio de Claudius era que o pai fizesse alguma maldade com a filha. Como Claudius se colocou em defesa da irmã, Sara foi categórica:
   – Então, você fica aqui morando com sua irmã, eu me mudo para a cabana de Nael.
   Este contratempo, colocou uma pá de cal nas pretensões de Sibele de morar sozinha, agora, sem alternativa, a não ser voltar a morar com o marido, pois além de Claudius, tinha apenas duas irmãs que moravam em Creta e mais nenhum parente que pudesse acolhê-la. Naquela época, as mulheres sozinhas tinham muita dificuldade de conseguir sustento, pois os homens diziam que por algum motivo elas foram preteridas pela família, pelos maridos e se fossem solteiras, era ainda pior, sinal que não tinham qualidades para serem escolhidas por um parceiro. No caso de Sibele, o fato de seu marido ainda estar vivo e ainda por cima doente, fazia dela alguém que não tinha cumprido com os deveres do casamento. Sem outra alternativa, mãe e filha, resolveram insistir com Nael, mas a prudência pedia que aguardassem o veredito final, se realmente haveria mudança ou não.

continuação….

 

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