Mykonos-44

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   Desta vez, foi Rafael quem se colocou à frente de Joninho, dizendo:
   – Você é um mentiroso, isto sim! Não precisamos de alguém desta categoria para nos liderar, somos homens livres e não escravos de alguém desiquilibrado e cruel.
   Neste momento, muitos trabalhadores que viram Lucas correndo em direção ao mar, tinham se aproximado e todos ouviram as palavras de Rafael. Antes que Joninho tivesse tempo de raciocinar e pronunciar qualquer coisa, uma ovação geral foi ouvida partindo de todos os presentes:
   – Fora Joninho!
   Agora, Jonas tomou a palavra, dizendo emocionado:
   – Peço perdão a todos vocês, em um momento de angústia para resolver um problema pessoal, eu coloquei a vida de todos a mercê desta liderança equivocada, marcada pela pressão e agora vejo, pela mentira. Joninho derrubou o cesto de algodão e colocou não só a culpa em Lucas como também o surrou sem piedade, por isso meu filho saiu correndo e sabe-se Deus para onde.
   Todos sentiram novamente a energia do cuidado e do amor do velho Jonas, e este, certo de que precisava aproveitar esta oportunidade para consertar a decisão equivocada que havia tomado. Prosseguiu:
   – Quando passei a liderança da comunidade ao meu filho mais velho – não conseguindo ao menos pronunciar seu nome – eu pensei, que alguém mais jovem, trabalhador, inteligente pudesse ser muito mais útil a prosperidade da vida de todas, mas hoje vejo, que me enganei totalmente. Jamais iremos prosperar, liderados por alguém que não pensa no bem-estar de todos. Portanto, baseado na cena que eu presenciei agora e na mentira que o líder atual utilizou para surrar Lucas, proponho que façamos uma reunião hoje à noite para eleger outro líder, e desde já, me coloco a inteira disposição, caso desejem que eu volte a liderar a comunidade da Grande Pedra.
   O que se ouviu a seguir, foi um suspiro de alivio geral e uma salva de palmas que parecia não ter fim. O casal Joninho e Laura ouviu calado as palavras que acabara de sair da boca de Jonas. Pareciam anestesiados, não tinham forças, nem argumentos, para qualquer defesa.
   Jonas completou:
   – Agora voltem ao trabalho, temos ainda meio dia pela frente. Eu vou atrás de Lucas.
   Foi uma busca infrutífera, à noite, Jonas retornou sem uma pista sequer. Sua esperança era que ao chegar, recebesse a notícia que seu filho caçula houvesse voltado para casa, mas não foi o que aconteceu. Maila veio recebê-lo com a aflição estampada na face, assim que se aproximou do marido, disse, com os olhos marejados de lágrimas:
   – Pelo que vejo, não encontrou nosso menino!
   E se pôs a soluçar, até que não aguentando mais de tanta angustia, sentiu seu corpo desfalecer, se não fosse Jonas ampará-la, teria batido com a cabeça nas pedras. Maila só acordou no dia seguinte, mas mesmo assim, se recusava a comer e até mesmo a se levantar. Todos os amigos ficaram condoídos com tanta dor, mas nada podia ser feito, a não ser, aguardar as notícias dos grupos que se revezavam na procura pelo jovem desaparecido.
   Assim que deixou a plantação, correndo em direção ao mar, Lucas não conseguia pensar em mais nada, apenas em fugir para o mais longe possível daquele lugar, nem passou pela sua cabeça que se afastava cada vez mais da Grande Pedra, lá ficando sua mãe e os irmãos que tanto amava. Quando viu o mar, sentiu um grande alivio, sabia que se seguisse em direção ao sol que se punha, chegaria a uma localidade onde seu pai vendia os cereais que produziam, mas que ele ainda não conhecia. E assim fez, caminhou a noite toda até que não aguentando mais o cansaço, deitou sobre uma pedra e adormeceu. Acordou, sentindo o seu rosto queimar sob o sol escaldante, abriu lentamente os olhos e não pode acreditar no que via. Uma grande embarcação surgiu diante de um Lucas atônito, suas velas tremulavam ao sabor do vento norte. O rapaz ficou longos minutos imóvel, parecendo estar hipnotizado por aquela visão surreal, era como se estivesse enxergando um palácio flutuante que levava as pessoas a conhecer o que havia do outro lado da linha do horizonte. Lentamente, ele foi recobrando a noção de onde estava e o que havia acontecido. Se levantou e aproximou-se da embarcação. Em pé, começou a observar o movimento dos estivadores, que atravessavam uma tabua, com uma das extremidades disposta sobre o convés e a outra repousando na areia da praia. Os trabalhadores levavam viveres, metais, fardos de algodão, sacos de grãos, sabão. Depositavam a carga no convés da embarcação e voltavam para buscar mais, em um movimento de vai e vem que parecia não ter fim. Lucas observava tudo com muita atenção, seus olhos pousavam em um estivador, acompanhando-o até que depositasse a carga no local adequado. Isto se repetiu incontáveis vezes, até que os homens deram o trabalho por encerrado, avisaram o Capitão, que deu a ordem para zarparem.
   Mesmo assim, ele prosseguiu atento, viu quando recolheram a âncora e posicionaram as velas para partirem. O vento estava propicio naquela manhã e logo ela se distanciou da costa e parecia que pouco a pouco a linha do horizonte a atraia, fazendo com que fosse devorada e em alguns minutos nada mais podia ser visualizado. No instante que perdeu totalmente o contato visual com a nau, Lucas teve um pressentimento terrível, algo muito ruim lhe aconteceria, caso não tomasse uma decisão imediata. Pensou em voltar para Grande Pedra, pois sabia o caminho, mas com certeza, seu irmão o receberia com quatro pedras na mão e o expulsaria definitivamente. A embarcação poderia ser uma solução, mas ele ficou tão entretido que nem ao menos teve a ideia de pedir que o Capitão o levasse em troca de serviço, e agora, já era tarde demais. Olhou ao redor e visualizou tanta degradação, que se sentiu incomodado, crianças nuas correndo atrás de porcos, mulheres maltrapilhas que mais pareciam zumbis, sem nenhum sinal de civilidade. Homens sentados em toneis sujos, que no passado serviram para acondicionar combustível. Pensou que talvez pudesse pedir ajudar a alguns marinheiros que cruzavam seu caminho, quem sabe outra embarcação estivesse prestes a chegar. Um deles, lhe disse apenas para aguardar, talvez na próxima semana, mas que ele deveria arrumar algum dinheiro, pois, não era comum o Capitão levar ninguém em troca de trabalho. Lucas acabou desistindo desta possibilidade. Fazer o quê? Seu estomago reclamava de tanta fome, desde o dia anterior não ingeria qualquer alimento e já se sentia muito enfraquecido.
   Caminhou a esmo pela localidade desconhecida, tentando não pensar na vontade de se alimentar, quando já não tinha esperança de solucionar sua difícil situação sentou-se ao lado de um depósito de cereais, o mesmo que seu pai negociava o fruto do trabalho da comunidade, mas naquele dia Merriot havia partido para Creta, a fim de negociar a carga da embarcação que acabara de zarpar, caso estivesse em Semiris, e soubesse que Lucas era filho de seu grande amigo, com certeza o ajudaria. Sem outra alternativa, Lucas colocou a cabeça entre os joelhos e chorou até não poder mais. De repente, algo lhe passou pela mente, se levantou em um salto e começou a correr em direção a plantação de trigo que se descortinava atrás do depósito de Merriot.
   Neste mesmo instante, na Grande Pedra, Jonas teve um pressentimento ruim, um grupo havia partido fazia pouco tempo em busca do filho perdido, temeu que voltassem com uma terrível noticia, por isso, sentou-se no pequeno altar construído por Terêncio e pediu ao Grande Deus que seu receio não passasse de imaginação, que o seu filho fosse encontrado são e salvo. Passadas três horas, o grupo voltou com uma das sandálias confeccionada com couro de peixe que Lucas usava no dia que desapareceu. Josias, que fazia parte deste grupo disse pesaroso para seu irmão:
   – Receio te informar que acreditamos que Lucas tenha caído no mar, a sandália estava sobre uma pedra, que durante a maré alta é praticamente tomada pela água, nosso menino, deve ter sido levado por uma grande onda.

continuação…

 

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