Mykonos-45

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   Jonas se sentiu desfalecer, sentou-se no chão e chorou copiosamente, até mesmo Joninho que assistia a cena teve um rompante de consolar o pai, mas não se moveu. Maila chorava nos braços de Mirla. Mariane e Lêntulo estavam tão assustados que não conseguiam pronunciar nenhuma palavra, apenas assistiam a dolorosa cena, pensando que era impossível o irmão estar morto, afinal Lucas era muito esperto e jamais se deixaria levar pelo mar, mas os dois eram os únicos que acreditavam que ainda havia uma esperança. Os dois tios, Josias e Rubens, correram para socorrer a família. Albertinho, ao lado do irmão Tales, chorava initerruptamente.  Os dois dias que se seguiram foram de luto absoluto, ninguém trabalhou na plantação e a determinação de Jonas de convocar uma votação, fez com que Joninho se aquietasse, se recolheu em sua caverna juntamente com sua família e não falou com ninguém durante este período, nem mesmo com seus pais. Ele sentia os olhares acusatórios, culpando-o pela “morte” de Lucas.
   Assim que Jonas se sentiu melhor, aparentemente conformando-se com a perda do filho querido, convocou a escolha do novo líder. Ele estava tão revoltado com Joninho que pediu que ele não comparecesse e mandou-lhe um recado dizendo que se quisesse poderia partir com sua família para onde quisesse; caso permanecesse na Grande Pedra, a partir daquele dia teria que se submeter as determinações do escolhido. Rafael foi a contragosto o portador do recado pois não se sentia à vontade de se colocar diante de Jonas filho tal o seu grau de desagrado perante tantas atitudes intempestivas. Joninho ouviu calado o que Rafael tinha a dizer, não esboçando nenhuma reação, apenas Laura tentou protestar, mas calou-se diante de um marido totalmente derrotado.
   A votação correu dentro dos parâmetros da tranquilidade e da harmonia que reinava tempos atrás, Jonas, como esperado, foi eleito o novo líder da comunidade. A primeira atitude foi liberar as crianças do trabalho em tão tenra idade, disse que lugar de criança é em casa brincando. As mulheres que não desejassem mais trabalhar na plantação, também poderiam se esquivar desta tarefa tão difícil. Disse que os homens davam conta de ganhar o suficiente para dar conforto a todos os membros da comunidade. Maila festejou duplamente as novas determinação, Lêntulo poderia crescer mais um pouco antes de se juntar aos trabalhadores e ela estava liberada de cuidar dos filhos de Mirla, as esposas de Albertinho e  Tales também cuidariam de seus filhos. A única regra imposta por Joninho, que Jonas manteve, foi em relação a limpeza e higiene da área comum e do interior das cavernas, agora que as mulheres teriam mais tempo livre, poderiam deixar a Grande Pedra reluzente como a luz do sol, segundo suas palavras. Ana decidiu prosseguir trabalhando ao lado do marido, na plantação, ela não tinha filhos e desde que Rosana partira não gostava de ficar sozinha em sua caverna. Laura disse que jamais ficaria na Grande Pedra cuidando dos filhos, preferia trabalhar de sol a sol, na lida. Raquel, que já cuidava de três crianças, já que Maila não tinha dado conta das doze crianças, disse que não se importava em prosseguir com a tarefa.
    Aos poucos, a vida voltou ao normal, apenas Joninho, demonstrava sintomas de desiquilíbrio mental, falava sozinho, não trocava de roupa, a ponto de Laura o expulsá-lo de sua caverna. Certo dia, ouviu-se muitos gritos vindos do andar superior, era o casal que brigava pela última vez. Joninho enfurecido, bateu nas crianças, na esposa e saiu sem que ninguém pudesse alcançá-lo, deste então, nunca mais trabalhou, vivia maltrapilho, perambulando pelas redondezas, dizendo que Lucas o perseguia onde quer que fosse. Maila diariamente deixava um prato de comida sobre o altar nos fundos da Grande Pedra, no dia seguinte, o prato amanhecia vazio. Era o filho rebelde que se alimentava para não morrer à mingua, pois ninguém se propôs a lhe estender a mão, nem mesmo Jonas. Passado um certo tempo, ele despareceu definitivamente para nunca mais ser visto.
   O que ocorreu, foi que em um acesso de loucura, se jogou da pedra onde a sandália de Lucas foi encontrada, morrendo afogado. Retornou inúmeros vezes nas próximas encarnações, sempre dentro do seio da família Silva.
   Assim que se embrenhou no trigal, Lucas percebeu que corria sem rumo, mas algo lhe dizia que devia prosseguir até que suas forças o abandonassem. Durante três horas, pulou galhos, caiu em crateras, arranhou-se na mata fechada que se seguiu a plantação. Nestas alturas, ele já não sentia seu corpo, seus pés descalços sangravam, mas sua determinação o levou a vislumbrar ao longe uma pequena habitação construída com folhas de palmeira, grandes galhos e argila. Percebeu que era habitada, pois saia uma fumaça escura de uma abertura no teto da humilde residência. Lucas se aproximou receoso, mas a fome e a vontade de compartilhar sua angústia o fizeram chegar até a porta e com os nós dos dedos, bateu levemente. Esperou um pouco, mas não percebeu nenhum movimento proveniente do interior da casa. Sentou-se no chão, desconsolado, logo após, sentiu que alguém o observava ao longe, virou-se rapidamente e viu uma jovem; alta, cabelos escuros, presos por um rabo de cavalo e um senhor, bem mais velho, parecendo um eremita. Olhou fixamente para as duas pessoas que se aproximavam lentamente, quando estavam perto o suficiente para pedir ajuda, o rapaz balbuciou apenas:
   – Vim em paz, preciso de ajuda!
   Quem primeiro se manifestou foi Claudius, o feiticeiro, como era conhecido em Semiris e em localidades próximas.
   – O que você deseja?
   Lucas se levantou vagarosamente e quando ia responder o que o trazia àquela casa tão isolada, sentiu seus joelhos dobrarem, sua cabeça girar e em seguida uma dor lancinante tomou conta de todo o seu rosto. Ele foi acometido por uma forte tontura, perdeu o equilíbrio e a seguir bateu a testa em uma pedra, imediatamente perdeu os sentidos.
   Claudius e Sara imediatamente socorreram-no, perceberam que se tratava de um jovem trabalhador que as mãos calejadas denunciavam. O colocaram na cama do casal e durante três dias e três noites se revezaram para banhar sua fronte com infusões de ervas preparadas por Claudius. Sara, deixou de acompanhar o marido, que passava os dias na mata, procurando raízes, sementes, minerais e até mesmo insetos para preparar unguentos e chás que eram vendidos no Porto de Semiris e em algumas vilas próximas. Ela não entendia como um jovem saudável como aquele chegara em um estado tão deplorável à sua casa. Imaginou que pudesse ter sido expulso ou mesmo fugido de sua casa. O fato de nunca ter tido um filho, despertou seu lado maternal, ela tinha certeza que o rapaz tinha uma mãe que estava preocupada com seu desaparecimento, por isso, não mediu esforços para cuidar que ficasse bem. Durante a noite, quem cuidava de Lucas, era Claudius. Ele era um bom homem, caridoso e cônscio de suas obrigações como filho do Grande Deus. A solidariedade, o amor pelos mais desfavorecidos, eram virtudes inerentes ao seu espírito.
   Quanto mais o tempo passava, diminuía as esperanças do casal de vê-lo curado, apesar de Sara declarar que só desistiria quando ele parasse de respirar, posição compartilhada pelo marido. Eles não deixavam de alimentá-lo com chás e leite e aguardavam pacientemente que ele retornasse à vida. Na manhã do quarto dia, Lucas abriu os olhos lentamente, observou ao redor e absolutamente nada lhe pareceu familiar, pousou os olhos sobre Sara e disse:
   – Quem é você? Onde estou?
Sara ficou tão emocionada que o abraçou longamente, falou:
   – Menino, você apareceu em nossa casa a quatro dias, quando ia nos dizer quem era e de onde vinha, desmaiou e bateu a cabeça na pedra. Você ficou todo este tempo dormindo. Qual é o seu nome?

continuação….

 

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