Mykonos-46

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   Lucas pareceu não ter entendido a pergunta, sua cabeça parecia estar vazia, nada lhe vinha à mente, nem mesmo seu próprio nome. Apenas lágrimas escorreram por sua face. Sara fez mais algumas perguntas, mas logo percebeu que ele havia perdido totalmente a memória. A família, o trabalho, os amigos, nenhuma lembrança ficou retida.  Quando Claudius chegou, tentou em vão, fazer com que alguma coisa aflorasse do nada. Como Lucas sofria cada vez que tentava se lembrar de algo, Claudius pediu que ele se acalmasse e que na hora certa se lembraria de tudo.
   Assim, Lucas ganhou uma nova família, uma nova história, chamaram-no de Nael. O casal já vivia maritalmente a dez anos e nunca tiveram filhos, receberam o novo integrante da família com todo o amor que poderiam dispor. No fundo, os dois sabiam que o rapaz não tinha batido em sua casa por acaso. Há muitos anos atrás, uma advinha, que apareceu em Semiris de passagem, disse a Sara e Claudius, que o dia que abrissem suas portas para acolher um desconhecido, eles teriam o filho que tanto desejavam. Claudius não deu ouvidos a predição, mas Sara jamais esqueceu, ela sempre pensou que um desconhecido deixaria um recém-nascido à sua porta para que ela criasse como se fosse seu filho. Agora, o casal tinha certeza que a advinha se referia a Lucas, eles nunca pensaram que o filho que receberiam seria um rapaz, talvez com quatorze anos.
   Rapidamente Nael se recuperou da queda e do sofrimento da travessia entre a Grande Pedra e a casa da floresta. Depois de três dias, ele pediu que Claudius e Sara o levassem para mata, queria aprender os mistérios da alquimia, não sabia porque, mas era um assunto que o atraia muito. Claudius era muito paciente, ensinava todos os segredos das misturas dos mais diversos ingredientes que resultariam na fabricação dos remédios mais poderosos. No dia que Claudius o levou para pescar pela primeira vez, teve certeza absoluta que Nael já fora pescador, tal a habilidade de manusear os apetrechos de pesca e principalmente a sensibilidade de saber onde estavam os cardumes de peixes.
   E assim a vida prosseguiu, Lucas se sentia em casa e já não mais se esforçava para se lembrar de seu passado. Todos os dias ele saia com Claudius e Sara em busca de matéria prima para as medicações. Em um destes dias, o velho eremita foi mordido por uma cobra venenosa. Sara, ao ver seu marido, contorcendo em dor, desesperou-se, sem saber o que fazer. Lucas, mantendo a calma, providenciou um torniquete feito com uma tira retirada das vestes de Sara e um forte pedaço de pau, impedindo assim que o veneno subisse em direção ao coração, o que seria fatal. Durante vários dias, cuidou incansavelmente de seu novo pai, até sua recuperação total. Este acontecimento, marcou o seu batismo definitivo no lar que o acolheu.
   Agora Lucas se sentia como Nael, com uma nova história, novas aspirações. Queria se tornar pescador, mas devido a distância que sua casa ficava do mar, tornou-se impossível concretizar sua vontade, e assim, durante o período de restabelecimento de Claudius, aprimorou ainda mais seus conhecimentos de alquimia, ele sentia que estava apenas despertando algo que já trazia consigo, só de olhar para uma raiz, já sabia a que ela se destinava. Isto deixava Sara muito intrigada, a ponto, de perguntar pelas redondezas de Semiris, se algum garoto com conhecimento da utilização de ervas e raízes para fins medicinais havia desaparecido. Sua busca foi em vão, nunca descobriu absolutamente nada do passado de Nael.
   Os anos passaram rapidamente, a vida prosseguia absolutamente tranquila, Lucas agora era um rapaz, alto, feições marcadas pela vida ao ar livre, próximo de completar dezessete anos de idade. Certo dia, Claudius e Sara receberam em sua humilde habitação, Sibele e Mirtes, irmã e sobrinha do dono da casa. As duas supostamente fugiam dos maus tratos que passavam nas mãos de Jairo, o marido que sofria de crises de esquizofrenia, tornando-se repentinamente muito violento. No dia que Claudius soube da situação da irmã convidou-a imediatamente para morar com ele e a família, mesmo contra a vontade de Sara. Nael ficou à parte da situação, ele não se sentia à vontade de interferir na decisão do casal. No final, Claudius determinou:
   – Elas virão morar conosco e ponto final.
   Sara ficou muito magoada, pois temia receber em sua casa, duas pessoas totalmente desconhecidas. Desde que se casou, nunca tinha conhecido nenhum parente do marido e de repente teria que conviver com uma irmã e uma garota de quinze anos que pelo pouco que sabia, desconfiava que herdara a mesma doença do pai.
   Logo após a decisão final ter sido tomada, ou seja imposta,  Claudius e Lucas se dirigiram a Lagos, localidade paupérrima, próxima a Semiris. Mesmo sob os veementes protestos de Jairo, os dois conseguiram levá-las em segurança até a casa da floresta. Assim que chegaram começaram as discordâncias, Sibele trouxera algumas panelas oxidadas que insistia em usar. Sara não admitia que a cunhada interferisse na rotina da casa. Afirmava que tudo que precisava estava a sua disposição e não necessitava de nenhum utensilio trazido por Sibele. Os dias foram passando, a nova família aos poucos se adaptando aos costumes uns dos outros. Sibele tinha, aparentemente, a firmeza e o bom coração do irmão, logo Sara percebeu que não era implicância da cunhada o fato de  querer auxiliá-la nos afazeres da casa e sim boa vontade. A menina Mirtes era um pouco espevitada, mas mesmo assim cativou o coração dos tios e principalmente o de Nael, se tornaram grandes amigos, a pouca diferença de idade fazia com que buscassem sempre os mesmos divertimentos, como por exemplo, correr entre as árvores em busca de grilos para os remédios de Claudius, isto era um trabalho a ser feito mais os dois se divertiam tanto que dava para se ouvir ao longe as gargalhadas dos dois amigos.
   Infelizmente, não demorou muito para Sara ter certeza que Mirtes havia herdado a doença do pai. Certo dia, enquanto Nael e Claudius estavam no Porto de Semiris vendendo os preparados medicinais e Sibele se ocupava com as roupas sujas no pequeno riacho que passava próximo à casa da família, Mirtes, sentada à mesa da cozinha escolhia grãos de bico para a sopa noturna. Sara entrou de repente, pois começava a chover e ela temia que a janela aberta provocasse uma inundação no único cômodo da residência. Assim que abriu a porta, Mirtes levou um susto e começou a gritar desesperadamente, por mais que Sara a acalmasse, nada fazia com que parasse de gritar. Sibele, alertada pelos gritos da filha, correu para dentro de casa e assim que abraçou a menina, esta começou a delirar, dizendo que os espanhóis estavam invadindo a Grécia e que todos seriam mortos. Sara ficou muito assustada, nunca tinha visto alguém ter um surto tão grave por algo tão banal. Assim que o desiquilíbrio passou, não houve tempo de Sara conversar com Sibele a respeito do que tinha acontecido,  pois Nael e Claudius voltaram de Semiris, chegaram com muita fome e queriam jantar.
  Somente depois de dois dias ocorreu uma oportunidade de Sara descobrir o que havia realmente acontecido, neste período, ela pensou bastante e decidiu não comentar nada do ocorrido com seu marido, pois já tinha se afeiçoado a menina e a cunhada e custava a acreditar que algum tipo de loucura pudesse estar acometendo uma garota tão jovem, mas a confirmação veio através das palavras de Sibele:
   – Minha filha herdou a mesma doença do pai.

continuação…. 

 

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