Mykonos-25

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   Quando se aproximaram dos outros, todos faziam perguntas ao mesmo tempo, mas o líder do acampamento acalmou os ânimos, dizendo:
    – Pessoal, agora está tudo bem, Joninho apenas se perdeu. Eu gostaria de propor que nos mudássemos daqui a dois dias, mas antes disso, precisamos resolver com qual caverna cada família ficará, e isso antes de sairmos daqui.
    Todos silenciaram imediatamente, cada um já havia escolhido uma caverna, pois todas eram diferentes, uma mais bem ventilada, outra mais espaçosa, e outra recebendo mais a luz solar, outra de mais fácil acesso. Isto, sem conversarem entre eles. Jonas, temendo que esta decisão causasse muitas controvérsias, prosseguiu dizendo:
    – Meu irmão Rubens me sugeriu que fizéssemos um sorteio e Fernando acha que os mais velhos e com dificuldade de locomoção como é o caso de José, que sofre com dores no joelho deveriam ficar na primeira fileira de cavernas. Alguém tem uma sugestão?
    Joninho, novamente, foi o único que levantou a mão. Jonas olhou para ele, já arrependido do que havia falado, mas agora não podia voltar atrás.
    – Como o meu pai é o líder da comunidade, nossa família deveria ficar com a caverna maior e mais arejada que é a segunda depois que subimos as escadas para o segundo andar.
    Jonas ficou envergonhado com a proposta do menino, mas como ninguém discordou, acabou por achar valida a intervenção, pois era exatamente esta a caverna que ele mais gostou, mas jamais iria impor a sua vontade da maneira que fez o filho.
    O sorteio transcorreu normalmente, todos ficaram aparentemente satisfeitos com sua “sorte”, apenas Terêncio se preocupou ao ficar com uma caverna no terceiro pavimento, pois o reumatismo ultimamente o castigava noite e dia. Tânia ficou felicíssima, pois ninguém passaria na sua “porta” pois seu orifício era o último em sentido oposto a escada que dava acesso ao pavimento, teria privacidade para receber quem desejasse, apenas Terêncio era uma pedra no seu caminho. Ultimamente ela estava percebendo que o marido estava andando com uma certa dificuldade, perdera a agilidade de outros tempos. Inicialmente pensava que só poderia ser a velhice, mas comparando com outros membros da comunidade que tinham a mesma idade, ela começou a achar que logo ficaria viúva. Só de pensar nisso, seu coração disparava de tanta alegria.
    Os dois dias passaram rapidamente, na manhã do terceiro dia, todos estavam prontos para começarem a caminhar em direção ao novo lar. Por volta do meio do dia chegaram ao destino. Cada um se dirigiu a caverna previamente estabelecida, Maila passou muito mal durante a viagem, deixando a todos muito apreensivos com a sorte do novo bebê. Ela mal teve forças para ajeitar os poucos pertences que tinham, deitou-se em uma esteira e começou a delirar, assolada por uma febre de quarenta graus.
    Jonas correu para chamar Rafael que se ocupava com a esposa da arrumação de sua nova casa, justamente um orifício antes do de Tânia e Terêncio. Ao saber da situação alarmante de Maila, ele separou diversas ervas, pediu para Ana ir até o riacho buscar água fresca para banhar a fronte da esposa de Jonas e se dirigiu a caverna do líder. Tânia percebeu a movimentação na caverna ao lado e falou para o marido:
    – Nem bem mudamos e já tem gente doente. Acho que é Maila, pois ela estava um trapo durante o trajeto.
    Terêncio, como sempre, pediu que ela moderasse seu linguajar em respeito a situação da amiga. Tânia, com pouco caso, falou:
    – Estou pouco me lixando se ela está doente ou não. O que eu acho é que ela devia agradecer de joelhos em poder contar com os préstimos de Rafael.
    Desta vez, Terêncio não silenciou. Disse zangado:
    – Você ainda não percebeu que todos já estão falando que você sente algo mais por Rafael? Não se esqueça que ele é casado e você também, pelo menos por enquanto, pois o que mais desejo é me ver livre de você.
    Esta era a oportunidade que Tânia esperava, sem dizer nada, saiu, e foi direto à casa de Fernando, que pelo sorteio, havia ficado na linha da areia. Ele estava arrumando um local onde pudesse repousar, apesar da caverna ser muito espaçosa e acomodar tranquilamente três pessoas. Tânia foi direto ao assunto:
    – Fernando, eu não sei se você percebeu, mas Terêncio está sofrendo de algum mal que logo lhe ceifará a vida.
    O rapaz olhou para ela sem entender o que ela dizia, mas falou:
    – Não, eu não percebi, o que sei é que ele sofre de dores nas pernas. E isto, eu também tenho, estava até arrumando um local para descansar um pouco, pois as dores estão me matando.
    O intuito de Tânia era dizer que o marido precisava de um local de fácil acesso para os últimos dias de sua vida e iria pedir para Fernando que o acolhesse na caverna que lhe coube por sorteio. Ela ficou confusa com a resposta de Fernando, e sem ter como argumentar. Saiu sem maiores comentários. Enquanto voltava para sua caverna, pensava:
    – Preciso me livrar deste velho, mas como?
    De repente, teve uma brilhante ideia. Voltou para a caverna de Fernando. Disse:
    – Fernando, eu me expressei mal, o que Terêncio tem é mesmo dores nas pernas, assim como você, mas ele não foi premiado com uma caverna tão bem localizada, por isso gostaria de pedir que você o acolhesse aqui até ele melhorar.
    O rapaz, já alertado por Josias, que Tânia estava tentando seduzir Rafael e imbuído das melhores intenções, disse:
    – Tânia, outro dia conversei com Terêncio, e ele me disse que gostaria de ficar em uma caverna no ultimo pavimento, pois assim exercitaria as pernas e quem sabe melhoraria, eu acho que ele tem razão, por isso, vou propor para Ana e Rafael trocarem de caverna comigo, pois esta é muito mais espaçosa que a que eles foram premiados e assim farei como seu marido, exercitarei minhas pernas.
    Pressentindo que Fernando estava participando de um complô para afastá-la de Rafael, virou pelos calcanhares e saiu, sem pronunciar uma única palavra. No caminho de volta para sua caverna, encontrou Ana que voltava com a água para banhar a fronte de Maila, propositalmente, esbarrou em seus braços e fez com que ela derrubasse a vasilha que carregava. Ana deu um grito de reprovação, pois percebeu que havia sido de propósito. Com o barulho, todos que estavam nas cavernas próximas se aproximaram das duas, que nesta altura já estavam brigando fisicamente, uma agarrando o cabelo da outra.
    Jonas pediu que parassem com aquela demonstração de falta de respeito uma com a outra e que estavam dando um péssimo exemplo para o resto da comunidade, em especial as crianças. As duas ouviram as palavras do líder e pararam de brigar, mas mesmo assim, Tânia ainda tentou dar um chute nas costas de Ana, que se afastava. Jonas a repreendeu severamente e ordenou-lhe que se recolhesse à sua caverna pois ele iria se reunir com outros membros da comunidade e decidir qual a punição seria dada a ela. Quando disse isso, Tânia gritou, expelindo todo seu ódio por Ana:
    – Como assim? Uma punição só para mim? Foi ela que me provocou, e como sempre vocês protegem a coitadinha que se faz de boazinha mais é uma víbora.

continuação…

 

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