Mykonos-24

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    Era a primeira vez que Maila havia visto o marido defender o filho tão prontamente. A seguir, deitou-se ao lado da filha e esperou que ela pegasse no sonho. Foram aproximadamente quinze minutos em que ela tentava afastar a indecisão de contar ou não para o marido o resto da história, quando viu que Mirla dormia profundamente, abriu os olhos e viu que Jonas permanecia sentado no mesmo lugar aguardando que ela prosseguisse. Naquele momento ela decidiu: contaria tudo para ele, afinal, eles eram um casal e Joninho era filho dos dois, apesar dela sempre afirmar o contrário, mas agora, não poderia carregar esta responsabilidade sozinha. Maila se levantou lentamente para não acordar a menina novamente, sentou-se ao lado do marido e contou o que Joninho pretendia fazer com a faca.
    Jonas ficou atônito. No primeiro momento, lembrou-se das palavras do Senhor de cabelos grisalhos no sonho que já até havia esquecido. Olhou para Maila, e falou, vencido pelo desânimo:
    – Onde foi que eu errei com este menino?
    Maila ficou muito condoída com a postura do marido, afinal, naquele momento, aquele pai autoritário e às vezes até cruel, havia cedido lugar ao homem reflexivo que buscava explicação para aquele comportamento tão absurdo do filho. Os dois se abraçaram pela primeira vez desde que a nova gravidez fora anunciada. Jonas deu um beijo no rosto da esposa e disse:
    – Meu amor, precisamos nos unir para tentar salvar este menino. Você precisa parar de protegê-lo tanto e eu preciso tratá-lo com mais carinho.
    Maila começou a chorar copiosamente, ela sentiu que o homem com quem havia se casado por amor, estava de volta. Jonas também ficou muito emocionado, os dois estavam precisando de um motivo para colocar um fim a tantos desentendimentos. Assim que as pazes e o pacto de salvar Joninho foi selado, Jonas disse:
    – Amanhã bem cedo, eu vou conversar com Joninho, de homem para homem, vou dizer que você me contou tudo e pedirei que ele me diga no que eu poderia melhorar para que ele esqueça esta história de querer me matar.
    Maila concordou feliz e os dois foram dormir abraçadas como faziam no início do casamento. Na manhã seguinte, assim que acordou, Jonas foi procurar o filho, mais por mais que procurasse não o encontrou. Perguntou para cada um que cruzava com ele no acampamento e nada do menino, até que Elias, filho mais velho de primo José, que também gostava de dormir ao relento, disse:
    – Eu vi Joninho ontem à noite tomando a direção de Vila Cantar, pensei que ele estava com falta de sono e depois de caminhar um pouco voltaria, mas parece que não voltou.
    Josias sugeriu que todos se mobilizassem para procurá-lo pois devia estar se sentindo excluído, pois ninguém deu ouvidos à sua opinião. Apenas Jonas e Maila sabiam o verdadeiro motivo, com certeza, temendo que a mãe contasse para o pai o que ele pretendia fazer, resolveu fugir. Jonas disse que tomaria o rumo de Vila Cantar e que os outros poderiam ficar tranquilos que ele o encontraria. E foi o que aconteceu, depois de uma caminhada de aproximadamente uma hora, Jonas ouviu uns gemidos e viu Joninho caído em uma vala entre duas imensas pedras. Jogou uma corda que havia trazido, caso precisasse, e resgatou o filho são e salvo. Assim que se sentiu seguro, Jonas filho olhou para o pai e antes que este dissesse alguma coisa lhe pediu perdão, mas não disse porque, pois se ele já soubesse do que havia falado para mãe, pensaria duas vezes antes de castigá-lo e se não soubesse, pensaria que o pedido se referia ao fato dele ter fugido durante a noite.
    Jonas pediu que ele se sentasse pois precisavam conversar, assim que os dois se acomodaram, o pai em tom enigmático falou:
    – Filho, preciso te fazer uma pergunta antes de te desculpar.
    – Porque você quer me matar?
    Joninho ficou paralisado com esta pergunta tão direta, ameaçou chorar, mas resolveu encarar as consequências do que havia falado:
    – Pai, eu disse aquilo em um momento de raiva, pois eu não quero me mudar para aquelas cavernas.
    – E posso saber por quê? E não me venha com aquela conversa que o mar poderá voltar a invadi-las,  pois isto é uma desculpa esfarrapada.
    Se sentindo sem saída, o menino respondeu:
    – Eu não quero ir porque você me trata muito mal e aqui posso ficar bem longe de você.
    Era exatamente isto que Jonas suspeitava, mas mesmo assim insistiu:
    – Só isso não seria motivo para você querer me matar. Quero saber de todos os motivos.
    Joninho suspirou fundo e prosseguiu:
    – Quando peguei a faca que você derrubou quando viemos de Vila Cantar eu pensei em te devolver, mas quando chegamos aqui e você começou a me proibir de tudo, inclusive de acompanhar os mais velhos na lida, pensei se um dia fugisse sozinho, precisaria dela para me defender dos animais selvagens, por isso guardei.
    – Bem, é uma boa explicação. Disse Jonas.
    – Mas quando você começou a pensar em usá-la para me matar.
    Desta vez, o menino não fingia, começou a chorar copiosamente e soluçando respondeu:
    – No dia que não quis que eu fosse com vocês procurar compradores para o algodão excedente.
    Jonas respondeu em tom paternal:
    – Mas filho, você é uma criança, não aguentaria carregar fardos tão pesados.
    – Vocês poderiam fazer um menor para mim, eu já sou forte o suficiente para me tratarem com um adulto e não aguento mais ficar cuidando das crianças menores, eu detesto todas elas, menos Mirla.
    Neste momento, Jonas abraçou o filho apertadamente e sentiu o amor fluir por todo o seu corpo. Em seguir, falou:
    – Joninho, a partir de hoje, te considero um homem pronto para me acompanhar em todas as tarefas, inclusive na escolha da caverna que iremos ocupar, não tomarei mais nenhuma decisão sem perguntar sua opinião.
    O menino deu pulos de alegria quando ouviu o pai dizer tudo o que ele desejava. Os dois voltaram para o acampamento caminhando lado a lado e conversando como velhos amigos. Jonas se sentia aliviado por estar tirando um peso das costas e também por ter impedido que Josias e Rubens viessem com ele, pois esta conversa deveria acontecer bem distante do ouvido de todos no acampamento, mesmo porque, poderia ocasionar muita inveja por parte dos meninos mais velhos que Joninho e que ainda eram tratados sem muita consideração pelos adultos. Jonas pediu que ele não comentasse absolutamente nada do que combinaram, isto seria um segredo entre eles. Assim que chegaram, encontraram todos muito preocupados e apreensivos, Maila correu para encontrá-los e disse ao abraçar o filho:
    – Porque você fez isso meu filho, conversei com seu pai e tudo ia se ajeitar.
    Com ar de cumplicidade, o menino olhou para o pai e respondeu para a mãe:
    – Não se preocupe mamãe, eu e papai conversamos de homem para homem, e resolvemos tudo.
    Jonas completou:
    – É isso mesmo Maila, agora vamos arrumar nossas coisas que vou sugerir de nos mudarmos daqui a dois dias.

continuação… 

 

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