Mykonos-23

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    Jonas fez que não viu a postura dos dois, dizendo já em tom de comemoração:
    – Como a maioria votou a favor. Está decidido. Amanhã começaremos os preparativos para a mudança.
    Maila contrariadíssima, disse:
    – Se meu filho não quer ir, ficarei aqui com ele.
    Desta vez Jonas começou a perder a paciência, olhou para Maila com ar de profunda reprovação.
    – Maila, você está esperando nosso filho e irá conosco, nem que for amarrada. Se Joninho não quiser ir, que fique sozinho. Tenho dito e não se fala mais nisso.
    Maila correu para a cabana aos prantos, Mirla começou a gritar, pressentindo o sofrimento da mãe. Jonas pegou a filha nos braços e falou calmamente:
    – Fique tranquila, mamãe logo ficará bem, ela só está com medo de morar na nossa nova casa.
    Neste momento, Joninho se postou diante do pai e disse:
    – Vocês vão se arrepender muito de ir para aquele lugar, se foi a água do mar que fez aquelas cavernas é claro que logo ela voltará a tomá-las.
    Todos ficaram apreensivos com as palavras do menino, ninguém havia pensado nisso. Jonas acalmou os ânimos dizendo:
    – Joninho esta blefando, ele quer continuar aqui para ficar longe dos meus olhos, como acontece atualmente. Prosseguiu.
    – Jamais a água do mar voltará a tomá-las porque ela está muito distante, é impossível que se aproxime novamente, isto só aconteceu quando o Grande Deus criou este mundo. Amanhã começaremos os preparativos para a mudança e ponto final, não se fala mais nisso.
    Olhou firmemente para menino, ainda com Mirla nos braços. Joninho abaixou a cabeça e foi ter com a mãe, que chorava abraçada a uma manta surrada. Ele falou em tom suave:
    – Mamãe não se preocupe, papai tem razão, nós dois não podemos ficar aqui sozinhos. Mesmo ele não se importando comigo, eu vou com vocês.
    Maila se virou para o filho e o abraçou. Seria o último abraço antes da esposa de Jonas começar a desconfiar que o menino tinha alguma coisa em seu íntimo que o levava a se sentir superior a qualquer pessoa que cruzasse seu caminho, inclusive ela mesmo. Do lado de fora, todos comemoravam, os noivos dançavam no centro do acampamento acompanhados dos mais jovens e das crianças. Jonas sentou-se pensativo em um tronco de árvore:
    – Grande Deus, porque será que não consigo ter paciência com este menino? Tenho tentado melhorar meu comportamento, mas ele me tira do sério. Onde já seu viu, falar uma coisa daquelas. Todos ficaram com medo. Ainda bem que pensei rápido porque senão ele poria tudo a perder. Se Alberto afirmou que aquele seria o nosso novo lar é porque é para lá que temos que ir. Neste momento, Albertinho se sentou ao lado tio e disse:
    – Tio, eu andei pensando bastante. Porque será que eu consigo falar com papai e saber de coisas que ainda ninguém sabe?
    Jonas, entendendo a angustia do sobrinho, respondeu:
    – Filho, eu também não sei, mas o que posso afirmar com certeza é que você não está ficando louco e que também tem algum tipo de dom que os outros não tem, mas fique tranquilo, se não contar nada para ninguém você poderá ajudar muitas pessoas que não conseguem saber o que você consegue.
    O menino ficou pensando por alguns instantes e prosseguiu:
    – Tio, eu fico muito triste quando você briga com Joninho, porque será? Se ele sempre briga comigo e diz que eu sou lerdo e irritante.
    Jonas pensou um pouco porque ficou surpreso com a pergunta, afinal os dois são crianças, seria natural que Albertinho não se importasse com o jeito que ele trata o primo que vive falando inverdades sobre ele. Depois de um longo silencio, Jonas completou:
    – Filho, é porque você é um bom menino e quando Joninho crescer vai te pedir perdão pelo modo como ele age com você.
    E assim, o tempo passou rápido, quando a noite caiu, todos se recolheram, menos Joninho, que na grande maioria das noites dormia ao relento, deitado em uma esteira, ao lado da pedra onde Albertinho viu seu pai depois de morte. Aquela noite se anunciava muito fria e Maila saiu da cabana para cobrir o filho com uma manta. Ao se aproximar, viu que ele segurava um objeto de metal que refletia a luz do luar.
    – O que é isso Joninho? Perguntou Maila curiosa.
    Como foi pego de surpreso, não teve tempo de esconder a faca afiada que segurava. Ele retrucou com a mãe, dizendo:
    – Você está sempre andando atrás de mim, será que poderia me deixar em paz pelo menos por esta noite?
    Maila percebeu que ele desviou o assunto para ter tempo de esconder a faca. Ela disse:
    – Eu vi muito bem que isto é uma faca. Porque você carrega uma coisa dessas?
    Ele olhou para ela com ódio dizendo:
    – Mãe, um dia vou matar meu pai e vai ser com ela.
    Maila se arrepiou da cabeça aos pés, em uma fração de segundos passou pela sua cabeça todas as vezes que Jonas havia lhe dito que o filho era maldoso e vingativo. Mas mesmo assim teve lucidez de avançar sobre ele e lhe tirar a faca das mãos.
    Joninho ficou possesso, disse que ela não tinha o direito de fazer isso, que a faca tinha sido presente do avô Messias e que ele tinha trazido como recordação. Maila virou as costas e rumou para a cabana com a faca embaixo do xale, ao entrar, Jonas perguntou o que havia ido fazer lá fora. Ela sentou-se ao lado do marido e falou:
    – Preciso te mostrar uma coisa. Pegou a faca e colocou-a sobre a mesa.
    Jonas ficou surpreso e perguntou:
    – Aonde você achou isto? Esta faca desapareceu quando caminhávamos de Vila Cantar para cá, pensei que tivesse perdido, por isso nunca toquei no assunto.
    – Ela estava nas mãos de Joninho. Eu saí para levar uma manta para ele, pois esta noite será muito fria, quando me aproximei vi o brilho do metal e mesmo tentando, não conseguiu esconder de mim.
    – Mas o que ele fazia com ela? Perguntou Jonas curioso.
    – Ele me disse que foi um presente de seu pai e que ele trouxe como recordação.
    Jonas deu um salto da cama, e gritou tão alto que Mirla acordou:
    – Mentiroso, mil vezes mentiroso! Esta faca, eu comprei antes de nossa partida, assim que tomamos a decisão de embarcar, fui até o armazém da vila comprar alguns viveres que precisaríamos e comprei esta faca, juntamente com a foice que usamos até hoje.
    Mirla choramingou assustada e perguntou:
    – Quem é mentiroso?
    Maila abraçou a filha, falou:
    – Ninguém, meu amor. Acho que você sonhou.
    A menina olhou para o pai dizendo:
    – Foi você que falou, e eu sei que vocês estão falando de Joninho, porque ele é mentiroso mesmo. Outro dia ele derrubou Raulzinho e disse para Tia Nair que havia sido Albertinho, mas eu estava brincando com Eza e nós vimos que foi ele.
    – Maila, depois conversamos, falou Jonas autoritário, pois ele sabia que ainda havia mais coisas que a esposa queria falar, mas precisavam esperar Mirla dormir.
    – E você, menina do papai, vá dormir e esqueça esta história, seu irmão às vezes inventa umas mentirinhas, mas não é por mal é porque ele ainda é muito criança.

continuação….

 

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