Mykonos-11

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    Jonas filho correu em direção ao pai e de uma só vez contou todo o ocorrido, diante de tios, primos e amigos totalmente estupefatos com a narrativa. Depois que Jonas contou a história da bússola, todos acreditavam que o sócio logo desistiria de encontrá-los e voltaria para Vila Cantar e de lá para Creta. Ninguém jamais imaginou que algo tão triste pudesse ocorrer. Jonas filho pesou as palavras quando disse que ele o enterrou sozinho. Arturzinho interveio dizendo que Mario estava de bruços e ninguém quis jogar terra sobre ele porque temiam que ele voltasse para assombrá-los, o que fatalmente ocorreria com Joninho.
    Ao ouvir isso, Jonas filho, apesar da pouca idade, se colocou na defensiva, dizendo:
    – Vocês são uns bananas! Morto está morto, ele jamais voltará para fazer o quer que seja.
    Jonas tentou abrandar a discussão, dizendo que todos tinham razão, mas que seu filho deveria respeitar mais os mortos, pois eles voltam sim a se encontrar com os vivos, mas isto não quer dizer que eles voltam para assombrar, muitas vezes é para auxiliar ou dar conselhos. Jonas filho ficou aborrecidíssimo com o posicionamento do pai, disse para todos:
    – Meu pai está ficando louco, desde o dia que bateu a cabeça antes de nossa partida ele não fala coisa com coisa.
    Jonas, segurou a camisa de Joninho e gritou com fúria:
    – Moleque, você me respeita. Acho que está precisando de um corretivo.
    – Por quê? Porque eu disse a verdade. Você vive dizendo que vovô conversa com você e até conta coisas que ainda não aconteceram. Isto é ou não é loucura?
    – Filho, não meta seu avô nesta história. Ele é sagrado e sempre nos ajuda sim!
    – Se não fosse ele, nós teríamos sido mortos pelos bárbaros invasores. Foi ele que nos guiou até a embarcação naquela manhã que partimos e abandonamos nossas terras.
    – Como assim? Perguntou Alberto curioso. Apesar que todos queriam fazer a mesma pergunta.
    – Assim que fechamos nossa casa e nos colocamos a caminho do portinho, seu avô me disse que os bárbaros estavam próximos e que não deveríamos fazer nenhum ruído. Por isso eu pedi para que todos caminhassem em silêncio, orando mentalmente, em respeito à terra que nos acolheu durante tantos anos.
    – Assim que o navio levantou âncora, eu vi os bárbaros postados ao longo da costa.
    – Eu também vi, disse Alberto. Pensei que eram os amigos que ficaram e vieram se despedir da gente.
    Jonas, fechou os olhos, respirou fundo, exclamou:
    – Graças ao seu avô Joninho, nós estamos aqui, vivos, prestes a realizar o sonho de conseguir com nosso trabalho alimentar nossa família.
    –  Portanto, jamais repita que estou ficando louco, pois você só está aqui vendendo saúde por obra de um morto, que sempre nos auxilia.
    Jonas filho, abaixou a cabeça e disse em um fio de voz:
    – Perdão papai, jamais repetirei o que disse, apesar de não compreender exatamente como pode ser isso.
    Maila, como sempre, correu para consolar o filho, dizendo:
    – Joninho, você foi muito valente, enterrando Mario sozinho! Todos devem te dizer obrigado.
    Mas ninguém se moveu, nem ao menos pronunciou uma única palavra. A arrogância do menino era costumas e o episódio provou mais uma vez que ele não se dava por vencido, pois a seguir disse:
    – Não se preocupe mamãe, eu sei que ninguém gosta de mim, só você. Isto já me basta.
    Jonas, olhou para Maila com ar de reprovação, ele creditava à esposa a rebeldia do filho, mas não tomava a frente na sua educação, pois algo lhe causava repulsa na postura do garoto e ele tentava ficar o mais distante possível dele. Ao contrário de Mirla, que lhe trazia paz e equilíbrio. A menina adorava ficar ao lado do pai, segurar sua mão, ouvir seu coração bater.
    Quando finalmente toda a preleção sobre a morte e o sepultamento de Mario se encerrou, todos se recolheram para a refeição da noite, prometendo se reunirem a seguir para conversarem sobre o destino do grupo, já que não havia mais um sócio.
    Após duas horas, Jonas convocou a todos para uma conversa definitiva. Se reuniram ao redor da fogueira, que era acesa toda noite para se protegerem do frio cortante e espantar os animais selvagens, que realmente existiam naqueles campos verdejantes. Jonas iniciou a preleção, dizendo:
    – Amigos, estamos em uma situação absolutamente inédita. Até ontem, pensávamos que poderíamos vir a contar com o auxílio dos equipamentos que Mario nos traria. Hoje, sabemos que eles não virão. O que faremos agora? Considerando que a exploração desta manhã não nos rendeu absolutamente nada, há não ser termos encontrado uma cabana vazia.
    Rafael, foi o primeiro a falar. Ele era jovem, havia estudado além do que a grande maioria do grupo, e era considerado muito ponderado e justo. Sua palavra era sempre recebida de bom grado e causava muitas reflexões.
    – Amigos, como disse Jonas, precisamos urgentemente de uma saída, a não ser que queiramos nos mudar para beira do mar e viver da pesca, que na verdade não é nossa especialidade.
    –  Então, o que você sugere? Perguntou Atílio.
    – Eu estava pensando que poderíamos formar um pequeno grupo de uns seis homens e ir até a Vila Cantar buscar os equipamentos que Mario comprou. Ninguém sabe de sua morte e nós não precisamos dizer, pois sabemos que ele era sozinho, não tinha herdeiros, portanto, não estaremos cometendo nenhuma injuria. Na Vila, todos sabem que somos sócios e ninguém estranhará quando dissermos que viemos buscar os equipamentos, pois o fato de ele ter vindo sozinho, quer dizer que ninguém quis acompanhá-lo.
    Jonas pensou um pouco e respondeu:
    – Está bem, eu concordo, afinal, nós trabalhamos duro durante todo este mês e merecemos tomar posse dos equipamentos. Mas em hipótese alguma deveremos contar que ele está morto, pois eles podem até pensar que nós o matamos, diremos apenas que queremos os equipamentos porque Mario não pode transportá-los sozinho.
    Colocaram a ideia em votação, e todos concordaram. Apenas Jonas filho se manifestou, dizendo:
    – Quero ir com vocês!
    Jonas, novamente o repreendeu dizendo:
    – Você não ouviu Rafael dizendo que deverão ser seis homens. Você é uma criança intrometida.
    Jonas filho se calou imediatamente. Maila, como sempre, veio em seu auxilio.
    – Por favor Jonas, deixa ele ir. Afinal ele enterrou Mario sozinho.
    Jonas contrariadíssimo, exclamou:
    – Maila, por favor, se recolha e pare de defender Joninho, ele é assim – insuportável – por sua causa.
    Ele não queria ser tão crítico na frente de todos, mas aquilo tinha sido a gota d’agua. Maila não perdia oportunidade de defender o filho, fato que no futuro se arrependeria amargamente. Ela se dirigiu a uma das cabanas improvisadas aos prantos, se sentindo magoada por ter sido contestada diante da família e dos amigos. Jonas filho foi atrás da mãe, e naquela noite, os dois dormiram abraçados como que fazendo um pacto de auxilio mutuo. Pacto este que apenas Maila honraria.

continuação…

 

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