Mykonos-10

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    Neste momento, Rafael pediu a palavra dizendo:
    – Eu louvo a Deus por ele nos ter reservado um líder tão justo e fiel.
    Todos aplaudiram novamente, principalmente as crianças que gritavam vivas e batiam palmas, no fundo elas sabiam que o futuro lhes reservaria muitas surpresas boas.
    No dia seguinte, Jonas levantou muito cedo. Estava apreensivo com a chegada de Mario que talvez tivesse consertado a bússola. Se isto tivesse acontecido ele estava prestes a chegar, mas mesmo assim, ele convocou todos os homens para que com ele fossem procurar sinais das cabanas abandonadas pelos nativos desgarrados.
    As mulheres e as crianças ficaram aguardando o sócio preguiçoso. Foram instruídas de que caso ele chegasse diriam que os homens estavam procurando equipamentos abandonados pois tudo que podiam fazer com as próprias mãos tinham feito e como ele estava demorando tiraram o dia para encontrar algo que fosse útil e que voltariam no final do dia. Como todos os dias Maila e Ana foram incumbidas de preparar a refeição do meio dia, que consistia de uma parca ração de sementes que trouxeram da Vila Cantar e algumas frutas que as crianças colhiam nas redondezas. Há dois meses não comiam um pedaço de carne, nem haviam animais para fornecer leite. Josias e Rafael se aventuraram algumas vezes no meio da mata fechada em busca de caçar algum animal, mas como não tinham nem mesmo uma flecha, logo desistiram, pois só com as mãos era muito difícil ter algum sucesso.
    Próximo dali, mas totalmente sem rumo, Mario caminhava sozinho, pois nenhum morador da Vila quis acompanhá-lo depois do episódio com Hipólito. Na Vila todos eram muito unidos e o que se fazia para um morador atingia a todos. Eles agiam nos extremos – ou eram totalmente agradecidos e gentis como com Dr. Alecsander que nunca os decepcionou; ou eram rudes e cruéis com todos aqueles que ousavam se aproveitar da boa fé de algum deles. Assim que Jonas e seu grupo partiu, Mario se viu totalmente sozinho, ninguém o cumprimentava, muito menos o auxiliavam como costumavam fazer assim que ele chegou. As mulheres se negavam a lavar suas roupas e até a cabana que era emprestada foi confiscada. Ele se arrependeu amargamente do seu comportamento deplorável. Hipólito assistia a tudo calado e pensava:
    – Ainda bem que contei tudo a Jonas, agora eles estão livres deste mercenário. Duvido que ele consiga encontrá-los sem nossa ajuda e com esta bússola totalmente desregulada.
    Mario por sua vez jamais desistiu de ir ao encontro de seus sócios, mas sem auxilio, não poderia levar nenhum equipamento. Ele se enganava achando que iria encontrá-los e como afinal havia fornecido as sementes, prosseguia no direito de receber vinte por cento de toda a produção. Ele caminhou sem rumo por quase três dias e nada de achar o caminho que o levaria aos tão sonhados campos férteis. Ao final do terceiro dia, ele já apresentava sinais de desidratação, sua boca estava seca, sua vista embaçada. Começou a temer por sua vida, pois também não sabia como voltar à Vila Cantar. Desanimado, sentou-se em uma pedra e começou a rezar:
    – Grande Deus, que mal há de querer enriquecer? Acho que nenhum, portanto me ajude a encontrar Jonas e seu grupo. Eu trabalhei duro para comprar as sementes que eles levaram, por isso eu mereço receber pelo trabalho que eles vierem a ter para fazê-las germinar.
    Neste momento, ele ergueu os olhos e viu o sol se pondo no horizonte, teria que passar mais uma noite ao relento e isto o fazia tremer de tanto receio dos animais selvagens que sabidamente existia naquela ilha. Prosseguiu pedindo auxilio ao Grande Deus.
    – O Senhor não acha que é muito sofrimento para um servo tão fiel ficar assim perdido, sem ao menos um sinal de onde estão meus amigos?
    Mario insistia em se fazer de vítima, por isso, suas orações não chegavam ao seu destino. Aquela noite foi terrível, começou a garoar lá pelas sete horas da noite, mas de madrugada caiu um temporal que há anos não atingia a ilha. Choveu à cântaros por três horas seguidas. Mario se protegia como podia, mas ao amanhecer estava tão febril que mal conseguia se levantar. O fato de ficar sentado no mesmo local, imóvel sem se mexer, atraiu vários insetos, inclusive uma aranha caranguejeira que subiu pela sua perna direita e o picou na altura da virilha. Ao sentir a dor lancinante, Mario soltou um grito de dor, mas ao ver a aranha teve a certeza que jamais sairia vivo dali. Foi o que aconteceu. Depois de algumas horas de sofrido delírio, Mario morreu, sem ao menos ficar sabendo que seus sócios estavam acampados a alguns metros dali. Precisamente a quinze minutos do local onde ele estava, tanto é, que foram as crianças que o encontraram quando procuravam frutas para o almoço.
    Jonas filho, o líder das crianças maiores, foi o primeiro a ver o corpo, já em estado de decomposição. Estava coberto de vermes, com a feição desfigurada devido o veneno da aranha que fez com que seu corpo inchasse como um balão, mas na mão direita os dedos rijos seguravam a bússola quebrada. As seis crianças ficaram apavoradas com a cena de terror, menos Jonas filho, que disse sem pestanejar:
    – Ainda bem que ele morreu, assim somos donos de tudo que produzirmos.
    – Mas Joninho, você não fica com dó dele. Suplicou o primo Albertinho.
    – Como você é molenga, claro que fico com dó, mas se foi melhor para nós que ele morreu, então, prefiro que esteja morto. Disse Jonas filho, sem ao menos pestanejar.
    As outras crianças se calaram, mas todas ficaram tristes por se verem diante de alguém que perdeu a vida. Jonas filho, como um líder nato que era, gritou para que fossem chamar seu pai ou alguém que pudesse fazer alguma coisa. Artur, filho de primo José, lembrou acertadamente:
    – Pessoal, os homens ainda não voltaram da expedição. Apenas nossas mães estão no acampamento e elas não poderão vir por causa das crianças menores. Nós mesmo, teremos que resolver isso.
    Jonas filho se aborreceu por alguém ter tomado à frente e passado por cima de sua liderança. Disse com rispidez.
    – Artur, não se meta. Eu resolvo o que tem que ser feito.
   Apesar de ser uma situação inédita, o menino não titubeou um segundo sequer, disse em tom autoritário:
    – Vamos começar a cavar uma cova para enterrá-lo. Ele não pode ficar assim ao ar livre. Logo o mal cheiro invadirá o acampamento e teremos que nos mudar de lá.
    Artur, o primo mais cortês, disse em voz suave:
    – Precisamos fazer uma oração antes de enterrá-lo.
    Joninho, como era conhecido entre as crianças, olhou-o com ar de desafio, disse:
  – Vamos enterrá-lo primeiro, depois a gente faz uma oração quando a cova já estiver coberta. Eu não aguento este mal cheiro que já está se desprendendo do corpo de Mario.
    E assim foi feito, as seis crianças, quatro meninos e duas meninas começaram a cavar com as próprias mãos e alguns pedaços de paus. Depois de duas horas a cova rasa já estava pronta, os três meninos maiores: Joninho, Artur e Tales, filho de Tio Alberto; empurraram o corpo até a cova. Mario caiu de bruços, com o rosto virado para terra, as crianças ficaram assustadas. Albertinho, irmão de Tales, pediu para Joninho desvirá-lo, pois tinha ouvido falar que não se poderia enterrar ninguém nesta posição, sob risco de seu fantasma aparecer e perturbar quem enterrou. Jonas filho não deu ouvidos, ele mesmo começou a jogar terra sobre o cadáver, todos os outros ficaram imóveis, ninguém ousava se aproximar. Algum tempo depois o menino deu por encerrada a tarefa. Marianinha, irmã de Artur, fez uma rápida oração, a qual foi acompanhada por todas as outras crianças, menos por Joninho – ele estava furioso por ninguém ter ajudado a jogar terra na cova. Sentou-se em uma pedra e aguardou em silêncio o final da humilde cerimônia. Terminada as orações, todos voltaram correndo para o acampamento. Coincidentemente, chegaram ao mesmo tempo que os homens que voltavam da busca por equipamentos abandonados e algum sinal dos nativos desgarrados.

continuação…

 

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