Constantinopla-27

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    Ela emudeceu, não tinha como responder.  O velório prosseguiu, mas um a um foram saindo sem se despedir.  Eu e Suzana pedimos que Antron e Lucius acompanhassem mamãe e também fomos embora.  No dia seguinte, meu irmão nos contou que logo após nossa partida, a casa ficou vazia, restando apenas poucos familiares, nesta hora Tia Adelane disse, para quem quisesse ouvir, a Tia Croele:
    – Você está ficando louca e não sabe o mal que faz à toda a família.  Todos estão abismados com sua atitude arbitrária e mesquinha.  Nossa sobrinha é um anjo que o Grande Deus enviou para promover a união e você estraga tudo plantando a desunião e a discórdia.  Peço que nossos irmãos te auxiliem nos últimos preparativos, pois eu também me vou, já fiz minhas orações desejando que meu sobrinho encontre a paz.
    Me senti vivificado, pois no caminho de volta para casa Suzana chorou muito e lamentei a decisão de levá-la até à casa de Minélus.  Afinal, isto serviu para mostrar a Tia Croele que sempre esteve errada, pois se seu filho não tivesse a muleta de sua concordância com relação ao motivo de sua postura insana talvez estivesse vivo neste momento.
    Passou-se trinta dias da morte de meu primo e em todo esse tempo fui até a casa de Menéas após a pescaria, ficando por uma hora como ele havia me pedido.  Tirei as esteiras da sala e coloquei a mesa da cozinha ladeada por dois bancos.  Nos primeiros dez dias ninguém apareceu, mas no décimo primeiro, ouço bater à porta e ao abri-la me deparo com uma senhora idosa com um bebê no colo.  Pedi que entrasse e me falasse o que desejava.  Ela se sentou no banco com a criança e começou à chorar, dizendo:
    – Meu filho, este bebê é meu neto, sua mãe, minha filha, morreu quando ele nasceu.  Agora, ele só tem a mim, pois seu pai, um mercador grego, nem sabe que ele existe. Eu sou só, pois toda minha família foi dizimada pela peste quando era menina, fui criada devido à caridade de pessoas bondosas e agora com quase cinquenta anos, me vejo com a responsabilidade de criar este bebê, fruto da falta de caráter de minha filha única, Percilia.
    Parou para enxugar as lagrimas. Pedi que prosseguisse.
    – Esta madrugada, desesperada porque Tito não parava de chorar, ardendo em febre que não cedia, pedi auxilio aos Deuses, e ao tirar um breve cochilo sonhei com meu amigo Menéas me dizendo que viesse até sua casa pela manhã que encontraria alguém que me ajudaria.
    Olhei para o bebê sem saber o que dizer e muito menos o que fazer.  Armanide nunca tinha ficado doente e não tinha a mínima idéia de como se cuidar de um bebê febril.  Instintivamente, tomado por algo irreal que me fazia ter a sensação de flutuar, coloquei minha mão sobre a testa do bebê, senti um formigamento e tive a impressão que algo era transmitido através de minhas mãos para o corpo de Tito.  Orei ao Grande Deus e após alguns minutos me sentei exausto. Fui até o baú de Menéas, escolhi algumas ervas “aleatoriamente” e pedi que a avó fizesse chá e desse ao bebê três vezes ao dia. Ela se foi, mas antes me agradeceu muito.
    Deste dia em diante não houve um só dia que não houvesse alguém à porta me aguardando.  Eram necessitados de todas as categorias, desde doenças físicas, fome, abandono e um outro tipo de pessoas, aquelas que parecem tomadas por forças invisíveis que impediam que prosseguissem a vida sem enveredar por caminhos cruéis e escusos como ocorreu com primo Minélus.  Estas pessoas me suscitavam muita compaixão, pois quando se tem uma dor física causada por uma batida é muito mais fácil curar do que algo tão irreal e invisível como uma energia maléfica.
    Suzana sempre ouvia com atenção meus relatos e à noite estudávamos os livros de Tio Elias buscando palavras de conforto para que eu pudesse dizer àqueles que me procuravam.
    Armanide crescia saudável e cada vez mais bonita, ensaiava os primeiros passos e já dizia papai,  mamãe e tiacá que acabou ficando Tica, até nós passamos a chamar minha irmã Catarina assim.  Até que um dia, logo após seu primeiro aniversário, a noticia de um novo bebê, desta vez foi um menino que demos o nome de Túlio, como o irmão de vovó.
    Dez anos se passaram, estava próximo de completar trinta anos e já tinha a metade das crianças intuídas por Menéas, ou seja seis : Armanide, Tulio, Germano, Laila, Rômulo e Ruan. Catarina havia se casado com Ahimon, filho de Múrcio, foi morar próximo à casa de Menéas e muitas vezes me auxiliava com o atendimento aos necessitados, nesta época Sacerdote Ramon já havia falecido e vi meu trabalho triplicar, pois me dividia entre o Templo e a pequena casa à beira do rio, passei a fazer cerimônias fúnebres e até casamentos, pois ainda não havia nenhum Sacerdote para substituir Ramon. Mamãe prosseguia bem de saúde e firme em suas crenças, se afastou de Tia Croele, pois ao analisar seus motivos para desprezar Suzana concluiu que eram pífios e infundados.  Vovó estava muito doente, contraiu uma doença que a deixava tão cansada que mal conseguia se levantar sem ficar ofegante.  Eu sabia que seu coração logo pararia de bater e ela partiria.  Antron se casou à sete anos com Miriam, a filha mais nova de Tia Letizia, irmã de mamãe, fez uma casa na terça parte das terras que papai deixou de herança.  Mamãe, sabedora que vovó logo partiria e ela estava envelhecendo, dividiu às plantações e as terras em três partes iguais, deixando cada parte aos cuidados de um filho homem : eu, Antron e Lucius.  Nós nos comprometemos a cuidar das duas até o final de suas vidas.  Mamãe já não trabalha nas plantações, apenas se ocupa de cuidar de vovó, da casa e de seu jardim.  Vive em companhia de Mirna que já completou quinze anos e se casa no próximo verão e Triciana com treze anos.  Lucius, apesar de não ter se casado, não mora mais com elas, fez uma casa em seu pedaço de terra e para lá se mudou, dizendo que aguardaria a chegada de sua esposa que viria através de uma estrela cadente, nós sempre riamos de suas histórias, pois Lucius era o mais bem humorado dos irmãos e o tio mais querido de todas as crianças da família.
    Minha mãe já tinha onze netos, seis meus e de Suzana, dois de Catarina e três de Antron, sem contar os de Claudia e Artur, que sabíamos serem quatro, apesar de não os conhecermos ainda.  Minha família se unia cada vez mais, esta atitude de mamãe de se desapegar das terras e nos passar a responsabilidade de cuidar da família remanescente, nos fez enxergar o quanto é necessária a união e a amizade entre os irmãos, nós nos revezávamos em visitá-las, cada dia um filho ia à sua casa e avisava os outros se houvesse alguma necessidade.
    Antron prosseguia pescando, quando voltava cuidava das plantações e de sua família.  Sua esposa Miriam não era tão dedicada aos filhos quanto Suzana, fazendo com que mamãe muitas vezes fosse até sua casa durante as ausências de meu irmão para ajudá-la nos afazeres diários e nos cuidados com as três crianças ainda pequenas, algo que nunca aconteceu com Suzana, após o casamento de Catarina à cinco anos tivemos mais três filhos e ela sempre cuidou de tudo com esmero: cozinhando, lavando e ensinando as crianças a ler e respeitar o Grande Deus.
    Minha mãe sempre dizia que era muito feliz, mas que não podia morrer sem rever Claudia e conhecer seus netos.  Após doze anos de seu casamento, recebendo apenas parcas noticias, através de Tia Adelaide, finalmente em uma tarde de domingo, batem à nossa porta. Armanide corre para abrir e vejo Múrcio em companhia de Lucia sua esposa, eles vieram nos avisar que a família toda chegaria dentro de dez dias, de mudança, pois Artur seria o novo Sacerdote e todos se instalariam no Templo Sagrado, na casa contígua destinada aos visitantes que estava vazia desde que Sacerdote Ramon havia falecido.
    Avisei mamãe assim que eles se foram, ela mal acreditava, se trancou no quarto e orou aos Deuses em agradecimento.  Foram dias de grande expectativa, as crianças se mostravam tão ansiosas à ponto de terem dificuldade de dormir, principalmente Armanide que era a mais velha e a mais ligada aos primos, e estes, ela já gostava mesmo ainda não os terem conhecido.

continuação…

 

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