Constantinopla-18

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    Tia Adélia fez questão de servir o chá, foi auxiliada por tia Augusta que entregava as canecas a cada um dos presentes.  Os doze irmãos que restaram, estavam todos lá, acompanhados de alguns familiares, o que totalizavam quase quarenta pessoas. O que se viu a seguir foi algo indescritível.  Após o chá ser servido, Tia Adele tomou a palavra dizendo:
    – Agradeço a presença de todos.  Tenho certeza que Elias, Nuno e Percilio já se encontram ao lado do Grande Deus, pois já cumpriram suas missões aqui na Terra e agora novas obrigações os aguardam.  Elias havia me dito que esta seria a última viagem, pensei que era porque ele desejava parar de pescar e se dedicar às nossas plantações, mas estava enganada. Ontem resolvi limpar esta caixa e pedi que Elinho a pegasse para mim.
    Apontou para a grande caixa onde Tio Elias guardava seus cristais e já era minha velha conhecida.
   – Ao abri-la, resolvi retirar os cristais que estavam no seu interior para limpá-los e colocá-los ao sol como Elias sempre fazia, mas quando entorno seu conteúdo em minha bacia, o fundo também sai e ao observar dentro dela vejo este papel dobrado cuidadosamente.
    Ela ergueu as mãos segurando um pedaço de papel, eu tremi da cabeça aos pés, prendi a respiração, fechei os olhos e vi Tio Elias sorrindo para mim como se tivesse acabado de fazer uma travessura, Tia Adele prosseguiu:
    – Meus amigos, vejo aqui todos os irmãos e cunhados de meu falecido marido, gostaria que todos ouvissem com atenção, mas especialmente Elifas, Tarcilio, Naum, Petrus, Adelane, Letizia, Augusta, Leila, Croele, Ágata, Mirna e Linizia.  Citou um a um, cada irmão, à medida que dizia o nome olhava para cada um deles. Iniciou a leitura da carta:
    “ Querida Adele. Queridos irmãos.  Hoje, na véspera de minha última viagem, escrevo esta carta a pedido do Grande Deus.  Ele pede para dizer a todos, que eu, Nuno e Percilio não mais retornaremos, no meio da viagem uma grande tormenta nos ceifará a vida, porque nossa missão junto a esta grande família já está completa. Rafael retornará, e junto com Elinho e Osias cuidará das plantações e de você Adele.  Peço que separe todos os meus livros e todos os meus escritos e os entregue aos nossos sobrinhos Aimanon e Suzana.  Apenas isto.  Peço que todos prossigam acreditando que o Grande Deus é o responsável por cada manifestação de vida presente nesta terra abençoada.  Elias Mussato.”
    Minha tia dobrou lentamente a folha de papel e colocou-a dentro da caixa de cristais. Todos estavam atônitos, a primeira a se manifestar foi mamãe que se levantou e disse:
    – Adele, eu gosto muito de você, mas a morte de Elias te ceifou a razão, você escreveu esta carta para nos confundir e nos afastar dos Deuses, esteja certa que será punida por isso.
    Em seguida saiu da sala e se dirigiu a um aposento ao lado chorando, foi seguida por Tia Ágata e Tia Mirna.  Tia Adelane ficou na sala e logo após à saída das três irmãs disse:
    – Adele, eu acredito em você, antes da viagem sonhei três noites seguidas com Omar me dizendo que haveria uma grande tempestade e os três não mais voltariam, fiquei em pânico mas não disse à ninguém, na terceira noite ele completou, não se preocupe, eles tem novas tarefas junto ao Grande Deus e serão levados assim como eu fui, porque tudo que tinham a fazer aí, já fizeram, portanto se acalme e sorria pois não há absolutamente nada à temer pois o Grande Deus, sabe tudo, vê tudo e faz tudo na hora certa.
    Senti um grande alivio, pela primeira vez na vida vi um sorriso no rosto de minha Tia Adelane e descobri a resposta que ela me daria se eu tivesse lhe perguntado porque não sorria. Com certeza seria que sua vida não tinha graça porque ainda não havia encontrado um significado, mas agora ela já sabia, tinha muitas tarefas a cumprir solicitadas pelo Grande Deus e com certeza uma delas era cuidar de mamãe, Tia Ágata e Tia Mirna.
     Tia Adele novamente tomou a palavra, dizendo:
    – Aimanon, Suzana, arrumarei todos os livros e escritos de Elias em uma caixa e pedirei que Elinho e Osias levem até a casa de vocês.
    Apenas agradeci, e ao lado de Suzana nos despedimos de todos. Mamãe e Antron saíram à seguir, por um grande trecho permanecemos caminhando lado a lado, mas ela não emitiu nenhuma palavra, apenas Antron sorrateiramente me disse, sem que fosse possível ser ouvido por ela:
    – Aimanon como é possível isto?  Quando contar para Catarina ela não vai acreditar.
    Disse simplesmente:
    – Antron, existe muitas coisas que não sabemos, diga para Catarina ir com você amanhã até minha casa que conversaremos.
    Apressei os passos, segurando as mãos de Suzana e nos distanciamos dos dois. Chegamos em casa, nos refrescamos com a água do pote de barro, sentamos na esteira e nos pusemos um diante do outro.  Suzana falou primeiro:
    – Querido, tudo isto me parece natural.  Como pode ser que algo tão incrível não me surpreenda?  Apenas o fato de Tio Elias nos dar, depois de morto, seus livros e seus filhos não contestarem me deixou intrigada, pois jamais pensei que concordariam em atender um pedido tão inusitado, principalmente Tarcila que é tão apegada a tudo que represente que tem mais que nós e os livros de Tio Elias sempre lhe deu muito orgulho, pois em uma ocasião me disse que entre todos os irmãos, seu pai era o mais culto, pois sabia ler e escrever e os seus livros era a representação deste conhecimento raríssimo na nossa cidade.
    – Suzana, você não se surpreendeu e também muitos que estavam naquela sala, porque já sabiam, Tio Elias já os tinha dito.
    Minha esposa arregalou os olhos dizendo:
    – Você está errado, titio jamais me falou tal coisa, ao contrário, falava que depois de seus filhos e Tia Adele, seus livros era o que tinha de mais importante, superando a casa e suas plantações.
    – Suzana, não foi assim que você soube, mas durante o sono enquanto dorme e sonha.  Amanhã à noite Catarina e Antron virão até aqui para conversarmos e eu direi a vocês três tudo que aprendi com Menéas sobre isto.
    Encerrei o assunto dizendo:
    – Você agora tem a missão de me ensinar a ler com mais velocidade, pois ainda não consigo decifrar muitas palavras, ou melhor, quase nenhuma, papai sempre achou que não era importante, ao contrário de mamãe, que sonhava me ver médico, o pouco que sei foi ela que me ensinou.
    Ao contrario de mim, Suzana sabia muito, lia e escrevia com correção. Tio Nuno sempre fez questão que seus filhos tivessem cultura, e nunca fez distinção entre Suzana e os seus filhos homens, todos tinham professores que iam à sua casa semanalmente para aprenderem a serem ramsés, ou seja, sábios, transmitirem muito mais conhecimentos que todos os outros. Suzana sempre foi muito aplicada, sabia além de ler e escrever muito sobre filosofia e lógica, aprendeu matemática, mas não sabia muito dos mistérios que envolvem a criação, seus pais eram aparentemente politeístas, mas como vim a saber depois, Tio Nuno e Tia Adelaide contestavam muitos preceitos, por afirmarem não ter fundamento.  Suzana cresceu assim, aprendeu uma religião, mas não era cobrada com rigidez como acontecia em minha casa, mamãe obrigava todos nós, inclusive papai e vovó a orar aos Deuses todos os dias, oferecer alimentos e não deixar de cultuar objetos que para mim parecia ancorado em algo irracional.

continuação…

 

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