Constantinopla-15

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    O dia passou rápido, nos despedimos de todos e voltamos para casa felizes,  e com uma indescritível sensação de leveza por novamente resgatar o amor de mamãe. Ao nos deitar peguei a mão de Suzana dizendo:
    – Querida, obrigado por superar as palavras truculentas de mamãe e concordar em prosseguir sem o peso que elas acarretaram.
    – Aimanon, ela te gerou, portanto isto já é o suficiente para que não haja motivo de prosseguirmos afastadas.
    Apertamos as mãos e dormimos aliviados.
    As semanas se sucediam sem maiores acontecimentos, mamãe tinha vindo nos visitar em duas ocasiões trazendo flores e pão nam, isto nos trouxe de volta a paz e o equilíbrio roubados.
    Claudia finalmente aceitou se casar com Artur, sobrinho de tia Adelaide, portanto, primo apenas de Suzana.  Ele tinha vinte e cinco anos, era um homem feito, por muito tempo pensou em ser Sacerdote e partir para terras distantes,  mas quando soube à respeito de Claudia, intrigou-se, pelo fato de ainda não ter se casado apesar de não lhe faltar pretendentes, pediu permissão para mamãe e quando à conheceu se apaixonou perdidamente no que foi correspondido.  Os preparativos corriam com acelerada tranqüilidade, quando recebemos uma noticia terrível que nos abalou profundamente.
    Rafael retornou sozinho, trazendo os corpos de meus três tios e de alguns marinheiros que trabalhavam com eles. Ele estava tão abalado que não conseguia nos contar como tudo aconteceu, só fazia chorar e lamentar a ira dos Deuses.  Amon, um antigo amigo e empregado de Tio Nuno foi que nos relatou com detalhes o acontecido.  Tiveram após a partida muitos dias de calmaria e pesca proveitosa, na noite que iriam se preparar para se dirigir à Atenas para negociar o fruto do trabalho, ocorreu uma indescritível tempestade seguida de ventos mais fortes que a pior tormenta que ele já tinha presenciado.  Na manhã seguinte o único barco que permanecia sobre às águas era o de Rafael por ter sido recém construído e feito com material mais resistente.  Nada podia ser avistado a não ser uma imensidão de destroços.  Rafael saltou ao mar feito um insano e quase perdeu a vida também.
    Amon contava o ocorrido diante de uma platéia atônita reunida na casa de Tia Adelaide que não suportou a dor e se retirou, sendo acompanhada por Suzana e seus filhos mais novos.  Apesar dos esforços, todos os doze homens que ainda permaneciam vivos sabiam que ninguém seria resgatado com vida.  Rafael se recusou a zarpar e disse que só partiria levando os corpos de seu pai e seus tios para serem cremados com todas as honras em Constantinopla.  Aguardaram três dias, na manhã do quarto dia, o corpo de Tio Elias boiou, já em avançado estado de decomposição e assim um a um foram recolhidos até que Tio Nuno também apareceu.  Jogaram no mar todos os peixes que estavam acondicionados em grandes tonéis com óleo de oliva, colocaram os corpos e retornaram com a missão de devolvê-los aos Deuses para serem encaminhados à nova morada.
    Foram dois dias de uma dor indescritível, minha família parecia destroçada, até as crianças menores pareciam enlutadas, não se ouvia uma brincadeira e não se via um sorriso em seus lábios.  Os funerais foram presididos por Sacerdote Ramon sem à presença dos corpos, à seguir, eu, meus tios e primos com mais de dezesseis anos nos dirigimos ao local onde os corpos seriam cremados.  Era a primeira vez em minha vida que participaria de uma cerimônia como esta, mas não podia me esquivar apesar de o desejar.  Meus tios estavam perfilados lado a lado, o odor que impregnava o local era muito forte à ponto de Tio Elifas se retirar aos prantos, dizendo que não acreditava que seus irmãos haviam sido reduzidos a aquelas carcaças mal cheirosas.  Eu apenas fechei os olhos e orei ao Grande Deus, pedindo que os recebesse e os guardasse para que no futuro pudessem retornar, como Menéas me disse que acontecia.
    Quando abri os olhos, uma enorme fogueira crepitava onde estavam seus corpos, de repente os vi, tão vivos como quando os conheci vivos, distribuindo sorrisos.  Tio Nuno me pareceu dopado como se tivesse tomado muitas infusões de erva daninha, mas Tio Elias e Tio Percilio não, estavam serenos e vendendo saúde.  Neste momento os saudei mentalmente como sempre fazíamos verbalmente, eles responderam em seguida, apesar de seus lábios não se moverem.  Tio Elias se aproximou mais, e eu, em um reflexo dei alguns passos para trás, ao que ele me disse, novamente sem que eu visse sua boca se movimentar:
    – Aimanon, vá até minha casa e diga a sua Tia Adele que te dê todos os meus livros, à partir de agora eles serão seus, se ela se opor peça que abra a caixa que guardo meus cristais, retire-os, encontrará um fundo falso e lá há uma carta onde escrevi tudo que deverá ser feito. 
     Em seguida os três desapareceram, fiquei imóvel até o fogo se extinguir, não sei se foram minutos ou horas, apenas que o tempo parecia ter parado e o meu coração também. Movimentei-me apenas quando senti uma mão no meu ombro esquerdo, me virei e vi Tio Naum, me convidando para ir embora, pois a cerimônia já havia terminado.  Todos nos dirigimos à casa de Tia Adelaide e avisamos que tudo havia se acabado e que eles já estavam morando em outro lugar.  Vi Tia Adele chorando muito, rodeada por seus filhos e netos, tive um impulso de me dirigir a ela, mas algo me dizia que não era o momento.
    Aproximei-me de Suzana e falei:
    – Se você quiser ficar aqui com sua mãe alguns dias fique, ela precisa muito de você ao seu lado.
    – Aimanon, eu ficarei mesmo – dois dias –  pois estou muito preocupada com ela e com meus irmãos. 
    Suzana tinha quatro irmãos mais jovens que ela e todos ainda necessitavam de cuidados. Reion, o caçula, tinha a idade de Mirna, quatro anos, mas havia nascido com deficiência visual, era cego, e precisava de atenção especial.
    Me despedi de todos e sai sem aguardar Antron e minha mãe.  Caminhei alguns minutos apenas sorvendo o ar e apreciando o  sol se pondo.  Ao longe vi o Rio Nilo, imponente como sempre, e à sua frente um ponto preto que percebi ser alguém caminhando em minha direção, quando finalmente consegui identificar as feições, vi que era Menéas.  Ele me saudou, e disse :
    – Meu amigo, sei que retorna dos funerais de seus tios, os acontecimentos traçados pelo Grande Deus são imutáveis.  Sei que desde o dia que soube que isto ocorreria você orou para que fossem poupados, mas isto não seria possível, pois seus tios cumpriram suas missões nesta vida assim como ocorreu com meu filho Omar.  Assim que seu Tio Nuno casou sua filha Suzana com você e trouxe ao mundo Reion cumpriu suas últimas missões.  Seus tios, Elias e Percilio a muito estavam prontos, mas aguardavam Nuno para que pudessem auxiliá-lo nesta nova vida que agora se inicia.
    Olhei para ele e perguntei :
    – Quando você me disse que os médiuns devem auxiliar os vivos e os mortos o que estava querendo dizer?
    – Eu me referia que a vida não se acaba com a morte e assim como temos vivos que precisam de ajuda temos também aqueles que já morreram e ainda não sabem ou precisam se comunicar para ajudar os que aqui estão e só os médiuns podem fazer este trabalho de amor.
    Sentei-me no chão exausto, ele se abaixou e disse:

continuação…

 

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