Constantinopla-14

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     Ele bondosamente, respondeu :
    – Filho, os médiuns são homens e mulheres iguais a todos os outros, só que tem a capacidade de escutar o Grande Deus e receber dele ensinamentos e predições que ainda não ocorreram mais irão acontecer.
    Aquele que é médium e não sabe disso se torna diferente das outras pessoas, se tornam tristes e muitas vezes se entregam à bebida e à vida fútil, porque o Grande Deus tenta lhes passar os ensinamentos e eles se recusam a ouvir se armando de uma casca densa que impede não só de ouvir o que o Grande Deus tem a lhes dizer, mas também de serem iguais às outras pessoas.
    Me lembrei do episódio que ocorreu no dia do meu casamento com Catarina e contei para Menéas, ele me explicou:
    – Catarina ainda é uma criança e elas não tem maldade no coração, por isso estas coisas acontecem tão naturalmente que elas dizem não se recordar.  Cuide bem dela e lhe conte tudo que lhe falei sem alarmá-la. Será sua irmã que ajudará sua mãe a retirar os véus da arrogância que encobrem sua visão e não a permite enxergar que o fato de acreditar em algo que não é compartilhado por aqueles que estão ao seu lado não lhe dá o direito de julgar e muito menos ousar proferir que serão punidos por isso.
    Apesar de sua boa vontade, senti que estava abusando e mesmo assim disse:
    – Menéas, preciso lhe fazer mais duas perguntas:
    – Porque Suzana ainda não engravidou? Fazem seis meses que nos casamos e para termos doze filhos o Senhor não acha que está demorando muito?
    – Não Aimanon, o corpo de Suzana ainda não está pronto para gerar seu primeiro filho e quando isto ocorrer ele virá e a seguir todos os outros. Agora me faça a ultima pergunta.
    –  A alguns dias atrás meus tios e meu primo Rafael partiram para mais uma viagem, eu e Suzana fomos ao porto nos despedir e desde este dia sinto um amargor quando penso nisso. Por que será?
   – Você sabe porque, o Grande Deus te disse que eles não voltarão e seu amor por eles é tão grande que você reluta a escrever isto no seu consciente, isto ocorre apenas durante o sono, quando acorda fica a sensação que algo está para acontecer e não sabe o que é.
    Fiquei estarrecido com suas palavras e conclui:
    – Eu também sou médium?
    – Sim e também outros primos e primas, inclusive Suzana.
   – Menéas, mas isto não é bom, não quero saber o futuro.  Isto nos faz sofrer e se é algo que não podemos mudar para que serve?
    – Aimanon, todo médium tem uma tarefa árdua que é levar a palavra do Grande Deus e também auxiliar os vivos e os mortos a encontrarem seu caminho.
    Ouvi e não disse palavra, me despedi, agradeci sua explicação e fui para casa, no caminho encontrei Catarina e Suzana que voltavam do rio após lavarem as roupas, auxiliei-as a carregarem as bacias e adentramos na sala de casa.
    As duas conversavam animadamente, Catarina contava as últimas agruras de Tamiris, a camponesa que perdeu o marido e tinha que cuidar da família sozinha.  Jamais me achei capaz de compreender o que move duas pessoas a serem tão amigas como minha irmã e minha esposa.  Nos meses que precederam nosso casamento, até hoje, não deixaram de se encontrar um só dia.  Catarina terminava seus afazeres na casa de mamãe e corria para encontrar Suzana.  Estava lhe ensinando a bordar e costurar, pois neste ponto mamãe tinha razão, ela não sabia absolutamente nada das tarefas que envolvem o dia a dia de uma esposa, mas aprendia rapidamente, já cozinhava com esmero e prosseguia tentando costurar uma vestimenta para mim, o que estava lhe custando muitos furos nos dedos, mas Suzana não desistia, sua fibra me enchia de orgulho.
     Ao terminar seu relato.  Catarina se voltou para mim e disse:
    – Aimanon, mamãe ultimamente me parece muito triste.  Nossa casa já não é mais a mesma depois que você se casou.  Estava conversando com Suzana e ela também acha que precisamos fazer alguma coisa para alegrá-la.
    Depois do ocorrido na casa de Tio Nuno, a mais de três meses eu a vi apenas duas vezes, no dia que Triciana adoeceu e no domingo que Antron decidiu tornar-se pescador e eu confirmando minha posição de concordância, entrei em atrito com ela, depois disso nunca mais nos vimos, apenas sabia noticias através de meus irmãos, que sempre diziam que ela andava triste e cada vez mais inflexível em suas crenças religiosas se afastando de todos que não tinham a mesma posição, inclusive irmãos e sobrinhos.  Após um momento, falei:
    – Suzana, você concorda em irmos lhe fazer uma visita e acabar com esta situação que só nos faz sofrer?
    Minha esposa respondeu com serenidade:
    – Aimanon, gosto muito de sua mãe e esta situação também me deixa muito triste e preocupada, pois isto causou uma separação que só nos trás desconforto e sofrimento.  Concordo sim em lhe fazermos uma visita.
    Catarina aplaudiu e abraçou Suzana com tanta alegria que eu ao ver a cena estremeci, pois me parecia já tê-la presenciado.  Completei as palavras de Suzana, dizendo:
    – Catarina, avise mamãe que domingo iremos visitá-la.
    – Aimanon, fico muito feliz com a decisão de vocês, tenho certeza que ela ficará muito contente.
   A  semana   passou rapidamente  e  o  domingo  chegou  explodindo  de  luz, acompanhado por um céu tão azul que parecia as violetas de Suzana.  Nos pusemos à caminho, levando flores e queijo preparado com carinho por Suzana e Catarina.  Após vinte minutos de caminhada avistamos a casinha branca que tantas alegrias abrigou em seu interior quando ali vivi, agora me pareceu frágil e muito menor do que minhas lembranças arquivaram.  Claudia e Catarina vieram ao nosso encontro e se postaram uma de cada lado como que para servirem de escudo protetor, entramos na sala, abraçamos e saudamos todos, apenas mamãe não estava, o que senti não ser um bom sinal, mas Antron nos disse que ela orava no quarto e já viria.  Sentamos nas esteiras, Triciana aconchegou-se no colo de Suzana e Mirna no meu, vovó servia chá de melissa quando mamãe entrou  na sala, nos saudou friamente e disse:
    – Aimanon, Suzana, continuo a acreditar nos meus Deuses, se vieram aqui para me convencer do contrário ponham-se daqui para fora.
    Confesso que me assustei com suas palavras, nunca imaginei que pudesse nos colocar abaixo de suas convicções, mas relevei e falei:
    – Mamãe, não viemos aqui para isso, você tem todo o direito de pensar como acha correto, nós não estamos aqui para criticar nem para demovê-la de sua crença.  Viemos apenas para te dizer que te amamos e gostaríamos de poder prosseguir a vida compartilhando com todos vocês este amor.
    Ela me olhou com a ternura de quando eu era criança, pousou os olhos em Suzana e disse:
    – Meus filhos, agradeço aos Deuses por conduzirem vocês até esta casa, este sempre foi o meu desejo, sejam bem-vindos.  Nos abraçou com amor e carinho.
    O almoço foi maravilhoso, Claudia tinha feito cuscuz de milho que estava delicioso, Suzana conversou animadamente com ela pedindo que a ensinasse a fazer, ao que ela concordou plenamente.  Claudia era muito mais tímida e arredia que Catarina, parecendo que carregava sempre um pesado fardo invisível que trazia cansaço e a deixava alheia à vida que pulsava à sua volta.  Esta aproximação com Suzana me deixou muito feliz e esperançoso de que ela finalmente concordasse em se casar, pois já tinha quase dezoito anos e não havia se decidido e não por falta de pretendentes, dizia sempre que não se sentia pronta e o tempo ia passando.

continuação…

 

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