Constantinopla-11

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   Fiquei pasmo, a voz de Catarina parecia diferente e seus olhos me olhavam, mais tinha a impressão que não me via.  Lucius acordava neste momento e ao ouvir às palavras de nossa irmã, disse:
      – Catarina, o que você tem?  Está dormindo? Que conversa mais esquisita é esta?
    Ele era assim, fazia muitas perguntas ao mesmo tempo, sem aguardar a resposta da anterior.  Eu segurei os ombros de Catarina e lhe dei um chacoalhão, ela parou de falar e me olhando fixamente, disse:
      – O que aconteceu! Aimanon porque você me empurrou desta maneira?
   Eu e Lucius repetimos suas palavras, ela falou que não se lembrava de absolutamente nada.  Este episódio não cabia dentro de meus poucos conhecimentos, mas naquele momento serviu para me acalmar, fez minhas pernas pararem de tremer e minha tontura desaparecer.  No futuro tive muitas oportunidades de entender o real significado daquelas frases não compreensíveis naquela ocasião.
    Caminhamos até à casa de Suzana. Coloquei minha melhor roupa, uma bata de linho branco e um turbante enrolado na cabeça como era costume naquelas terras quentes, castigadas pelo sol.  Usei sandálias de couro de cabra que me foram presenteadas por Menéas e fabricadas por suas próprias mãos, meus amigos pescadores me deram um novo bornal.  Catarina perfumou meus cabelos com água de flor de jasmim, me sentia perfeito e não via a hora de ver Suzana.
    Todos os meus trinta e dois primos e meus tios me aguardavam do lado de fora da casa.  Minha mãe, minhas tias e minhas primas mais velhas cuidavam de Suzana dentro da casa de Tio Nuno.  Rafael, filho mais velho de Tio Elias e que era o primo que sempre auxiliava os noivos da família, me conduziu a um banco no grande jardim e pediu que aguardasse.
    Dentro da casa dava para perceber um grande movimento, eu suava mais sentia frio, pedi que Antron me trouxesse água para me refrescar.  Ele me entregou a caneca e sentou-se ao meu lado dizendo :
    – Aimanon, a partir de amanhã você não morará mais conosco, preciso lhe dizer que para mim foi muito bom morar com você durante todos estes anos, tentarei cuidar de tudo como você cuida e gostaria de te pedir um favor.
    – Diga Antron, peça o que quiser.
    – Já tenho treze anos e quero ser pescador como você.
    – A sua ajuda no milharal é muito valiosa e parte da pescaria ainda será reservada à vocês, pense melhor, se mesmo assim você quiser se tornar um pescador e mamãe o permitir eu te ensino tudo que sei.
    – Vi o rosto de meu irmão se iluminar, ele me abraçou e agradeceu.
    Meu Grande Deus, aquele menino que fazia xixi na esteira já é quase um homem e preciso lhe ajudar, pois sentia, sempre que estávamos juntos que lhe devia muitos favores e precisava quitá-los.  Este sentimento estranho sempre me acompanhou, não só com relação ao meu irmão Antron mas também com Catarina.  Não sei de onde vinham, pois me lembro muito bem do dia em que cada um deles nasceu e à partir daí, eu, por ser o mais velho, sempre cuidei deles com amor e não havia motivos para ter este tipo de sentimento. Perdido nestes pensamentos senti alguém se aproximar, era vovó Celina, que me abraçou carinhosamente e disse :
    – Aimanon, sua mãe tem ciúmes de Suzana porque o ama muito, logo ela perceberá o quanto ela é doce e carinhosa e a amará também, não se preocupe com o que ela lhe diz, o casamento mostrará que é o único caminho que um bom filho como você poderia seguir e deixará de tanta implicância.
    – Eu entendo vovó e sei que ela apenas atravessa um período de insegurança pela minha partida.  Nossa família é algo sagrado e sei que mesmo me mudando e constituindo outra, isto jamais se alterará.  Mamãe é para mim o símbolo da força e da união e independente de suas atitudes isto jamais se alterará, eu nunca deixarei de amá-la e protegê-la.
    Vovó me olhou com um misto de carinho e admiração e disse :
    – Aimanon a vida lhe trará muitas alegrias porque os Deuses sabem premiar os justos e você é um deles.
    Eu a abracei e disse :
    – Vovó, você é que tem merecimento, apesar de todas as dificuldades que enfrentou está aí firme, cuidando do nosso futuro e trazendo a mais importante das bênçãos que é a nossa união.
    Neste momento primo Rafael se aproximou dizendo :
    – Aimanon, chegou a hora, Suzana já está pronta. Vamos entrar ?
    Tentei me levantar, mas minhas pernas não obedeciam, vovó esticou os braços e me apoiou.  Rafael disse que era nervosismo e também me ajudou. Levantei-me, dei alguns passos e entrei na grande sala, todos me fitaram, as crianças silenciaram-se, na parede em frente vi o pequeno Altar, todo adornado de flores e repleto de frutos e grãos como se fazia na época.  Agradecíamos aos Deuses em formas de oferendas todos os grandes acontecimentos e o casamento era o mais importante de todos, pois ali teria inicio uma nova família.  Todos os meus parentes estavam orgulhosos por poderem participar deste evento, a não ser primo Minélus, ele era filho de Tia Croele, irmã de mamãe e como vim a saber depois, ele amava Suzana e por ser mais velho que eu um ano já tinha sido cogitado por minhas tias para se casar com ela, mas quando Tia Croele falou com Tia Adelaide e Tio Nuno, estes conversaram com sua filha, que se negou veementemente dizendo que jamais se casaria com ele pois nutria apenas amizade e não amor por Minélus. À partir desta recusa ele tornou-se agressivo e se recusava a trabalhar na plantação com seu pai Cirilo querendo apenas viver em companhia de amigos pouco recomendáveis, vagando pelo porto à procura de pequenos serviços que quase não lhe traziam rendimentos.  Sua mãe culpava esta indisciplina a recusa de Suzana e quando soube que ela se casaria comigo rompeu com Tia Adelaide e Tio Nuno e foi a única, juntamente com seu marido, que não foi ao casamento, mas Minélus estava lá.  Apesar de naquele dia não estar à par do que tinha acontecido no passado, ao vislumbrá-lo vi algo desconcertante, uma espessa nuvem negra contornava todo o seu corpo e seu rosto avermelhou-se de uma tal maneira que pensei estivesse febril.  Tudo isto ocorreu em uma fração de segundos.
    A sala estava ornada de flores multicoloridas, todas as crianças levavam uma coroa de miosótis na cabeça, misturadas aos lírios brancos que as meninas levavam nas mãos.  Minhas tias estavam todas com roupas novas feitas com tecidos floridos que aumentava ainda mais a alegria do ambiente. Triciana e Mirna vestindo batas brancas se aproximaram de mim e me beijaram, se postaram cada uma de um lado, seguraram minhas mãos e me conduziram através de um esteira amarela até o Altar onde o Sacerdote Ramon, minha mãe, Antron, Tia Adelaide e Tio Nuno aguardavam.  Anele, minha prima mais velha, filha de Tia Mirna, tocava harpa enquanto sua mãe e minha avó choravam abraçadas ao seu lado.  No Altar, Rafael pediu que ficasse ao lado do Sacerdote, no momento seguinte a mesma porta que havia acabado de passar se abriu, um raio de luz penetrou no ambiente e vi Suzana linda, cabelos ornados com uma coroa delicada de jasmim, vestida de branco, me olhou com olhos de querubim e entrou lentamente segurando um buquê de lisianthus  azuis feito por Catarina.  As lágrimas escorreram pela minha face e só me vinha agradecer ao Grande Deus por aquela benção divina.

continuação…

 

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