Constantinopla-8

voltar a introdução

Constantinopla: A Eterna Luz

8/50

CAPITULO 2

SUZANA, MEU AMOR

 

    Os dias que antecederam o domingo foram de muita ansiedade, estávamos no verão e o calor que sempre nos castigava estava especialmente intenso naqueles dias.  Naquele domingo, acordamos cedo, para que não tivéssemos que enfrentar o sol que surgia por volta das seis horas e brilhava durante todo o dia.  Mamãe e vovó já tinham deixado tudo arrumado na noite anterior.  Todos se prepararam dormindo cedo e se alimentando antes de sair.
    A caminhada era longa, levamos duas horas até chegar à casa de Tio Nuno, passamos pelo Templo Sagrado onde viviam todos os Deuses, pela cidade velha, pelo Porto.  Triciana caminhava devagar, mas na maior parte do tempo eu e Antron nos revezávamos para carregá-la.
    Catarina e Claudia levaram os bornais com mussala, queijos de cabra para serem presenteados aos meus tios.  Lucius e Mirna nos acompanhavam felizes por poderem ter um dia tão diferente.
    A casa de Tio Nuno e Tia Adelaide era a maior e mais bonita de todas que conhecia.  Havia sido construída no alto de uma pequena colina e isto lhe trazia uma imponência ainda maior.  As portas estavam abertas e de longe avistávamos meus primos brincando no imenso jardim que rodeava a casa e se estendia até o pomar.
    Quando nos aproximamos mais, Tio Nuno e Tio Elifas vieram nos receber.  Mamãe chorou como sempre fazia, o alivio de vê-los retornar dos dias de enfrentamento as águas do mar era tanta que não conseguia conter a emoção.  Vovó já era considerada parte da família de mamãe e tratada com toda deferência que merecia.
    Meus tios nos abraçaram um a um, me disseram de seu orgulho de termos superado a falta de meu pai. Tio Naum apareceu a seguir, e quando entramos na casa foi um momento inesquecível de confraternização.  Meus olhos buscaram Suzana, mas não à vi, apenas seu irmão mais velho Tobias.  Ele tinha vinte e dois anos e já era casado, sua esposa Marina,  esperava seu segundo filho, sempre foi para mim um exemplo à seguir, de todos os meus primos, era o mais inteligente e quando conversávamos sempre me dizia coisas que me faziam pensar muito, como que ele não acreditava que quando morríamos ficávamos morando para sempre em outro lugar, ele achava que poderíamos voltar à viver novamente, só que como outra pessoa.
     Isto me intrigava e às vezes me pegava olhando para meus irmãos, principalmente Catarina que me tratava como se eu fosse seu filho.  Perdido nestes pensamentos, me virei rapidamente como se uma força invisível me impelisse e a vi ao lado de sua mãe, sorrindo e linda como sempre, mas agora tinha deixado no passado o corpo de menina, suas feições amadureceram e seus olhos brilhavam emoldurados pelos cabelos negros cacheados.
    Tia Adelaide me abraçou com muito carinho e disse:
    – Aimanon, meu sobrinho, como você cresceu, se tornou um homem e já sei que muito trabalhador.  Agradeço sempre aos Deuses por cuidarem tão bem de toda a família após à partida de seu pai.
    Agradeci ao carinho, mas meus olhos e meu pensamento tinham apenas uma direção: Suzana.  A seguir ela me abraçou, senti o calor de seu corpo e uma nova sensação me invadiu… o amor. Este sentimento divino que remove montanhas e conduz à felicidade.
    Suzana rapidamente se afastou, corando intensamente, à ponto de Tia Adelaide perceber e dizer:
    – Querida, não se envergonhe, seu primo é seu melhor amigo e se assim ele o desejar poderá ser marido.
    Levei um susto! Porque aquele era um segredo meu e só de imaginar que alguém soubesse me sentia nauseado.
    Suzana tinha quinze anos e como vim à saber depois, desde que completou quatorze anos, seus pais tentavam casá-la com filhos de mercadores ricos que se interessavam em desposá-la, mas ela sempre se recusou e dizia que só se casaria se fosse comigo:  Aimanon.  Naquela época era comum o casamento entre primos e até com irmãos e a única chancela para o pretendente ser aceito pelas famílias era ser trabalhador e conseguir manter sua esposa e filhos, ainda não se fazia muita distinção entre classes sociais e quem decidia eram os pais, mas sempre com a concordância dos noivos.
    Confesso que levei um susto e pensei não ter escutado direito.  Minha tia prosseguiu:
    – Aimanon, eu, Nuno, sua mãe e sua avó conversamos esta semana sobre o seu casamento com Suzana e ficou combinado que hoje falaríamos à respeito com vocês dois.  Ao redor da grande sala as conversas foram interrompidas e senti muitos olhares pousarem sobre mim e Suzana. Gaguejei:
    – Vocês estiveram em minha casa?
    – Sim, ontem pela manhã, sua mãe nos pediu para conversarmos com você hoje sobre o assunto que nos levou até lá.
    Neste momento, Tio Nuno e minha mãe se aproximaram e meu tio nos convidou para adentrarmos a uma sala contígua à principal, onde o incenso queimava, frutas adornavam a pequena mesa e varias esteiras multicoloridas cobriam o chão.  Sentei-me, ao meu lado direito minha mãe, à esquerda titio e Tia Adelaide, Suzana não foi convidada, ficou na outra sala aguardando o resultado da conversa e como me disse depois apavorada com medo que eu a recusasse.
    Tio Nuno quebrou o silêncio e disse:
    – Meu sobrinho, você sabe do carinho e consideração que tínhamos por seu pai e agradecimento por cuidar tão bem de nossa irmã Linizia e de todos vocês. Ao voltar desta viagem que durou quase quinze meses e saber da morte de Simeão e seu empenho em trazer alimento para mesa, fiquei triste pela separação de meu grande amigo, mais ao mesmo tempo feliz por sua atitude de homem responsável.
    – Aimanon, eu e Adelaide gostaríamos de tê-lo como genro, se assim você o desejar, pois a muito sabemos que Suzana teria muito gosto em desposá-lo.
    Fiquei lívido, minhas mãos congelaram-se e não consegui conter uma lágrima fugidia de escorrer pela minha face. Meu tio se assustou e pensou que estava com medo  de concordar e assumir a responsabilidade de uma família, que mal sabia ele seria enorme com inúmeros meninos e meninas, que teria grande felicidade em alimentar e conduzi-los à caminho da Casa de Deus.
    Após alguns momentos me recompus e disse :
    – Tio Nuno, Tia Adelaide, vocês não imaginam o quanto ser esposo de Suzana me deixará feliz, eu concordo e agradeço a consideração por me escolher, para cuidar de sua única filha.
    Meus tios me abraçaram, minha  mãe também, apesar de saber que este era o caminho natural de todos os seus filhos, algo no seu íntimo relutava em aceitar com serenidade.
    Ao retornarmos à sala principal, todos silenciaram, pois já sabiam o motivo da reunião e queriam ouvir minha resposta.  Tio Nuno me pediu que relatasse a minha conversa com ele.  Eu me aprumei e falei :
    – Tio Nuno acaba de me comunicar que é de seu gosto, de Tia Adelaide e de Suzana que nós dois contraíssemos matrimônio. Gostaria que todos soubessem, que desde muito, este é o meu maior desejo.  Todos se voltaram para Suzana que completou:
    – Então podem preparar a festa, pois amo Aimanon e só me casaria se fosse com ele.
   Olhei para ela abismado, pois as noivas nunca deixam transparecer seus sentimentos, mesmo quando concordam com a escolha de seus pais.  E neste momento Suzana disse à toda a família que me amava.  Descrever o que senti é não ser fiel ao que ocorria dentro do meu coração, pois até hoje não encontrei palavras que represente o êxtase que me invadiu. Afinal, Suzana , meu grande amor, também me amava.

continuação…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s