Constantinopla-3

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   Neste momento abri os olhos e imaginei que havia cochilado, pensei ter sonhado, mas a visão do rio e dos grandes peixes não me saia da mente.  Amarrei o que restou das minhas sandálias e me pus à caminho de casa, quando cheguei o sol estava à pino, minha mãe me repreendeu por sair sem dizer aonde ia, mas após ouvi-la em silêncio, disse-lhe :
    – Mamãe, preciso aprender a pescar o mais rápido possível, você tem que ajudar a encontrar quem possa me auxiliar.
    Ela me olhou sem acreditar no que ouvia, acho que isto não havia ainda passado por sua mente, tanto era o pavor que tinha deste meio de ganhar a vida.  Após um longo tempo, respondeu :
    – Filho, perguntarei a seus tios como poderemos encontrar alguém que possa nos auxiliar.
    As cinco horas da tarde, todo o cortejo que havia levado meu pai para ser entregue aos Deuses, retornou para dizer a família que papai já estava definitivamente morando em outro lugar.  Eram quinze homens, mamãe serviu chá com nam a todos e pediu para que me auxiliassem a aprender a pescar.  Todos acharam que era uma boa idéia.  Tio Elifas, o mais velho dos irmãos de minha mãe, é estivador, trabalha no Porto carregando mercadorias que vêem e que vão para todos os lugares do mundo.  Ele tem seis filhos, todos muito mais velhos que eu, pois são todos casados, sendo que meu tio já tem treze netos. Foi o primeiro a se manifestar trazendo uma solução concreta para o apelo de mamãe.  Ele nos disse:
    – Conheço muitos pescadores, mas Aimanon precisa aprender com o mais sábio de todos eles, pois dizem que ele sabe onde está os grandes cardumes apenas ao olhar as ondulações da água do rio.  Menéas o grande pescador, poderá ajudar, apesar de hoje estar velho e só se dedicar às adivinhações, mas no passado foi o melhor amigo de papai e quem lhe ensinou o oficio.
    Levei um grande susto, pois nunca soube que ele era pescador e muito menos que conhecia meu avô.  Tio Elifas complementou :
    – Aimanon,  esteja pronto amanhã às primeiras horas do dia que eu virei buscá-lo para te levar até a casa onde mora o velho Menéas.
    – Tio você sabe onde ele mora ?
    – Sim filho, é  uma casa humilde logo após o mercado de Marcentália.
    Todos na sala respiraram aliviados, afinal era o primeiro passo para resolver nossa situação.  Mamãe agradeceu muito o carinho de Tio Elifas de perder um dia de trabalho para nos auxiliar.
    Quando todos se foram, eu me senti aliviado, afinal Menéas era um bom homem e tinha certeza que já sabia que nós o procuraríamos.
    A refeição da noite foi servida, mamãe me pediu que sentasse no lugar de papai e Antron à minha direita onde eu costumava sentar.  À medida que ingeria minha porção de milho com leite de cabra, observava meus irmãos sentados ao redor da mesa.  Catarina estava à minha frente, tinha oito anos era mais nova que Lucius, mas muito madura para sua idade, auxiliava tanto quanto Claudia, a mais velha, nos afazeres da casa.  Já sabia cozer e bordar, de todas as meninas, era a mais alegre e preocupada em aprender tudo que lhe era ensinado.  Uma ocasião uma andarilha bateu à nossa porta, Claudia, mamãe e vovó estavam na horta cuidando da plantação de mostarda.  Catarina ficou em casa cuidando de Triciana e Mirna.  Eu, Antron e Lucius tínhamos ido com papai trabalhar no milharal.
    Catarina abriu a porta e se deparou com aquela mulher maltrapilha que exalava odores fétidos, cabelos desalinhados, pés descalços. Sorriu na sua inocência e perguntou-lhe:
    – O que a Senhora deseja?
    – Filha, me dê um copo de água e se tiver um pedaço de pão para me alimentar, seria lhe muito grata.
    Catarina, sentindo-se dona da casa, pediu que sentasse na esteira e foi buscar a água e o pão, quando voltou a mulher estava brincando com Mirna, também bebê, pois tinha apenas dois anos.  Após comer o pão e beber a água, a andarilha agradeceu a boa vontade e disse:
    – Menina, avistei sua casa ao longe e sabia que aqui encontraria auxilio. Meu nome é Atenile e me encontro nesta situação porque meu marido me abandonou partindo com minha irmã e levando minha filhinha que tinha a idade desta linda menininha.
    Catarina sentindo a angustia da forasteira disse:
    – Seu marido era o homem que um dia você roubou de sua irmã e levou seus três filhos sem nunca mais retornar.
    Ela a ouviu boquiaberta, sempre soube intuitivamente que aquilo só poderia ter sido castigo dos Deuses por algo que havia feito, mas uma menina que ainda nem havia atingido os dez anos de vida lhe dizer aquilo, só poderia ser um sinal para que não mais o odiasse como vinha fazendo e direcionasse seu perdão.  Abraçou Catarina e da mesma maneira  que chegou, partiu.
    Quando mamãe chegou contou em detalhes tudo que havia ocorrido, mas omitiu as palavras que haviam saído de sua boca que dias depois contou só para mim.  Durante muito tempo pensei em uma solução para aquele mistério, apenas, muitos anos depois comecei a compreender, Catarina era médium, já nasceu assim, podia dizer aos homens palavras proferidas por energias que viviam na casa onde agora papai se encontrava.
    À noite demorou a passar, rolava na esteira de um lado para o outro sem conseguir dormir.  O dia amanheceu e minha ansiedade prosseguia, me troquei rapidamente, tomei leite e comi um pedaço de nam, meus irmãos ainda dormiam, quando ouvimos a batida suave em nossa porta.  Era Tio Elifas, neste dia, me pareceu muito mais alto e forte.  Já era um senhor calvo e com muitas rugas no rosto marcando os anos a fio de trabalho árduo.  Ele cumprimentou mamãe e vovó e nos pusemos à caminho da casa de Menéas.
    Durante o trajeto conversamos muito, ele me lembrou da minha posição de chefe da família e que de agora em diante deveria aprender tudo que me ensinassem, pois esta é a única coisa que era realmente minha, nunca mais ninguém poderia me tirar.  Aprender e saber, levam os homens a serem sábios e isso os faz diferente dos outros, pois sempre saberão como fazer para trazer alimentos para casa e qual o melhor caminho  para solucionar todos os problemas até os aparentemente impossíveis de serem resolvidos.
    Eu o ouvia com atenção e aquelas palavras nunca mais deixaram de me acompanhar em todos os anos vindouros.
    Finalmente chegamos à casa do velho pescador.  Ficava em um local afastado e distante do burburinho do Mercado, apesar de que podíamos avistá-la à partir da entrada principal, voltada para o Rio Nilo.  Era uma casinha humilde, branca, como todas as outras, por causa do calor escaldante que acometia nossa cidade devido à proximidade com o deserto.  Ao redor, muitas flores, rosas, azaleias, margaridas e alguns cactos.  As janelas tinham floreiras muito bem cuidadas.  Ao nos aproximar da porta senti como que uma baforada de ar fresco, apesar de que naquele dia nenhuma folha deslocava-se de seu lugar, devido a calmaria que imperava em toda a cidade.

continuação…


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