Constantinopla-4

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    Tio Elifas bateu à porta com os nós dos dedos da mão calejada.  Alguns instantes após, que para mim pareceram uma eternidade, a porta se abriu lentamente e me vi diante daquele bondoso senhor que por um ínfimo instante tive a impressão de estar envolto por um halo multicolorido de luz que me cegou.  Creditei ao calor e a longa caminhada.  Ele nos olhou com o olhar manso e sereno, disse:
   – Sejam bem vindos, entrem, fiz chá de pétalas de rosas, vocês se sentem que os servirei.
   Após tomar o chá que exalava o aroma mais doce que pude guardar em minha lembrança, olhou para mim.
   – E então Aimanon em que posso ajudar ?  – falou bondosamente.
   Tio Elifas tomou a palavra e explicou o porque da visita. Menéas pensou um instante.
  – Aimanon já estou muito velho para enfrentar o rio e dele retirar seus peixes, mesmo porque, todos os meus familiares já se foram, vivo sozinho, algumas raízes e frutos que colho no meu pomar já são suficientes para me manter com saúde, mas vou te ajudar, sei que precisa e quer auxiliar sua família.  Elifas, vá e deixe Aimanon comigo, temos muito que conversar, no fim da tarde ele retornará para casa.
   Tio Elifas se despediu – feliz por ter podido nos ser útil.  Quando a porta se fechou e me vi só com Menéas, novamente vi um halo luminoso ao redor de sua cabeça, pisquei forte, esfreguei os olhos e quando olhei novamente já não via mais nada.  Achei que era o sol que entrava pela janela aberta e iluminava todo o ambiente.
   Assim que ficamos sozinhos, Menéas me fitou longamente e sem dizer palavra adentrou um cômodo que ficava na parte de trás da casa, quando voltou, carregava uma grande rede e uma caixa azul que caberia facilmente a bebê Triciana dentro.  Colocou tudo diante de mim.  Dentro da caixa tinha anzóis de todos os tamanhos, pedaços de chumbo, linhas em carretéis e grandes  pedaços de madeira parecendo rabos de peixes nas duas pontas que chamávamos de amureto, as linhas eram enroladas nestas madeiras, enroscadas nas reentrâncias que formavam os vês, na ponta da linha prendiam-se os anzóis com as iscas, geralmente milho e os pesos para que as iscas fossem levadas para o fundo do rio.
   Muitos objetos estavam guardados nesta caixa azul além dos específicos para pesca, haviam facas diferentes para tirar escamas e abrir a barriga do peixe, luvas de metal para pegar o peixe e não se machucar, canecas de barro e até um grande cesto de lona para transportá-los.
   Tirou um a um a medida que me explicava para que serviam. Enquanto ouvia as explicações, minha admiração por aquele senhor de fala mansa, postura serena, olhar límpido e tranqüilo, aumentava. Já passavam das dez horas da manhã quando encerrou as explicações.  Eu olhava para aquela enorme quantidade de objetos e já me via no rio, à postos, para honrar o privilégio que o Grande Deus estava me oferecendo de poder aprender com uma criatura especial, escolhida por ele para me auxiliar, nesta tarefa de alimentar minha família e caminhar de encontro da missão que a mim havia sido reservada.
   Almoçamos raízes cozidas e frutos deliciosos, comi pêra e maçãs tão macias e suculentas que tenho certeza nunca havia experimentado antes.
   Durante a refeição contei-lhe o meu desejo de aprender muito e algum dia poder ajudar aqueles que carregam muita tristeza no coração, como Tia Adelane, irmã mais velha de minha mãe, nunca se casou e acho que nunca a vi sorrindo, meus primos e minhas primas diziam que ela já nasceu assim.  Eu não conseguia entender.  Como, se a vida é tão alegre, até os pássaros que não sabem falar sabem cantar e quando os observo tenho certeza que estão sorrindo, minha tia, que cuida dos irmãos, da casa, das cabras, dos sobrinhos, não é feliz?
   Contei sobre ela a Menéas e a minha falta de entendimento de todo este mistério.  Ele ouviu atentamente meu relato e lentamente respondeu :
   – Filho, sua tia é como todos nós, filha do Grande Deus, e ele é o mais sábio de todos os sábios que conhecemos e como um Pai que ama seus filhos, como o seu, apesar de agora morar em outro lugar, distante daqui, o ama e a todos os seus.  Ele está cuidando de ensinar sua tia  que quando sentimos tristeza e mágoa não podemos sorrir nem cantar.  Ainda vai demorar um pouco para ela aprender, mas um dia seu rosto se iluminará e um belo sorriso aparecerá em sua face. Você terá muitas oportunidades de vê-la cantar, mas por hora, ela se comporta como uma filha rebelde e não escuta os ensinamentos de seu Pai.
   – Quando se encontrar com ela da próxima vez que for à sua casa, lhe diga apenas :
   – Tia, seu rosto é tão bonito, porque não sorri ?
   – Preste atenção na resposta e diga a ela o que o seu coração disser, veja como não é difícil ajudar as pessoas  tristes e sofredoras, é só ouvir a voz que vem de dentro de você, ela sempre trás a resposta certa na hora certa, é só querer ajudar.
   Pensei um instante sobre o que ele havia me dito, mas a imaturidade da infância ainda não me permitia ter o entendimento real daquele ensinamento maravilhoso.
   Findo o almoço, Menéas e eu juntamos todos os objetos, colocamos com muito cuidado na caixa azul, dobramos a rede e nos colocamos a caminho do grande Rio Nilo, ele estava à apenas quinze minutos da casa e da porta em frente podíamos avistá-lo em toda sua grandeza.  Após este curto trajeto, ao chegarmos na beira do rio, encontramos alguns pescadores amigos de Menéas e de meus tios, todos já sabiam do ocorrido com meu pai, me abraçaram e se ofereceram para ajudar.  O sol já estava alto e naquele momento estavam retornando da pesca da manhã, quando me aproximei do barco de Múrcio, o mais solicito de todos, vi muitos peixes, pequenos e grandes, ainda vivos, pulando como um exército prateado tentando preservar suas vidas.  Aquela cena era para mim desconhecida, eu nunca havia visto tantos peixes juntos, saltando, buscando oxigênio e água.  De inicio, não me contive, uma grande lágrima escorreu de meus olhos e pensei :
   – Grande Deus, jamais conseguirei! Os peixes são como nós e querem viver felizes, não podemos retirá-los da água, pois assim eles morrerão e a alegria de nadar sob as águas mornas do rio se acabará.
   Menéas e Múrcio observavam em silêncio meu sofrimento e Múrcio quebrou o desconforto dizendo :
   – Aimanon, os Deuses deram o rio e os peixes de presente para os homens, não fique assim, para nos mantermos vivos e orar, precisamos nos alimentar e os peixes foram criados apenas para nos alimentar.
   Ouvi, mas não me convenci, minhas pernas tremiam e só a visão da grande caixa azul fazia meu estômago revolver, prestes a devolver todo o almoço recém ingerido.  Foi ai que ouvi a voz pausada de Menéas, dizendo :
   – O mais sábio de todos os sábios criou esta terra e tudo que nela está contido, desde os homens, até as montanhas, os rios, os mares, os pássaros, as cabras, as macieiras, o solo, a chuva,  e cada parte tem sua função.  O solo recebe e transforma as sementes em grandes árvores que um dia nos dará frutos e nos alimentará.  A chuva rega a plantação para que o solo possa fazer a semente se desenvolver.  A noite trás o sono que restabelece as forças.  O dia trás o ânimo para trabalhar.  Enfim, nada que vemos e usufruímos foi criado em vão, tudo tem um motivo e o motivo dos homens estarem aqui é serem justos e cuidarem de sua família, mas para isso o alimento é essencial, e os peixes, assim como os pessegueiros, as cabras, a mostarda, o trigo, foram criados pelo grande sábio para que pudéssemos nos manter vivos e principalmente auxiliar nossos filhos a serem justos e caridosos.

continuação…


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