Constantinopla-5

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   Eu e Múrcio ouvíamos as palavras de Menéas com muita atenção e embevecidos com sua sabedoria.
   Múrcio era um bom homem, mas pouco afeito a entender as coisas que fugiam de seu conhecimento, portanto para ele a explicação era :  –  Os peixes, como sendo presentes dos Deuses não poderiam ser recusados com a pena de sofrermos castigos inimagináveis.  Este era seu olhar, e assim prosseguiu, mas eu me vi diante de algo que incitava minha imaginação, pois conclui que tudo que me rodeava tinha um motivo de estar ali, e mais, as marés, as fases da lua, as estações do ano, tudo me pareceu colocado corretamente e sempre encontrava um motivo para a existência de tudo que pudesse imaginar.  Este ensinamento me acompanhou durante toda minha vida e quando pensava nisso, só me vinha à mente agradecer a sabedoria e a boa vontade do Grande Deus em nos dar uma terra tão acolhedora e perfeita.
   Instantes após as explicações dadas por Menéas, meu coração se aquietou e ao olhar para o fundo do barco de Múrcio e ver os peixes pouco a pouco parando de se movimentar já não mais senti a angústia dos primeiros momentos.  Meus olhos visualizaram meus irmãos se alimentando e minha mãe e minha avó, felizes e orgulhosas por eu poder substituir meu pai na tarefa de suprir meu lar.
   Múrcio nos disse :
   – Aimanon , em nome da amizade que sempre nutri por Simeão, seu pai, gostaria de te ajudar.  Amanhã, às três horas, antes do sol raiar, parto para mais um dia de trabalho, peça autorização para sua mãe e se assim você o desejar, esteja aqui neste lugar antes deste horário que terei muito prazer em ensiná-lo a manejar a rede e o artemeio para que possa se iniciar na profissão.
   Menéas deu um tapinha em minhas costas e disse :
   – Você está em boas mãos, guarde este material em minha casa e pegue amanhã, pois agora tudo isto é seu.  Vá para casa, e conte seu dia à sua mãe e avó, quando a noite cair, ore para o Grande Deus que te auxiliará a ser um grande pescador.
   Ao ouvir estas palavras e sentir o amor destes dois homens, caí em choro convulsivo que havia contido durante todos os últimos momentos de dor e dúvida quanto ao futuro.
   Menéas me abraçou forte e disse :
  -Aimanon, não tema, o futuro lhe será muito benfazejo, enxugue as lágrimas e vá para casa.
   Abracei e agradeci Múrcio e Menéas,  parti.  Durante o trajeto, os últimos acontecimentos não me saiam  da mente: a caixa azul, os peixes pulando, o barco de Múrcio, a grande rede.  Sei que estava feliz, o auxilio veio como que enviado por alguém que gostava muito de mim e de meus irmãos.  Ao longo do caminho chorei de felicidade, protestei a separação de papai, mas principalmente agradeci ao Grande Deus, que sabia ser o responsável pela solução de nossos temores.
   Ao avistar a casa, vi Mirna em companhia de Catarina e vovó cuidando das plantas que emolduravam o jardim, uma sensação de leveza e dever cumprido me invadiu, apressei os passos, já passava das três horas da tarde e o calor estava escaldante, mas passei a correr, quando cheguei ofegante, vovó se assustou, mas no momento seguinte percebeu minha alegria.  Entramos todos, Catarina me ofereceu um copo de água fresca, mamãe preparava a refeição da tarde, Antron e Lucius cuidavam de Triciana, me sentei na cadeira de papai e disse:
   – Tio Elifas me deixou na casa de Menéas pela manhã!
   Todos me olharam, mamãe retirou o milho do pequeno fogão à lenha e falou:
   – Aimanon, já sabemos disso, pois foi para isso que seu tio Elifas perdeu seu dia de trabalho.
   Ela estava visivelmente ansiosa e apreensiva, pois ninguém podia imaginar o quanto estava sendo forte para superar seus medos e concordar com a idéia de eu me tornar um pescador.  Mamãe, ao contrário de minhas tias e tios, foi a única que guardou sequelas do acidente ocorrido com meus avós, talvez porque era muito menina e não teve tempo de receber mais amor e carinho de seus pais, ao contrário de seus irmãos, que na época eram adultos e muitos já casados e com filhos, como Tio Elifas, Tio Naum, Tio Tarcilio e Tia Mirna.  Tenho três tios grandes pescadores, hoje já não pescam no Rio Nilo, mas sim no mar, onde ficam meses sem voltar, mas quando chegam, é sempre uma festa, todos se reúnem na casa de Tio Nuno e festejamos o dia todo, mas mesmo assim, mamãe reza todos os dias por eles, para que o Deus que rege as grandes tempestades e os ventos não permita que  atinjam seus barcos.
   Neste momento senti que ela sofria, pois nunca imaginou que seu filho mais velho fosse se tornar um pescador, como seus irmãos, pois sempre desejou que aos dezesseis anos eu partisse para a Grécia para estudar e ser médico de homens, agora ela foi colocada frente à frente com sua maior inimiga, a dor da perda e tinha que ser forte para enfrentá-la com brios.
   Todos se sentaram nas esteiras que espalhavam-se ao redor do cômodo humilde, eu sentado no centro ocupando a cadeira de papai, contei todos os detalhes do meu dia, omiti apenas meus sentimentos de insegurança e minhas lágrimas de desabafo.  No final do relato, mamãe disse:
   – Aimanon, durma cedo e descanse. Amanhã te acordarei para que vá ao encontro de Múrcio.  Tenho certeza que está em boas mãos, seu pai o tinha como seu melhor amigo, e não deixe de agradecer a Menéas pelo valioso presente.
   – Não tenha medo, eu e sua avó pediremos proteção aos Deuses.
   Meu irmão Antron se levantou e disse que enquanto estivesse pescando, ele cuidaria da família.  Eu olhei para  aquele menino de onze anos que ainda tinha medo de escuro e o senti mais maduro e ciente do momento difícil que todos nós atravessávamos.
   Após minhas colocações, senti a tranquilidade invadir todos os corações.  Vovó Celina se aproximou, me abraçou como nunca havia feito antes.
   – Aimanon, meu menino, nunca se esqueça que nossa família é o que de mais importante você possui e todos nós, inclusive Mirna e Triciana que pouco entendem do que esta acontecendo, te desejamos muita força e a partir de agora você se transforma no guardião desta família, pediremos aos Deuses que jamais te esqueçam.
   Eu não me contive, me emocionei e chorei abraçado nesta sofredora mulher, cuja vida tem sido tão traiçoeira, mas com a força de seu caráter sobreviveu e agora se dispõe a me guiar e apoiar nesta nova etapa totalmente desconhecida, onde eu, por força do destino terei que superar todas as dificuldades que se avizinham.
   Neste momento, Triciana chorou e voltamos aos nossos afazeres.  A refeição da noite foi servida mais cedo, após ajudar mamãe a limpar o fogão e separar a louça suja para ser lavada no rio pela manhã, orei ao Grande Deus, como nunca tinha feito, parecia estar conversando diretamente com um velho amigo, fiz muitas pausas e ao me colocar em silêncio absoluto, ouvia uma voz que saia de dentro de mim, ela me dizia para não ter receio de nada, se tiver vontade eu conseguirei ser um grande pescador.  Adormeci com um sorriso nos lábios e acordei apenas quando minha mãe me chamou, era uma hora da madrugada, nunca em minha vida havia acordado tão cedo, mas não titubeei, me levantei apressadamente da esteira, lavei meu rosto, comi um pedaço de pão com leite de cabra e me pus a caminho, foram cinqüenta minutos até chegar à beira do rio, onde ao longe vislumbrava inúmeros vultos iluminados pela lua cheia.

continuação…


 

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