Mykonos-95

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    Silas naquela época era um rapaz na flor da idade, tinha dezessete anos e muitos sonhos, inclusive o de formar uma família. Em uma certa ocasião, durante o último verão, em um domingo de sol, quando todos os membros da Comunidade aproveitavam o final da tarde, cada um a sua maneira. Jonas sentou-se diante do pequeno altar que ficasse atrás da Grande Pedra, fechou os olhos, aproveitando a brisa suave que vinha do mar, de repente, sentiu que não estava sozinho –  era Pilar, uma de suas netas preferidas. Desde bebê ela lhe transmitia um carinho indescritível, era um pouco mais velha que Anita e  quando esta se foi, ele se aproximou muito mais da garota, que desobedecendo as ordens da mãe, sempre dava um jeito de visitar o avô. Neste dia não foi diferente, sabendo que Jonas se encontrava em seu lugar preferido, correu para lhe dar um abraço.  Assim que percebeu que era ela, Jonas abriu um largo sorriso e a abraçou carinhosamente.
    A garota disse feliz:
    – Vovô, estava com muitas saudades, mamãe anda cada vez pior, agora deu para me vigiar, ela sempre diz que nós não podemos nos misturar com aqueles… bem, não vou dizer porque o que ela pensa não é o que eu penso. Eu te amo!
    E o abraçou novamente. Jonas, visivelmente emocionado falou:
    – Querida, sempre que você precisar de alguma coisa é só me pedir, que eu sempre estarei aqui para te ajudar, e o mesmo posso garantir de seus tios, eles te amam e aos seus irmãos.
    Pilar abaixou a cabeça parecendo que uma nuvenzinha escura invadiu seus pensamentos. Jonas percebendo a mudança de comportamento da menina, falou:
    – Se você quer me dizer alguma coisa, pode falar, vovô fará o possível e o impossível para ver o seu rostinho sempre iluminado com um sorriso.
    Após um longo suspiro, Pilar disse tristonha:
    – Vovô, eu já tenho idade para me casar e até agora não encontrei ninguém que pudesse ser meu marido, não quero ficar como Piedade, solteira e chata.
    Jonas chegou a se assustar com a queixa da neta, ele jamais tinha imaginado que estava chegando a hora de seus netos formarem suas próprias famílias. Aquela colocação da menina deixou Jonas muito intrigado, pois naquela época não se temia a consanguinidade, era comum primos casaram-se com primos, mas em se tratando de uma Comunidade tão pequena, com membros que não se entendiam entre si, seria mesmo muito difícil que jovens em idade de se casar pudessem encontrar um parceiro para iniciar sua trajetória como progenitores de outros jovens, que por sua vez fariam com que a Comunidade da Grande Pedra crescesse e  se tornasse cada vez mais próspera. O cenário era aterrador, o futuro se descortinava como  uma involução nos sonhos dos grandes amigos, que partiram da Itália na esperança de encontrar um pedaço de terra que pudessem instalar suas famílias e prosperar em busca de uma vida equilibrada e feliz. Este pensamento levava Jonas a concluir que a sua Comunidade estava fadada a desaparecer.
    Naquela manhã, antes de pedir que Mariane chamasse Albertinho, Silas e Percilio para uma conversa reservada, Jonas orou muito, pediu que o Grande Deus fosse benevolente com seu povo e lhe mostrasse o caminho a seguir. Era certo que a iniciativa de Percilio em por fim a tantas intrigas e desavenças tinha sido um bálsamo em suas preocupações, mas mesmo assim, algo ainda o incomodava.
   Após orar e tentar se conectar com seu pai, Jonas adormeceu profundamente, estava sozinho em sua caverna, e aquele momento, que durante tantas oportunidades passadas tinha sido interrompido por interferências alheias a sua vontade, aconteceu naturalmente. Ele se viu no Jardim Encantado, estava caminhando ao longo de uma belíssima alameda, ladeada de flores de todas as tonalidades e perfumes. Os passarinhos entoavam notas afinadíssimas como regidos por um inspirado maestro. Jonas se deixou levar pela beleza do cenário e respirando profundamente sentia como que embalado por uma energia que lavava todas as preocupações de sua mente, tornando-as simples detalhes sem importância. Após alguns minutos de enlevo absoluto ele percebeu que vinha em sua direção, o mesmo senhor que em outras ocasiões se apresentou como Iane, seu pai em Constantinopla. Jonas percebeu claramente que não tinha necessidade de articular as palavras, mesmo distante ele conseguia “conversar” com o velho ancião apenas através do pensamento. Esta foi a saudação que ouviu:
    – Filho, que prazer recebê-lo novamente em nosso paraíso! Espero que desta vez possamos conversar com mais tranquilidade.
    Jonas, como que banhado por uma alegria indescritível, disse:
    – Senhor, eu sei que tudo isso é real. O Grande Deus tem muitas surpresas a nos apresentar, e eu, humildemente peço que possa fazer jus ao privilégio de ser recebido aqui, neste lugar paradisíaco.
   Sorrindo serenamente, Iane respondeu:
    – Está chegando a hora de todos os intermediários do Grande Deus concretizarem o plano maior de espalhar o Amor em todas as direções. Breve, ele nos enviará aquele que nos ensinará tudo que deverá  ser feito para que no futuro distante os filhos merecedores possam voltar a Casa dos Céus.
    Jonas estava embasbacado com tanta sabedoria traduzida através da humildade e da complacência, após alguns segundos de reflexão, perguntou:
    – Entendo perfeitamente o que o senhor quer dizer, mas vivo em uma Comunidade onde o que sobrepõe não é o amor e sim a desarmonia, como eu poderia auxiliar o Grande Deus a espalhar o amor?
    Iane soltou uma gargalhada deliciosa, respondeu sem rodeios:
    – Jonas, eu sei muito mais de sua vida do que você próprio, também sei que tenta com todas as forças espalhar a concórdia entre os moradores da sua Comunidade. E sabe porque não está conseguindo?
    Jonas balançou lentamente a cabeça, sinalizando que não sabia, ao mesmo tempo que um flash atravessou sua consciência, lembrou-se do dia que Joninho lhe pediu que permitisse que desmanchasse o compromisso com Laurinha e ele negou.
    Como que lendo seus pensamentos, Iane completou:
    – Meu amigo, você está totalmente errado, seu filho Joninho casou-se com a pessoa certa, esta mulher nasceu para lhe trazer muitos ensinamentos e assim o fez.
    – O motivo de tantas desavenças nada mais é que ajustes de espíritos que em outras vidas construíram muros em seus relacionamentos com seus filhos, com suas esposas, com seus pais. Sob esta verdade, tudo que ocorre na Comunidade é aprendizado para todos os envolvidos, inclusive para você.
    Jonas levou um susto, lembrou-se imediatamente de Joninho e sua dificuldade em amá-lo. Iane prosseguiu.
    – Exatamente isso que pensou, seu filho mais velho foi em uma vida anterior a esta, seu sobrinho. Ele perseguiu sua filha Suzana, à ponto de ter sido preciso trazê-lo de volta ao nosso convívio, pois não tardaria, ele tiraria a vida de Aimanon, o rapaz escolhido por Suzana para ser seu marido e pai de seus filhos naquela vida.
    – Grande Deus!! Exclamou Jonas. Então Suzana foi minha filha?
    – Sim Jonas, e Aimanon é Percílio! Disse Iane.

continuação…

 

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