Mykonos-94

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     Percilio conversou longamente com Jonas, abordando inclusive, o assunto da voz que o orientou durante o encontro. A muito, pai e filho, já não tinham mais segredos com relação a interação espiritual que ocasionalmente os intuia. Jonas acreditava piamente em todas as colocações do filho, ele mesmo, já tinha tido provas incontestáveis que eram verdadeiras. Apenas lidava o assunto com cuidado para que não chegasse aos ouvidos de quem não tinha condições de compreender, assim como faz até hoje.
    Ficou combinado que Jonas conversaria com seus irmãos e pediria que eles não estranhassem o comportamento de Laercio e Rute, pelo contrário, tentassem colocar mais lenha na fogueira. O mesmo faria com Mariane e Mirla, pediria que as duas começassem a revidar todas as posturas ruins que normalmente ocorriam partindo das três mulheres. Para todos, seria dito que era um plano para devolver a paz a Comunidade.  É óbvio que ninguém entenderia direito, mas breve os resultados seriam colhidos, e aí, todos aplaudiriam.
     Assim que chegou a caverna de sua avó, Rute pediu que sua prima Pilar a encontrasse no local que costumavam conversar pois tinha um assunto muito importante para colocá-la a par. Assim que se desvencilhou dos trabalhos exigidos pela mãe, a jovem correu para o lugar combinado. Rute já a esperava, contando os minutos para contar-lhe a grande novidade.
    Na Grande Pedra, um pequeno reboliço, Mirla disse para Jonas que não haveria problema nenhum, a muito ela tinha vontade de se contrapor as maluquices da cunhada. Mariane, por outro lado, mais quieta e sempre disposta a conciliar, falou que não conseguiria, no fundo, ela tinha medo das duas irmãs, no passado ela chegou a discutir pesadamente com Laurinha e não queria reviver o acontecido.
   Jonas a abraçou, concluiu dizendo:
    – Não tem problema filha, você se afaste o máximo que puder, apenas observe o circo pegar fogo.
    Os moradores da Comunidade que eram próximos à família Massina e se incomodavam com tantas desavenças, foram convocados a auxiliar. Ana disse que não era sem tempo. Ela sempre achou que tantas brigas eram consequências de atitudes incorretas tomadas em outras vidas, mas isto sempre guardou para si, nunca ousou fazer esta afirmação a ninguém, até mesmo a Rafael.
     O movimento feito por Percilio em direção a trazer um novo clima ao relacionamento de todos, não tardou a mostrar benefícios. A alegre conversa que Pilar e Rute travaram, vibrou com tanta intensidade que um flash explodiu na mente de Silas, ele viu claramente o rosto de Pilar em sua tela mental. Naquele momento, estava em sua caverna conversando com seu pai. Albertinho achou estranho o filho parar de falar de repente, fechar os olhos, respirar fundo e aquietar-se.
   Perguntou curioso:
    – Filho, o que aconteceu? Porque está tão quieto?
    O rapaz, abriu os olhos, disse:
    – Papai, preciso te confessar um segredo. Eu sei que o senhor pode achar estranho, mas ultimamente ando tendo umas coisas esquisitas, de repente, eu vejo o rosto de uma moça na minha mente.
    Albertinho, imediatamente pensou que o filho também pudesse ver os mortos como ele e se assustou. Perguntou com cuidado:
    – Mas como assim, na sua mente?
    – Eu não sei como isto acontece, eu estou tranquilo, conversando com alguém, como agora, e de repente uma imagem aparece em minha mente.
    – Esta parte que eu não entendi, você vê ou não vê? Perguntou Albertinho, cada vez mais intrigado.
    – Papai, na verdade eu não vejo na minha frente, é como se fosse uma lembrança, uma recordação, na verdade, eu me lembro desta pessoa, e eu, visualizo claramente o  rosto dela, mesmo de olhos fechados!
    – Mas então, se você se lembra, você a conhece? Perguntou o pai curioso.
    Silas achou estranho a insistência de Albertinho, mas naquela época quando os pais não se preocupavam muito em esclarecer os filhos a respeito dos mistérios da vida, da morte, do Criador, qualquer assunto que saísse do trivial trazia muitos questionamentos, e ao mesmo tempo, a falta de vontade de se aprofundar muito, com receio do que poderia surgir. Albertinho era um pai amoroso, mas as agruras do sofrimento da trajetória como médium o deixou avesso a tentar entender mais sobre este e outros assuntos, ao contrário de Percilio que sempre levou seus questionamentos a Jonas, a Claudius, ou até mesmo a Sara e Hipólito. Era clara a diferença entre os dois médiuns.
    Albertinho quase sempre recolhido a sua caverna, marcando seu trajeto da lida para a Grande Pedra diariamente sem maiores interrupções, a não ser, em algumas ocasiões, quando Jonas o convocava para participar das reuniões para afastar as energias densas que insistiam em se acoplar na aura de alguns moradores e pacientes de Percilio e Claudius. Ele sempre atendia o chamado de bom grado, se dispondo a auxiliar, mesmo não sabendo exatamente os meandros deste maravilhoso trabalho.
    Passados alguns instantes em que Silas meditou sobre a resposta que daria ao pai, ele exclamou:
    – Pai, como podemos saber quando estamos apaixonados por uma mulher?
    Abrindo um largo sorriso, o sobrinho de Jonas disse:
    – Filho!! Você está apaixonado? Então é essa pessoa que você “vê”, sem ver?
    Encabulado, Silas fez a seguinte colocação:
    – Se eu estou perguntado ao senhor como saber quando estamos apaixonados, é porque eu não sei exatamente o que está acontecendo, esta, pode ser uma possibilidade.
    Albertinho, como que tocado por uma mão invisível, disse amorosamente ao filho:
    – Um dia, seu falecido avô me disse que todos nós estamos imersos em um mar de energia que une ou afasta uns dos outros, o pensamento é o condutor desta energia, aqueles que pensam como a gente, se unem a nós, aqueles que pensam diferente, se afastam, ou nos transmitem sentimentos ruins.  Quem sabe, esta pessoa que você se lembra em alguns momentos, não estava pensando em você também naquele instante?
    Silas se surpreendeu com a simplicidade colocação de seu pai, isto explicava aquelas imagens misteriosas que apareciam repentinamente em sua mente. Nas primeiras vezes que isto aconteceu, ele não conseguia ver claramente o rosto da pessoa, sabia apenas que se tratava de uma mulher, pelos longos cabelos e pelo ar delicado. Foi apenas neste dia que a imagem apareceu tão clara que ele conseguiu reconhecer quem era: Pilar.
    – Agora, resta saber, se ela também pensa em mim me aproximando ou me afastando.
Disse Silas, como que conversando consigo mesmo.
    Neste momento, Clotilde, esposa de Albertinho, interrompe a conversa. Diz que Jonas, através de Mariane,  pediu que os dois fossem até ele para conversarem um pouco sobre assuntos da Comunidade. Silas, curioso, disse:
    – Que estranho! O que será que tio Jonas quer nos dizer?
    A mãe, sempre tentando auxiliar, falou:
    – Filho, perguntei para Mariane, mas ela me disse para pedir que vocês fossem agora que logo saberiam.
    Tanto Albertinho, como Silas, levantaram-se rapidamente e sem dizer palavra tomaram rumo da caverna de Jonas. No caminho, encontraram com Percílio que se dirigia ao mesmo local. Chegando lá, Jonas pediu que os três se acomodassem, pois a conversa seria longa.

continuação… 

 

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