Mykonos-93

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    Ele começou dizendo:
    – A muito aguardava esta oportunidade, nós estamos sendo conduzidos a nos unir para trazer a união definitiva. Meu amigo Laercio, foi o Grande Deus que nos reuniu aqui, neste finalzinho de domingo, para testar se estamos em condições de querer realmente promover a paz e a concórdia entre os moradores desta maravilhosa Comunidade de Amigos de longa data.
    Rute ficou encantada com as palavras do líder, a muito o admirava por sua força em conduzir o dia a dia com sabedoria e firmeza, mas por outro lado, nunca conseguiu expressar sua opinião e a oportunidade finalmente se fazia apresentar. Ela disse emocionada:
    – Primo, apesar de não sermos da mesma família, eu o considero como alguém muito especial, que me traz força e segurança, é como se já nos conhecêssemos a muito tempo, mais até do que o tempo que moramos nesta Comunidade.  Se você está me convidando para participar de um plano que coloque um fim definitivo em tantas brigas, tantas ordens de não se poder conversar com este ou aquele morador, pode contar comigo, estou pronta a ajudar.
    Apesar de Percilio ter se dirigido diretamente a Laercio, ele ficou muito feliz de Rute ter sido a primeira a se manifestar, desde crianças eles se tratavam como primos, na época do nascimento dos dois não havia distinção entre  famílias, eram todos amigos e os filhos dos amigos consideravam-se primos uns dos outros. Ele tinha muito carinho por Rute, muitas vezes ouviu seus tios contarem as grandes contendas que ela travava com sua mãe e seus irmãos para impedir que as desavenças tomassem vulto.
    Laercio permanecia calado, pois se sentia reduzido a um verme diante da objetividade de sua filha, de maneira nenhuma ele queria que o atual cenário prosseguisse, mas não sabia como poderia ajudar, pois ir de encontro com o posicionamento de sua esposa, de sua sogra e de sua cunhada, era algo que se sentia incapaz de fazê-lo. Passado um longo tempo em que Percilio e Rute se mantiveram calados aguardando, finalmente Laercio balbuciou lentamente:
    – Não sei como poderei ser útil!
   Percilio levantou-se da pedra onde estava sentado, deu dois passos em direção ao amigo e o abraçou. Rute fez o mesmo. E os três juntos, abraçados, poderiam ser vistos a uma distância imensurável Universo afora, como um belíssimo ponto de luz iluminando uma vasta área, invadindo o mar, a floresta, as pedras e até as Comunidades próximas.
   Passado o momento de enlevo, os três novamente se colocaram em seus lugares e foi Rute novamente que tomou a palavra, olhando firmemente para seu pai, disse resoluta:
    – Papai, eu também não sei como poderei ser útil, mas tenho certeza que se é o Grande Deus que está conduzindo os acontecimentos, podemos ficar tranquilos, nós não teremos que fazer nada que aumente o sofrimento, pelo contrário.
    Rute virou o rosto em direção a Percilio, completou:
    – Não é primo?
    – Percilio, seguindo a orientação da voz feminina que o intuía, disse:
    – Sim prima, o Grande Deus cuidará de tudo!
    Laercio ainda se sentia desconfortável, o simples pensamento que poderia ter que ir contra o posicionamento de Luizinha, o deixava com calafrios.
    Como que lendo os pensamentos do pai, Rute argumentou:
    – Papai, o senhor sabe muito bem que esta situação não pode continuar, se isso ocorrer, não demorará que toda nossa família terá que buscar outro lugar para morar, tamanho o mal estar em que vivemos, então, tenha coragem e ouça o que o primo Percilio tem a dizer.
    -Tranquilizem-se, ninguém precisará contestar coisa alguma, pelo contrário, demonstrem que concordam com o que dizem as três mulheres – Laura, Luiza e Raquel. Logo, elas perceberão que não podem prosseguir fomentando tanta inimizade. O Grande Deus cuidará do resto.
    Percilio levantou-se, despediu-se dos amigos e seguiu seu caminho em direção a Grande Pedra, de repente, olhou para trás e disse:
    – Diga a Pilar que faça o mesmo!
    Passada a surpresa, Rute disse para o pai:
    – Como ele sabe que Pilar também se sente incomodada com esta situação? Pelo que sei ela nunca conversou com ele sobre isso.
    Laercio agora com as feições mais serenas, completou:
    – E como ele sabia que eu estava apavorado de ter que ir contra a opinião de sua mãe?
    – Papai, confie totalmente em primo Percilio, ele é alguém muito especial, acho até que conversa com o Grande Deus.
    Laercio deu um sorriso e disse:
    – Filha, aquela menina não me sai do pensamento, Sibila fez alguma coisa que deixou sua mãe mais bondosa, ela me pediu delicadamente que eu a acompanhasse até o riacho, minutos após ter saído de nossa caverna possessa porque a água escorria para dentro e por pouco não molhava a lenha.
    – Pai, eu sei disso, tanto Sibila quanto Celeste, tem algo que eu não sei exatamente o que é, quando me aproximo delas, sinto algo que  me parece ser alegria.
    – Rute, acho que poderemos descobrir, se nos dispusermos a auxiliar na união da Comunidade, mas o que eu acho estranho, é Percilio nos orientar a prosseguir concordando com as atitudes de sua mãe, eu não compreendo como isso poderá ser útil a conseguir o objetivo que queremos: a paz!
    A jovem pensou um pouquinho e logo uma luz se acendeu em sua consciência, respondeu:
    – Será que o motivo é elas começarem a entender que se todos nós começarmos a brigar sem limites não há como prosseguir morando aqui, até agora, eu, o senhor, alguns primos, e também vovô, antes de morrer, sempre tentamos  abafar as discordâncias, mas se pararmos de fazer isso, vamos ficar em uma situação insustentável, e com certeza elas terão que parar um pouquinho para pensar – Iremos para onde? E os grandes amigos que enfrentaram tantas dificuldades juntos, se separarão para sempre?
    – Eu acho que você tem razão, com certeza, Percilio com toda sua sabedoria, conversará com seus tios e com Jonas para que nos ajudem a manter este teatro. Eu sei que eles se sentem muito incomodados e tristes com tudo que tem acontecido na Comunidade nos últimos anos por conta destas desavenças intermináveis. Uma ocasião, Rubens veio conversar comigo a mando de Jonas e me pediu que eu conversasse com sua mãe e sua tia, eu prometi que tentaria, mas a falta de coragem sempre falou mais alto.
     Abaixou o rosto e uma lágrima furtiva escorreu dos olhos do rapaz. Rute, com ares protetores, abraçou carinhosamente seu pai, deu um beijo em sua face, e os dois, sem dizer mais nada, se despediram.
     Laercio tinha toda razão, naquele exato momento, Percilio batia a porta da caverna de Jonas para colocar seu pai à par do que tinha conversado com ele e com Rute. O antigo líder aplaudiu a decisão, este era um assunto que o deixava com um profundo sentimento de amargor, ele se culpava pela maneira que conduziu os acontecimentos que com o tempo saiu do controle. O casamento de Joninho e Laurinha tinha sido o estopim da confusão que se seguiu, quando imaginava que no dia que o rapaz lhe disse que não queria mais se casar com a filha de Jeremias e ele não permitiu, caso, tivesse refletido mais e considerado a vontade de seu filho nada teria acontecido, então, qualquer movimento em direção a concórdia e a boa convivência era motivo de muita alegria.

continuação…

 

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