Mykonos-72

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  Assim que todos os homens se refrescaram logo após chegarem de mais um dia de trabalho duro, Jonas se dirigiu a plataforma de areia que emoldura a entrada da Grande Pedra, subiu em uma pedra que despontava acima da linha de areia e pediu que os presentes chamassem o restante de suas famílias, pois ele só daria início a reunião quando todos estivessem presentes. O único morador que não participaria seria Josias, irmão de Jonas, que a muito estava acamado sofrendo de dores decorrentes de um reumatismo que insistia em castigar seu corpo. Sua esposa Nair, representaria a família, apesar que dias atrás Jonas já ter tido uma conversa reservado com ele e Rubens, os dois irmãos remanescentes da Família Massina que ainda viviam na Grande Pedra. Os irmãos concordaram plenamente com a decisão de Jonas em colocar seu filho mais velho para ocupar o posto que no momento era seu, o único porem foi a decisão irredutível de Percilio em ocupar a caverna de Joninho. Josias disse apreensivo:
  – Jonas, acho uma temeridade seu menino fazer isso, as forças sobrenaturais são invencíveis, o Grande Deus é sábio, mas existem coisas que ainda não temos o controle, acredito que não devemos nos colocar em posição de querer enfrentar algo que não conhecemos, mas sabemos que existem. Neste caso, eu concordo com Laurinha.
  Rubens inicialmente ficou em silêncio, pensou um pouco, e completou pausadamente, já que Jonas digeria as palavras do irmão e não conseguia dizer nada em oposição as colocações de Josias.
  – Irmãos, preciso fazer uma confidência, ou melhor, contar um segredo, que jamais compartilhei com ninguém.
  Jonas e Josias, olharam para Rubens curiosos, era a primeira vez que ele se colocava em posição de revelar algo que o restante da família não tinha conhecimento. Josias prosseguiu:
  – No dia que Anita, D.Ítala e os meninos foram mortos pelos bárbaros, eu fui trabalhar na plantação com a sensação que algo estava prestes a acontecer. Uma angustia tão profunda me invadiu que cheguei a vomitar. Quando recebi a notícia do fim trágico de minha família, eu entendi que tudo está conectado, com certeza eu senti as dores que eles sentiram.
  – O que eu posso dizer com relação a intenção de meu sobrinho de se mudar para a caverna mal-assombrada é que ele precisa pensar duas vezes, não se deve mexer com forças invisíveis, que com certeza existem. O simples fato de muitos moradores afirmarem que Joninho não se afastou de sua antiga caverna já é um motivo para Percilio recuar, mesmo não acreditando.
  Enquanto Jonas absorto pensava na conversa que tivera com seus dois irmãos, Albertinho, o filho do irmão Alberto que falecera logo após se mudarem para Grande Pedra se aproximou, tocou no ombro do tio, pedindo sua atenção.
  Jonas chacoalhou a cabeça, como que tentando afastar os pensamentos que insistentemente invadiam sua mente, olhou para o sobrinho, que agora já era um homem, pai de família, disse:
  – Pois não Albertinho, sou todo ouvidos, enquanto todos não se reunirem, não começo a reunião.
  Albertinho assentiu com a cabeça, falou:
  – Tio, ontem à noite conversei com Tio Josias que me contou sobre a intenção de primo Percilio de morar na caverna de Joninho.
  Neste momento, o rapaz é interrompido pela chegada de Percilio e Lêntulo, que parecia bastante contrariado. Jonas, percebendo que algo não ia bem pediu a palavra, dizendo:
  – Lêntulo, Albertinho, já sei o motivo de tanta preocupação, gostaria que vocês dois, se unissem a mim e tentassem demover da cabeça de meu filho mais velho esta ideia descabida de se mudar da minha caverna.
  Olhou com firmeza nos olhos de Percilio e disse:
  – Filho, apenas ouça, não se precipite, caso você prossiga com esta decisão, pelo menos se sinta alertado.
  O primeiro a falar foi Lêntulo:
  – Papai, eu já disse tudo que tinha a dizer mas ele não me escuta, esta noite sonhei com mamãe, que pediu que ele fique onde está, o sonho foi tão real que até senti o perfume do chá de  menta que invadia nossa caverna todas as manhãs.
  A seguir Albertinho pediu a palavra, mas desta vez, Percilio retrucou:
  – Primo, eu tenho muito apreço por nossa amizade, mas se você vai dizer que já viu Joninho entrando ou saindo daquela caverna peço que não diga nada, a decisão já está tomada.
  Albertinho sentiu seu rosto ruborizar, para ele era muito difícil falar do dom de vislumbrar espíritos que ele trazia desde criança, mas desta vez, se muniu de toda coragem porque sabia que seu primo estava dando um passo em falso e queria ajudar. A conversa se encerrou quando Rafael anunciou que todos já estavam reunidos.
  Percilio se dirigiu lentamente para o local onde seu pai faria a comunicação para todos os moradores, se colocou ao seu lado direito e esperou impassível as primeiras palavras do atual líder da Comunidade.
  Jonas pigarreou, a muito tempo sua voz sofria com uma sequência de inflamações na garganta que não havia meio de deixá-lo. Começou dizendo:
  – Meus amigos, a muito desejo conversar com vocês sobre a minha permanência como líder desta Comunidade. Relembro tantos anos de dificuldades, mas hoje parece que tudo já foi superado, temos o suficiente para viver com dignidade, nada nos falta, a não ser mais espaço para acomodarmos melhor os novos moradores da Grande Pedra.
 Neste momento, Laurinha, que ouvia tudo ao longe, absolutamente calada, disse para que todos pudessem ouvir:
 – Jonas, fiquei sabendo que seu filho Lucas pretende morar na caverna onde eu e Joninho vivemos, tenha certeza que acho isto um disparate, o responsável pela morte de meu marido não pode se mudar para lá como se nada tivesse acontecido.
 Após estas afirmações, fez se um silêncio mortal, ninguém ousava dizer nada, até mesmo Jonas, não teve nenhuma reação; mas Percilio, por sua vez, deu um passo à frente, olhou firmemente na direção onde se encontrava a cunhada e falou:
 – Laura, não me incomodo que me chame de Lucas, afinal, você não conhece mesmo Percilio. Prosseguiu.
 – Em primeiro lugar adianto que aceitei ser o novo líder da Comunidade, prosseguirei o trabalho que a anos está nas mãos de meu pai, a não ser por aquele período de tempo em que meu irmão Joninho assumiu esta tarefa e todos se recordam muito bem o que aconteceu.
 Laura e sua família ouviam como que paralisados, ela não esperava uma reação tão firme e serena. Percilio agora se dirigindo a todos os presentes, continuou:
 – Como todos sabem e concordaram, nada do que temos é propriedade pessoal de quem quer que seja, tudo é de todos, desde o fruto do nosso trabalho até as moradias que ocupamos, portanto, em comum acordo com meu pai decidi mudar-me com minha família para a caverna que foi de meu irmão. Excetuando-se Laura, que a partir do momento que se mudou para a caverna ocupada por seus pais perdeu o direito de opinar sobre o destino de sua antiga caverna; se alguém tiver algo a dizer a respeito desta minha decisão fiquem à vontade para tomar a palavra.

continuação….

 

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