Mykonos-69

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   Mariane, ainda tomada por uma letargia incomum, disse em voz baixa:
   – O bebê nasceu, é uma menina linda e saudável!
   Tereza deu gritos de alegria, contagiando a todos que se dispuseram a comemorar. Assim que ouviu a novidade, Laurinha, sem dizer palavra, se afastou abruptamente, sendo acompanhada por Raquel e Luizinha. Sibele, que nos últimos dias se tornou “amiga intima” das três mulheres, não repetiu o mesmo gesto, mesmo porque, Mirtes era sua filha. Ao receber a notícia que a criança tinha nascido bem, respirou aliviada. Temia que algo acontecesse a jovem, pois, mesmo sendo uma mãe interesseira e muitas vezes relapsa, ela a amava profundamente.
   A tarde já ia alta quando os homens retornaram da plantação. Algumas horas antes Percilio havia chamado seus irmãos, Cirilo e Lêntulo, para uma conversa reservada. Foram até a praia, onde não seriam incomodados, nem observados por olhares curiosos, durante o trajeto Percilio percebeu que Lêntulo tropeçava muito, dando a impressão que não enxergava por onde pisava, fato este, que só mais tarde seria alvo de uma conclusão óbvia, mas por hora, creditou a falta de cuidado de seu irmão caçula ao caminhar. Lêntulo era o mais curioso dos dois irmãos, pensou até em não aceitar o convite do irmão, pois passou por sua cabeça que a tal conversa se referia ao fato que ele não estava indo trabalhar na plantação.
  Assim que chegaram ao local onde os habitantes da Comunidade da Grande Pedra utilizavam quando algum entrave precisava ser corrigido, Percilio pediu que seus dois acompanhantes se sentassem. Após todos se acomodarem, disse:
   – Como sabem, hoje nasceu minha segunda filha, Anita, esta menina me trouxe muita força e energia, que gostaria de utilizar para conduzir a Comunidade, em substituição a papai, que a muito aguarda uma decisão minha.
   – Mas antes de qualquer decisão definitiva, preciso saber a opinião de vocês dois, meus irmãos. Concluiu Percilio.
   O primeiro a falar foi Cirilo.
   – Irmão, fico muito feliz que você tenha tanta consideração por nós dois, afinal você é o mais velho e não precisa de nossa autorização.
   Percilio insistiu em ouvir a opinião de Cirilo, que respondeu:
   – É claro que minha opinião é que você deve assumir este lugar, que é seu de direito, papai já está ficando idoso, e tanto eu, quanto Lêntulo, não temos aptidão para ocupar um cargo que demanda tanto empenho e sabedoria.
   Lêntulo apenas sorriu e nada disse. Balançou a cabeça, concordando com a colação do irmão. A seguir, os três irmãos se abraçaram como nunca tinham feito nesta vida. Os três sabiam que o abraço triplo selava um pacto de amor e amizade cultivado por anos a fio e que nem a separação forçada foi capaz de sequer arranhar.
   Jonas caminhou de volta  para a Comunidade preocupadíssimo, algo lhe dizia que novidades o aguardavam, temia que fossem ruins. Na plataforma de areia muitos moradores estavam sentados nas pedras que pontuavam em diversos pontos. O grupo de trabalhadores que encerravam o dia de trabalho, apressou os passos ao ver aquela cena incomum, mulheres e crianças reunidas como que se estivessem aguardando algo. Jonas se recordou do dia que pisou pela primeira vez na Vila Cantar e viu a mesma cena, moradores sentados em bancos defronte a uma casa da pequena vila. Posteriormente ficou sabendo que aguardavam o desenrolar de um quadro de saúde gravíssimo que acometia uma das moradoras. Um arrepio percorreu sua espinha. Estava tão absorto em seus pensamentos que não viu seus três filhos, que voltavam da praia, o chamarem. Foi Rafael que o alertou, dizendo:
   – Amigo, olha lá atrás, Percilio, Cirilo e Lêntulo estão te chamando, acho que querem conversar com você.
   Após agradecer, Jonas se afastou do grupo e caminhou rapidamente em direção aos três filhos, que aguardaram. Percilio foi o primeiro a falar, disse:
   – Pai, nós três precisamos te comunicar uma decisão que acabamos de tomar.
   Jonas olhou desconfiado para os três rapazes e uma invasão de pensamentos assolou sua mente, buscando descobrir que decisão era aquela. Falou lentamente:
   – Meus filhos, vocês sabem muito bem que não sou mais um jovem como vocês, peço que ponderem antes de me dizer que decisão é essa.
   Lêntulo abriu um sorriso encantador, disse:
   – Pai, hoje é um dia muito especial, o senhor ganhou uma linda neta e nosso irmão Percilio acabou de decidir por assumir definitivamente o comando da Comunidade, assim o senhor não precisará mais trabalhar tanto.
   A muito Jonas aguardava esta decisão, mas nos últimos meses já havia se conformado em não mais ver seu grande desejo realizado, pensava até em passar a liderança da Grande Pedra para um de seus sobrinhos, pois tanto Lêntulo como Cirilo não tinham interesse em ser o novo líder e seus irmãos Josias e Rubens já haviam dito que esta responsabilidade não era para eles.
  Jonas olhou ternamente para o filho mais velho, suplicou em um fio de voz:
  – Obrigado filho!
  Percilio ficou tão emocionado que uma lágrima furtiva teimou em escorrer por sua face.
  Nada mais foi dito, eles apenas tomaram o rumo da Grande Pedra. Lá chegando, o velho líder percebeu que algo havia mudado, uma energia diferente parecia envolver todos os moradores. Estou ficando maluco, pensou ele.
  Após conhecer sua nova neta, Jonas pediu que Cirilo convocasse uma reunião com todos os moradores da Comunidade, queria selar definitivamente a decisão do filho. Não foi difícil reunir todos, pois muitos ainda se concentravam em frente a Grande Pedra, parecendo que uma convocação invisível já havia sido determinada, apenas a família de Laurinha e Luizinha fizeram-se de rogados afirmando que não iriam, mas a curiosidade falou mais alto, por fim, todos apareceram.
  Quando quase todos já estavam reunidos, Cirilo pediu que Mariane chamasse o pai, pois ele iria procurar Sibele, que cheia de dedos, tentava se passar a mais imperceptível possível, naquele momento, ela caminhava na beira da praia, pensando em como sua vida dependia da boa vontade do genro. Depois de muito procurar, Cirilo avistou-a e imediatamente pediu que retornasse, pois seu pai queria conversar com todos os moradores, em especial ela, que era diretamente interessada no que ele ia dizer. Cirilo falou isso, pensando no fato que ela era sogra de Percilio e ficaria feliz com a notícia, mas ela entendeu exatamente o contrário, imaginou que seria expulsa da Comunidade, começou a gritar e a correr em direção ao mar. Tudo foi tão rápido, que quando o rapaz percebeu já não podia fazer mais nada, o corpo afundou e desapareceu, sem nem ao menos voltar uma única vez que fosse.
   Cirilo ficou atônito com o que aconteceu, demorou para se recuperar, ainda tentou mergulhar mas percebeu que mais nada podia fazer, ela estava morta. Voltou rapidamente para avisar o pai do que tinha acontecido, mas assim que chegou, todos o aguardavam, ninguém tinha percebido a ausência de Sibele.
   Jonas o olhou com austeridade, disse:
   – Aonde você se meteu Cirilo, estávamos todos te esperando.
   O rapaz passou direto, nem ao menos ouviu o que o pai tinha dito, Percilio correu atrás do irmão, segurou-o pelo braço e percebendo o estado de descontrole que ele se encontrava, conduziu-o para a caverna de Mariane que naquele momento estava vazia, perguntou:
   – Que bicho te mordeu? O que aconteceu?
   Cirilo aos prantos, contou em detalhes o ocorrido, mas não se recordava exatamente o que havia dito a Sibele que ocasionou aquela reação tão inesperada.

continuação….

 

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