Mykonos-32

voltar a introdução

voltar a Mykonos-31

   Sem outra alternativa, o filho de Jonas concordou contrafeito, daria tudo para voltar atrás, mas agora, o que tinha sido feito já estava selado.
   A manhã do sétimo dia surgiu   esplendorosa, o sol brilhava forte, os seus raios tingiam a Grande Pedra de uma coloração indescritível que ia do dourado ao purpura. A chuva havia cessado havia três dias, estava tudo limpo e seco. As mulheres e as crianças começaram a montar o pequeno altar e enfeitar o pátio, que ficava defronte as cavernas, com flores do campo, raízes e folhas secas. A cerimônia teve início exatamente as dez horas da manhã, como de praxe, os irmãos de Jonas – Rubens, Josias e Atilio foram os padrinhos. Joninho estava triste e cabisbaixo, a ponto de Maila pedir para que Jonas conversasse com ele. Este já sabendo o motivo, disse apenas:
   – Maila, não se preocupe, ele está apenas emocionado e nervoso. Amanhã estará ótimo!
   Ao contrário do noivo, Laura estava felicíssima, irradiava o frescor de seus treze anos. Luizinha e Laercio foram seus padrinhos, juntamente com Fernando e Minelo. Após  rápida cerimônia, conduzida por Rafael, houve um almoço especial para comemorar as bodas.
   Dois anos se passaram, a vida de Joninho e Laurinha passava longe do que poderíamos dizer harmoniosa, as brigas eram constantes, a ponto de Fernando interferir. Muitas vezes, no meio da madrugada, ele era acordado com discussões sem fim. Jonas se colocou em posição neutra, ao contrário de Luizinha que defendia a irmã em todas as situações, a ponto da Comunidade se ver diante da primeira dissensão entre famílias. Maila se indispôs com Raquel, uma amiga de anos e Ana se colocou ao lado de Maila, deixando Rafael em situação delicada. Jonas acreditava que quando o primeiro filho nascesse as brigas cessariam. Não foi o que aconteceu, no final do terceiro ano de casados nasceu Piedade, a primeira filha do casal. A menina mal tinha completado um mês e uma briga horrorosa colocou um ponto final no casamento. Laurinha culpou Joninho, que culpou a cunhada, que culpou Maila. Enfim, a paz e harmonia, deu lugar a acusações e mal entendidos.
   Jonas, saturado com toda a situação formada a sua revelia, chamou o filho e a nora para terem uma conversa, pois Jonas filho já tinha anunciado que voltaria a morar na caverna da família. Pediu que deixassem a bebê com Raquel e se encontrassem com ele atrás da Grande Pedra, em um local onde os moradores utilizavam como uma espécie de santuário, faziam oferendas para os Deuses que acreditavam, oravam, realizavam cerimônias especiais. Quando necessário, era uma espécie de escritório onde várias contendas eram resolvidas. Joninho chegou primeiro, ajoelhou-se ao pé de um pequeno  altar que fora construído por Terêncio, logo após a partida de Tânia. Ele pronunciou as seguintes palavras:
   – Grande Deus, me ajude a tirar este ódio que sinto por minha esposa, eu gostaria muito de lhe querer bem, mas não consigo. É algo acima de minhas forças.
   Jonas chegou a tempo de ouvir as últimas palavras, ficou parado atrás do filho, que não percebeu sua presença. Pensou no quanto se enganara com aquele filho, naquele momento ele se transformara em um homem frágil e humilhado pela situação. Passados alguns instantes, chegou Laurinha. Agora uma belíssima mulher, perdera o ar de menina indefesa e se transformara em uma pessoa autoritária e às vezes até cruel. Alguns dias atrás, logo após o nascimento do bebê, ela tentou matar Joninho com um facão utilizado para roçar o capim que crescia ao redor da Grande Pedra. Se não fosse a interferência de Rafael e Fernando que presenciaram a cena, algo terrível poderia ter acontecido. Jonas sabia que sua missão hoje era dificílima. Estava decidido a tentar unir o casal, mas no fundo tinha muitas dúvidas se conseguiria. Assim que percebeu a presença do pai e da esposa, Joninho se virou e disse:
    – Ainda bem que vocês chegaram, eu quero acabar logo com isso.
    Desviou os olhos de Laurinha e encarou Jonas firmemente, como se este fosse a sua última chance de modificar sua vida atual. Falou pausadamente:
   – Papai, não existe nada que possa me dizer que poderá modificar minha decisão de me separar dela…
   Olhou sua esposa com desprezo, sem ao menos pronunciar seu nome. Laurinha tentou revidar a expressão lacônica, mas Jonas a impediu, dizendo:
    – Vocês dois parem de se agredir e me ouçam.
    – Eu só estou aqui neste momento porque precisamos resolver esta situação de uma vez por todas, pelo bem de toda Comunidade. Desde que se casaram, tem sido um inferno, não só a vida de vocês como também o relacionamento das famílias de ambos. É Luizinha que agride Maila; é Raquel que critica Mirla e Lucas; é Laercio que se indispôs com Atílio; é Jeremias que saiu aos tapas com Rubens.
   Olhou firmemente para Laura e completou:
   – É a senhora que tentou matar meu filho, e eu só não a expulsei da Comunidade porque tinha acabando de parir minha neta. Se fosse justo, tomaria a mesma decisão que tomei quando Tânia tentou matar Ana.
   Laurinha abaixou a cabeça e uma lágrima escorreu de seus olhos. Joninho vendo aquela encenação, tentou agredi-la com um soco.
   Jonas deu um grito e se interpôs entre os dois. Assim que se acalmou disse:
   – Vocês estão vendo? Isto não pode continuar, afinal são seres humanos e não animais irracionais.
   Joninho olhou para seu pai com os olhos vermelhos, ejetados de sangue, e num grito de desabafo disse:
   – Pai, você é o culpado de tudo isso. Eu te disse que não queria me casar com ela e você me obrigou, ainda havia tempo para desistir.
   Jonas foi pego de surpresa com esta afirmação, mas mesmo assim tentou manter a calma, pois sabia que a solução de tamanho problema dependia em grande parte da condução que ele daria àquela conversa. Laurinha rapidamente retrucou:
   – Então o senhor meu marido não queria se casar comigo? Eu bem que desconfiei, quando me rejeitou na noite de núpcias e nas próximas cinquenta noites que se seguiram a esta.
   Está explicado, pensou Jonas, ela foi se queixar com a irmã e esta começou a rechaçar minha família que não sabia de nada. Foi apenas um momento de divagação, a seguir ele levantou a voz, porque sabia que não poderia deixar que o assunto descambasse a lavar roupa suja.
   – Não me interessa a vida intima de vocês dois, o que temos que resolver agora é muito mais importante que isso, está em jogo a harmonia e a paz da Comunidade.
   Olhou firmemente para Joninho e prosseguiu:
   – Como poderemos resolver esta situação? Responda primeiro você meu filho e depois quero ouvir o que você Laura tem a dizer, mas não se esqueçam que agora os dois tem uma filha recém-nascida.

continuação…

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s