Mykonos-17

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    Todo o grupo se colocou em posição de respeito, tirando os panos que protegiam a cabeça, ajoelhando-se, juntando as mãos e orando, repetindo as palavras de Jonas:
    – Grande Deus esteja conosco em todos os momentos desta tarefa tão árdua de informar a amigos e familiares da morte de Alberto. Pedimos que a paz e a tranquilidade invada o acampamento, de modo que ninguém se desespere e muito menos se coloque contra os seus desígnios, que sabemos serem corretos e justos.
    A seguir todos se levantaram emocionados e prosseguiram rumo à árdua tarefa que estava por vir. Joninho foi o primeiro a avistar o grupo assim que eles se aproximaram o suficiente. Ele correu em direção ao pai, gritando:
    – Vocês encontraram os compradores? Encontraram?
    Jonas o ignorou, prosseguiu caminhando sem nada responder. O menino ficou muito desapontado e se dirigiu ao Tio Josias:
    – Tio, cadê o Tio Alberto, o que aconteceu com ele?
    Josias ficou meio atrapalhado, ninguém esperava esta pergunta tão de supetão. Mas mesmo assim, o irmão de Jonas respondeu:
    – Joninho, tenha paciência, nós contaremos tudo o que aconteceu assim que nos reunirmos com todo o grupo.
    Neste momento os dois filhos de Alberto também se aproximaram, e como não poderia deixar de ser perguntaram pelo pai.
    Jonas, desta vez, deu toda a atenção aos dois meninos, sendo observado ao longe pelo filho desprezado. Ele disse calmamente:
    – Nós estamos muito cansados, assim que descansarmos saberão por que o pai de vocês  não voltou conosco.
    Os dois meninos muito desconfiados, já sentindo que algo muito ruim havia acontecido, se afastaram cabisbaixos, ao contrário de Joninho, que observava o pai com uma postura desafiadora.
    Assim que todos que ficaram no acampamento foram avisados da chegada do grupo de desbravadores foi um grande burburinho. Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido. Luizinha abraçou Laércio e perguntou baixinho:
    – O que aconteceu com Tio Alberto? Era o jeito carinhoso que ela tratava desde menina todos os irmãos Massina, apesar de não ser parente próxima.
    Laércio pediu que ela tivesse um pouco de paciência, logo, o próprio Jonas contaria tudo. Luizinha insistiu – mas seu noivo foi irredutível – e pela primeira vez, os dois se desentenderam. Após uma hora de absoluto silêncio, Jonas e Josias convocaram todos os membros da comunidade para se reunirem no centro do acampamento. Josias falou primeiro:
    – Nós sabemos que todos estão curiosos para saberem o que aconteceu, mas peço permissão a vocês de contar primeiro as coisas boas.
    Beatriz, a esposa de Alberto, gritou aos prantos:
    – Vocês não percebem que assim estão apunhalando meu coração, digam de uma vez o que aconteceu com meu marido, parem com este suspense, eu e meus filhos temos o direito de saber.
    Jonas se levantou e disse:
    – Você tem razão Beatriz, venha comigo que eu te direi, enquanto Josias conta o que de bom aconteceu.
    Beatriz, os dois meninos e Jonas se dirigiram a uma das cabanas para conversar. Maila e Ana, já cientes do que havia acontecido, se colocaram de prontidão para aconchegar a amiga. Jonas, a princípio, pensara em colocá-la ciente do ocorrido juntamente com os outros, para que todos pudessem consolá-la ao mesmo tempo, mas diante do protesto fundamentado da cunhada, ele mudou de ideia. Afinal, ela tinha o direito de saber antes dos outros.
    Na cabana, Jonas pediu que os três sentassem e contou tudo em detalhes. Beatriz parecia petrificada, não movia um músculo, as crianças – pelo contrário – deram a entender que não acreditavam que o pai estava morto. Albertinho, o caçula, disse:
    – Tio, papai está vivo. Ontem, ele me disse que estava com vovô e logo todos saberiam que breve nos mudaríamos para um novo lar.
   Jonas, olhou para o sobrinho, acreditando em cada palavra do menino de oito anos – disse:
    – Albertinho, não minta para o titio, onde foi que você viu seu pai.
    – Foi perto das bananeiras, ele estava sentado na grande pedra onde Joninho costuma sentar quando está bravo.
    Jonas sabia exatamente o local ao qual o sobrinho se referia, ele mesmo, havia visto seu pai ali inúmeras vezes. Beatriz, finalmente pareceu voltar do choque que levara ao receber a notícia tão difícil. Pediu que o filho se calasse, pois logo iriam achar que ele estava ficando louco. Jonas se abaixou, segurou nos ombros de Albertinho, disse:
    – O Tio acredita no que você está dizendo, mas por favor não conte a ninguém porque será muito difícil para você se todos souberem que enxerga e fala com pessoas que já morreram.
    Albertinho abaixou a cabeça e uma lágrima furtiva escorreu de seus olhos. Jonas abraçou o sobrinho com toda força, pressionando-o contra seu peito. Sabia exatamente o que o menino de oito anos estava sentindo, ele mesmo já experimentara esta sensação de se sentir rejeitado por ter um dom que os outros não tinham. Quando finalmente tudo se esclareceu, os dois meninos saíram abraçados à mãe, seguidos por Jonas. Todos aguardavam no centro do acampamento, já cientes que algo muito ruim havia acontecido com Alberto. Maila e Ana ampararam Beatriz, enquanto Josias e Rubens cuidavam de Albertinho e Tales. Jonas se dirigiu aos presentes dizendo:
    – Amigos, como vocês devem ter deduzido, meu irmão Alberto sofreu um entupimento em uma veia no cérebro e faleceu, antes que pudéssemos fazer qualquer coisa. Por sorte, encontramos Dr. Alecsander, mas mesmo ele, com todo seu conhecimento, não pode ajudar a salvar nosso irmão.
    O constrangimento foi geral, Alberto era muito querido, sempre foi considerado o mais calmo e ponderado de todos os irmãos Massina. Até mesmo Jonas, não angariava tanta simpatia quanto o irmão que falecera.  A partir deste momento, todos queriam fazer perguntas ao mesmo tempo. Afinal, o algodão foi ou não vendido? Onde Alberto foi enterrado, já que não voltaram com o corpo? Porque Dr. Alecsander estava no caminho de nossos desbravadores já que ele afirmara que nada havia naquela ilha além de Vila Cantar? Jonas, Josias, Rafael e Laércio responderam todas as perguntas uma a uma. Ao final, Tânia gritou escandalosamente:
    – Vamos dar uma salva de palmas a Rafael, que trouxe remédios para todos nós, eu finalmente terei um alento para minha enxaqueca.
    Ninguém sabia o que fazer, pois aquela proposta era absolutamente descabida, afinal todo o grupo foi responsável pelo êxito da empreitada e se alguém merecia uma homenagem, este alguém seria Alberto, que além de ter insistido na ideia de buscar compradores ainda deu sua vida em prol do bem-estar de todos. Foi o que Ana disse a seguir:
    – Pelo que vejo ninguém concordou com sua proposta Tânia. Então, eu proponho que todos deem uma salva de palmas em homenagem a Alberto, e após, façam uma oração para que sua alma encontre o caminho da Casa do Grande Deus.

continua na próxima quarta-feira

 

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