Mykonos-8

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    Todos se reuniram ao redor dos componentes do grupo, Jonas tomando a palavra disse:
    – Amigos, encontramos o campo mais plano que já vi na vida. É muita terra fértil, virgem de fato, mas sendo bem trabalhada nos trará não só nosso sustento como também ganhos excedentes.
    Todos aplaudiram animados, menos Antônio, que permanecia deitado em uma esteira improvisada. Quando Jonas se deu conta do estado do amigo, exclamou:
    – Antônio, o que foi isso?
    Alberto, adiantando-se, disse:
    – Ele caiu em uma vala e quebrou a perna em dois lugares. Não poderá se locomover por pelo menos vinte e cinco dias.
    – Meu Deus! Por esta eu não esperava!
    Exclamou Jonas contrafeito.
    Antônio, com um fio de voz, exclamou:
    – Prossigam vocês, eu ficarei aqui com Mercedes até melhorar, depois eu vou ao encontro de vocês.
    Jonas respondeu de uma só vez:
    – De jeito nenhum, eu não vou me separar de ninguém do grupo, ficamos aqui até você andar.
    Jonas filho, acompanhando atento o diálogo, intercedeu:
    – Mas papai, você disse que temos que ir logo, pois se as chuvas chegarem teremos que esperar mais três meses para poder plantar.
    – Cala a boca menino! Eu já disse que vamos esperar. Retrucou Jonas.
    E assim foi feito. As crianças pequenas foram acomodadas na cabana de Mario, que de início resistiu a ideia de Dr.Alecsander, mas depois pensou que se alguma delas adoecesse mais atrasos ocorreriam. Os adultos e as crianças maiores passaram praticamente ao relento as noites frias daquela época do ano.
    Finalmente o prazo dado pelo médico passou e lentamente Antônio se levantou, deu alguns passos cambaleantes e declarou que nada sentia. A perna ficara perfeita. Na manhã de uma segunda feira, todos estavam prontos para iniciar a caminhada, que pelas contas de Jonas, levaria no mínimo trinta horas, pois pela quantidade de mulheres e crianças não poderiam adquirir um ritmo muito acelerado como fizeram da primeira vez, quando caminharam quase vinte horas para chegar ao destino. Mario disse que não iria agora, já sabia a direção a tomar e estaria lá daqui a vinte dias para conhecer o local, levaria os equipamentos com o auxílio dos moradores da Vila Cantar. O que ele não sabia é que o local era tão distante e escondido que a falta de disposição de acompanhar o grupo o levaria a nunca mais encontrar seus sócios.
    Jonas pediu que ele lhe desse as sementes de trigo, milho e mostarda, pois assim eles já iniciariam a plantação para que quando as chuvas viessem elas pudessem brotar. A princípio pensou em não entrega-las, mas depois concordou, pois afinal eles não iriam fugir e assim poderiam ir trabalhando enquanto ele descansava mais um pouco e quanto menos peso restasse para ele levar, menos homens teria que arrumar.
    As sementes contidas em três sacos de sessenta quilos foram divididas em porções menores e acondicionadas em inúmeros bornais e entregues a cada integrante do grupo, até mesmo as crianças levaram. Assim que o sol raiou puseram-se a caminho. Atravessaram riachos, subiram pedras e assim depois de mais de dois dias de muito sacrifício, um magnífico campo com algumas árvores frutíferas surgiu diante deles. Os homens se deitaram na relva baixa como que querendo olhar o céu e agradecer aos Deuses. As mulheres ajoelharam-se de mãos dadas e oraram fervorosamente. As crianças assistiam a cena em silencio mais como que entendendo que ali cresceriam seguros e formariam suas próprias famílias.
    Quando finalmente a emoção se amainou, Jonas mostrou atrás de algumas bananeiras o riacho mais límpido que jamais tinham visto, todo adornado por pedras que quando atingidas pelos raios solares refletiam o brilho do ouro. Era uma visão maravilhosa. As crianças foram as primeiras a se lançarem nas águas mornas, depois os adultos seguiram o exemplo. Afinal foi quase um mês sem tomar um banho digno.
    A primeira coisa que fizeram foi cortar as poucas árvores que cresciam aqui e ali no meio do terreno. Foram juntando em um canto enquanto as mulheres apanhavam folhas de bananeira. Gastaram dois dias neste trabalho, mas valeu a pena, no final do segundo dia já tinham um abrigo para se proteger. Combinaram que todos ficariam juntos até que cada um pudesse construir sua própria cabana, espaço não faltava. Logo, todos já estavam integrados à nova vida. Durante o dia, aravam a terra e à noite se reuniam ao redor de uma fogueira para cozinhar e se proteger do frio cortante desta época do ano. Josias era o mais animado de todos os homens, trabalhava de sol a sol, parecendo não se cansar nunca, sua esposa Nair, sempre às voltas com os filhos pequenos, Carminha, Vicente e Raul, o observava de longe, sempre agradecendo aos Deuses pelos marido amoroso e trabalhador. Os outros homens também se empenhavam bastante, mas muitos começavam a dar mostras de cansaço pela falta de equipamentos para trabalharem. O máximo que tinham eram duas enxadas e algumas pás feitas com madeira retirada das arvores da redondeza.
    Depois de quinze dias de muito trabalho, as sementes já podiam ser acondicionadas nas valas rasas feitas com os próprios dedos. Nesta altura do trabalho, as crianças e as mulheres foram recrutadas para auxiliar. Jonas filho comandava as crianças maiores, dois primos, filhos de seu tio Alberto e de tia Beatriz e outros dois meninos, filhos de Sara e Bartolomeu – amigos de longa data. Na noite do décimo sexto dia, Jonas reuniu a todos após o jantar, ele sentia que precisava conversar com o grupo, explicou:
    – Amigos, até agora estamos indo muito bem, apesar do desânimo que vejo estar acometendo muitos de vocês, gostaria que pudéssemos conversar um pouco sobre as causas deste sentimento.  Neste momento Rafael pediu a palavra, dizendo:
    – Jonas, gostaria de falar em nome de todos.  O que ocorre é que a falta de ajuda de ferramentas adequadas está nos deixando esgotados, o primeiro lote de terras ficou pronto para a semeadura à custa de muito sacrifício, os outros três lotes são enormes e se Mario não chegar logo com os equipamentos eu temo que precisaremos interromper o trabalho por falta de força física.
    Jonas meditou um pouco, olhou para seus irmãos que abaixaram a cabeça concordando com Rafael. Percebendo que o silencio era total, tomou fôlego e disse:
    – Eu sei que vocês tem razão, mas e se Mario não vier trazendo os equipamentos, morreremos de fome? Depois de chegarmos até aqui?
    Josias foi o primeiro a se manifestar:
    – Como assim? Afinal Mario vai ganhar sem trabalhar, não existe esta possibilidade de ele não vir.
    – Acalmem-se, eu apenas levantei esta possibilidade que acredito ser real, isto não quer dizer que vai acontecer. Alberto, com sua usual impaciência, replicou:
    – Como assim? Você sabe de alguma coisa que não sabemos?
    Jonas fitou a todos longamente, pensando em Messias, ele desejava ardentemente que seu pai o auxiliasse neste momento, mas ele precisava alertar a todos do que temia.
    – Ontem, eu me afastei um pouco do campo de trabalho, buscava encontrar alguma cabana abandonada por antigos moradores; quem sabe, alguém pudesse ter deixado uma pá, uma foice ou um rastelo que pudessemos utilizar.
    Todos os olhares fixaram em Jonas aguardando a conclusão do raciocínio.

continuação…

 

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