Constantinopla-41

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CAPÍTULO 5
A MORTE : TRANSIÇÃO ABENÇOADA
    O tempo passou rapidamente, um ano após o episódio do casamento, Armanide prosseguia como se nada houvesse ocorrido.  Todo mês me acompanhava às visitas com Artur e Nuno e para meu alivio não houve mais pedidos de casamento.
    Tivemos mais um menino, que dei o nome de Gison, a pedido de Germano, meu filho mais criativo; gostava de inventar nomes para tudo que via e quando soube que ganharia um irmão ou irmã pediu para escolher o nome.  Ficamos aliviados por ser um menino, pois se fosse menina seria Gimélia, um nome totalmente horroroso.  Armanide protestou muito, dizendo que o novo bebê não poderia carregar este nome para o resto da vida, mas mantemos nossa decisão, se fosse uma menina se chamaria Gimélia e se fosse menino Gison.
    Agora temos nove filhos, cinco meninos e quatro meninas.
    Nossa casa ficou pequena para abrigar tantas crianças, me obrigando a aumentá-la.  Faziam seis meses, que eu, auxiliado por Túlio, Germano, Antron e Lucius estávamos ampliando-a e construindo mais dois cômodos.  Trabalhávamos aos domingos e nas noites de lua cheia, porque era impossível conseguir claridade suficiente para iluminar o local apenas com a luz de lamparinas, para dificultar a tarefa, aquele ano choveu muito e Gison chegou sem que tivéssemos conseguido terminar o trabalho, me senti frustrado, pois havia prometido à Suzana.
    No primeiro fim de semana, após o nascimento de meu filho caçula, fui acordado ouvindo uma grande algazarra do lado de fora de casa.  Assustado, abri a porta – O que vejo ?
    Antron e Lucius à frente de mais quinze homens, entre pescadores e amigos.  Vi Ahimon, marido de Catarina; Licias, marido de Mirna; Samir, marido de Triciana; meu sobrinho Caio e alguém que de imediato não reconheci, mas quando puxando pela memória me recordei inequívocadamente das feições.
    Múrcio se adiantou dizendo alegremente:
    – Bom dia! Aimanon! Viemos te ajudar a concluir a ampliação de sua casa, o bebê já chegou e precisamos aproveitar o dia de sol.
    Fiquei sem reação, afinal, perderam um dia de descanso apenas para nos auxiliar, era algo que merecia mais do que simples agradecimentos, ajoelhei e orei para que o Grande Deus protegesse cada um deles.  Meus amigos também oraram.
    Foi um momento de congraçamento inesquecível, a seguir passamos a trabalhar, Suzana preparou uma farta refeição, serviu à todos, agradecendo com eloquência, as crianças menores sentaram-se ao redor da obra, observando o grande sonho da família sendo concretizado pelas mãos dos amigos.
    No final da tarde, a cobertura foi instalada, faltando apenas as portas e janelas, mas ficou pronto.  Todos se abraçaram voltando para casa mais leves e realizados.
    Naquela noite, demorei para pegar no sono, não acreditava que daqui a alguns dias poderíamos finalmente ter mais espaço, pois tentávamos nos manter serenos, apesar de ser muito difícil dez pessoas partilharem apenas um quarto.
    Meu amigo Uruãn apareceu de madrugada através de um sonho lúcido, se apresentou como sendo ele e me surpreendi com sua aparência que ainda não conhecia…
    Era baixo, de barbas longas e… Chinês !
    Fiquei surpreso e emocionado, aquele amigo invisível que tanto me ajuda era do Oriente, disse que não interessa o corpo de carne que se veste no momento, a energia que dá vida ao corpo não tem nacionalidade, nem condição social.  Nós éramos antigos amigos, eu e Menéas o auxiliamos muito quando em outra vida peregrinamos pela China, hoje ele cuida de mim e de minha família.
    Apenas me lembro que durante o sonho eu apenas agradecia e orava.  Ao amanhecer contei o que havia ocorrido a Suzana.
    – Aimanon – disse ela – sabia que Uruãn era Chinês, sonhei inúmeras vezes com ele e no dia que Armanide nos chamou no jardim para dizer que não se casaria mais, eu o vi ao lado dela.  Não disse nada, porque nem eu mesmo acreditava, pois ainda tenho muita dificuldade de entender este mistério.
    A vida prosseguiu sem grandes alterações, a não ser que Suzana engravidou do nosso décimo filho.  Desta vez, ela passou muito mal, engordou demais, sentia muitas dores e um enjôo que não a deixava tranquila.
    O dia do nascimento se aproximava, mais eu pensei que ela não suportaria e morreria.  Armanide e Laila cuidavam de tudo que dizia respeito à casa e as crianças.  Catarina não tinha tido mais filhos,  Josias e Rita estavam grandes e ficavam com a avó, enquanto todos os dias, minha irmã vinha até nossa casa cuidar de Suzana.  As duas tinham tanto amor uma pela outra que me deixava intrigado, pareciam mais do que irmãs.
    Foi um mês de dolorida ansiedade, mas quando o dia finalmente chegou, Tia Adelane veio correndo, trouxe Tia Ágata e mamãe, pois desconfiava que seria um parto difícil, tal a casualidade da situação.  Minha esposa se mantinha calma, mas algo me dizia que uma grande surpresa me aguardava.
    Após quase duas horas, mamãe sai do quarto e diz com lágrimas nos olhos que eram dois meninos.  Cai na esteira emocionado: – Dois meninos! Que benção!
    Laila soluçava, pois todos pensavam que Suzana não resistiria.  Mamãe nos acalmou dizendo que tanto ela, quanto os bebês estavam bem.  Armanide e Túlio foram até o jardim preparar um ramalhete de flores para a mãe, enquanto Germano protestava:
    – Pensei que desta vez Gimélia nasceria, mas pelo que vejo, quem dará os nomes aos bebês será Armanide, não acho justo, são dois bebês!
    Ri, aliviado, a tensão foi tanta que qualquer brincadeira era para mim um bálsamo. Armanide ouvindo a observação do irmão, retrucou:
    – Germano sempre soube que seriam dois e os nomes já foram escolhidos: Tales e Tiago.
    Laila e Rômulo aplaudiram, aprovando a escolha.  Túlio também e disse mais, olhando para Germano.
    – Os próximos bebês quem escolherá os nomes será Armanide, ela tem mais gosto que você!
    Eu, ao ouvir a referência aos próximos bebês – protestei inconscientemente – apesar de saber que haveria outro bebê e seria novamente um menino.  Disse em tom conciliador:
    – Meninos,  não sabemos se teremos outros bebês, afinal a família está tão grande que mais parece um exercito, mas conforme combinamos, se vier uma menina será Gimélia, como Germano sugeriu e se for outro menino, quem escolherá o nome desta vez, será Laila.
    Minha filha tinha dez anos mais era tímida e retraída, dificilmente participava das brincadeiras com os irmãos e toda vez que eu e Suzana tínhamos oportunidade a colocávamos para interagir com a família.  Achei que esta tarefa seria para ela prazerosa e lhe traria um motivo para integrar-se à vida familiar.  Laila respondeu:
    – Obrigada papai, mas não quero escolher o nome do próximo bebê, porque tenho medo que quando ele crescer não goste do nome e fique bravo comigo.
    Meus nove filhos eram totalmente diferentes um do outro, observando-os no dia a dia me vinha um enigma que só poderia ser descrito satisfatoriamente através da crença que os espíritos reencarnam e prosseguem em outras vidas com a mesma personalidade, temores e anseios de outros momentos.  Todos os meus meninos foram criados da mesma maneira, com as mesmas oportunidades e obrigações.
    Atentando para a resposta de Laila, pensei: – Laila e Germano tem quase a mesma idade dez e onze anos, mas são tão opostos como a água e o óleo.  Germano insiste em colocar o nome horroroso de Gimélia na próxima irmã, não se importando com o que ela sentirá no futuro e Laila declinou a tarefa por medo de errar?  A explicação só poder estar na volta do espírito a outro corpo, mas porque se tornaram meus filhos?
    Estas dúvidas só seriam sanadas centenas de anos depois, mas naquele momento, imbuído do pouco conhecimento que tinha, aceitei a postura de Laila e disse carinhosamente:
    – Querida, não se preocupe com isso, se você escolher desejando que o nome lhe traga muita sorte e longa vida, tenho certeza que seu irmão gostará, mas se quiser deixar esta tarefa para mamãe e papai, nos diga.
    Meus dois filhos mal tinham chegado, nós ainda não os conhecíamos e esta conversa sobre o futuro que ainda nem sabíamos se ocorreria – pensei intrigado. O décimo segundo filho viria, tinha certeza absoluta, mas uma força imensa me fazia antecipar as decisões, pois sentia que o tempo expirava.
    Os bebês eram lindos, absolutamente iguais, corados e cabeludos.  Suzana se recuperou rapidamente e logo já voltava a antiga rotina.  A casa ficou ótima, deixamos um quarto para as quatro meninas, outro para os quatro meninos mais velhos, enquanto os gêmeos e Gison ficavam conosco, no nosso quarto.
    Minha vida como pescador prosseguia, sem grandes acontecimentos, Artur se firmou definitivamente como Sacerdote, era respeitado e querido por todos.  Nuno partiu para Grécia pois queria aprender a fazer grandes construções, quem o substituiu nas visitas mensais foi meu sobrinho Caio, que apesar de ter apenas onze anos sempre desejou participar deste trabalho de auxilio, o mesmo não ocorrendo com Túlio e Germano, eles queriam partir de Constantinopla para prosseguir a vida em Roma, a distante sede do Império.
    Armanide completara dezesseis anos e o assunto casamento nunca mais foi tocado,  sabia que tinham rapazes dispostos a desposá-la, mas sua atitude firme e sem medir as palavras, os desencorajava, segundo contavam minhas irmãs.  Às vezes, as palavras de Uruãn a respeito do rapaz franzino voltavam a bailar em minha consciência, mas logo eu impedia que elas tomassem forma.  No dia do mutirão para terminar minha casa veio um jovem que pensei ser ele, mas soube que era sobrinho de Tibério e comprometido.
    O meu trabalho na casa do rio prosseguia cada vez mais intenso, às vezes saia de lá com o sol se pondo.  Uruãn me inspirava e me dava energia para que pudesse auxiliar quem me procurava, mas eu percebia claramente que quando o ultimo auxiliado era atendido, ele também ia embora.  Depois do dia que o vi no sonho, nunca mais conversamos.
    Quando os gêmeos completaram três meses, soube que Suzana estava grávida do nosso ultimo filho, já tinha trinta e cinco anos completos e me sentia um velho.  Havia dias que a tristeza invadia meu coração de uma tal maneira, que era difícil prosseguir, via meus dois irmãos mais novos, Antron e Lucius, demonstrando vigor e alegria e eu tentava, mas as vezes era quase impossível combater tanto desânimo, até que um dia, na casa do rio, Menéas novamente apareceu.
    Era um dia tranquilo, cheguei da pescaria e excepcionalmente ninguém me aguardava, preparei o chá de melissa, sentei à mesa e a mesma luz que vi naquela noite escura descortinou à minha frente.  Menéas, falou:
    – Caro Aimanon, sei que sua vida se tornou um fardo pesado, agora se verá livre dele. Meus amigos pedem para te dizer que cumpriu dignamente sua tarefa terrena, espalhou por onde andou o cerne da doação e principalmente levou à todos a noticia da chegado do filho do Pai – o Salvador da Humanidade.
    Nada me ocorreu no momento – pareceu que meu corpo flutuava, vi minha cabeça pender e cair sobre a xícara de chá, assustado, olhei para porta e vi vovó, papai e Tio Firlias entrando, trocamos um demorado abraço e logo vieram Tio Elias, Tio Nuno e Tio Percilio acompanhados de Uruãn, o velho Chinês de barbas longas e olhar sereno.
    Todos flutuavam sobre a casa de Menéas e lá embaixo vi meu corpo inerte e de repente gritei :
    – Não pode ser o que estou pensando? Suzana ficará sozinha com as crianças e está grávida!  Não posso ter morrido!
    Neste momento senti que algo me atingiu e abri os olhos, ainda sentado na mesa com o chá derramado sobre a toalha.
    Foi uma sensação diferente, uma mistura de angustia e felicidade, mas com certeza um sonho.  Em casa, conversei com Suzana e ela me disse que tinha tido um sonho exatamente igual, mas que nele eu havia realmente morrido ela ficara desesperada sem saber o que fazer.
    Depois deste dia, nunca mais me deixei levar pela tristeza, sabia que tinha tido uma oportunidade de prosseguir e precisava retribuir a benção recebida.
    Comecei a organizar reuniões que aconteciam ora na casa do rio, ora em minha casa, para propagar a vinda do Salvador, sentia que no momento que falava às pessoas que se aglomeravam, uma força descomunal se apossava de minhas cordas vocais e transmitia palavras e ensinamentos que muitas vezes desconhecia, como no dia que falei em grego antigo, sem nunca ter aprendido o idioma, Artur estava presente e me disse que usei até a entonação de voz correta.  Neste período me senti pleno e totalmente realizado, afinal o ultimo bebê nasceu na primavera e Laila sugeriu que o chamássemos de Artur, meu cunhado ficou radiante com a homenagem e eu me senti orgulhoso por minha filha ter assumido esta responsabilidade.
    As crianças cresciam a olhos vistos, cada um deles demonstrando características diferenciadas de personalidade, mas nenhum se distanciando dos deveres e obrigações como filhos do Grande Deus.  Neste período, mamãe torna-se mais condescendente e menos critica, à ponto de até participar de algumas reuniões em minha casa.  Eu e Suzana nunca nos colocamos contra ou a favor, ela fazia o que sua consciência solicitava.
    Uruãn se tornava cada vez mais presente, de maneira a sempre me sentir conduzido em qualquer decisão que tomava.   Meus filhos sabiam que eu tinha um amigo invisível que me auxiliava, mas como é próprio das mentes isentas de julgamento e livres, nunca me perguntaram o porque de não se fazer presente fisicamente.  Eles acreditavam e também se sentiam protegidos.

continuação…

 

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