Constantinopla-39

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    Arregalei os olhos, curioso que ele me explicasse esta última frase.
    – É isso mesmo que você ouviu – prosseguiu Menéas – em uma vida, anterior a essa, éramos irmãos, filhos do mesmo Simeão e da mesma Linizia, que naquela vida se chamavam Áurea e Rodolfo,  vivíamos em Roma e fomos tão próximos como somos hoje.  Professávamos a mesma fé, ou seja, acreditávamos no Deus único e tentávamos espalhar estrada afora esta crença.  Viajamos muito, falávamos vários idiomas e sempre tentávamos nos fazer entender,  sendo na China ou no Ocidente, naquela época, por volta de oitocentos e cinquenta antes da Era cristão, já sabíamos porque de estarmos aqui e sempre nos centramos em propagar a vinda do Salvador que está por vir.
    Interessado no que ele me falava, pedi que fosse mais claro.
    – Daqui a algumas centenas de anos, nascerá na Galiléia, um menino, nosso irmão, também filho do Grande Deus, que mostrará aos homens as Leis de Deus, mas terá grande dificuldade de se fazer entender, por isso, muitos médiuns estão sendo instruídos para dizer a todos que o dia do nascimento do Salvador se aproxima.
    –  Menéas, porque ele é um Salvador – perguntei intrigado.
    – Porque ele ensinará a todos as Leis que precisam ser obedecidas para que possamos morar junto ao Grande Deus.  Se os homens não souberem estas Leis, como poderão serem salvos deste mundo cruel, com inúmeros perigos e se dirigirem ao lugar onde tudo é regido pelo amor e pela bondade?
    Concordei de pronto e disse que me colocava à disposição para prosseguir trabalhando.  Menéas pediu que primeiramente conversasse com Suzana e Catarina e após com Artur e Claudia, pois seriamos nós os primeiros médiuns de Constantinopla a difundir a chegada do Salvador.
    Ele se despediu me alertando:
    – Aimanon, sua filha deve iniciar sua nova vida com base em tudo que você e Suzana lhe ensinaram, portanto, não haja como se fosse um descrente, que prega mais não vivencia.  Ela precisa de seu apoio e de sua concordância incondicional para encerrar este ciclo e começar outro, de cabeça erguida e segura, como sempre falou aos seus filhos e a quem quisesse ouvir.  Não se deve pregar aquilo que não se acredita.
    Acabando a frase, desapareceu, mas ela ficou martelando na minha cabeça por muito tempo, afinal criamos Armanide exatamente para isso que Luca nos solicitou, casar-se e prosseguir sem nós, criar seus filhos e um dia partir, como minha avó, com um sorriso nos lábios, cônscia que cumpriu seu dever.
    Meu sentimento de posse egoisticamente alojado em minhas entranhas estava me cegando e me levando a não visualizar a realidade.  Isto foi um jato de tranquilidade para minha angustia, voltei para casa no meio da madrugada, ao entrar, me deparo com Suzana e Armanide acordadas e muito preocupadas.  Quando me viu, minha filha correu ao meu encontro chorando, me abraçou e falou soluçando:
    – Papai, jamais vou deixar de te amar, mas não posso deixar de continuar minha vida caminhando em busca de construir uma família só minha, como você e mamãe fizeram.  Sinto por ter ficado tão triste, mas estou certa que serei muito feliz, amo Luca e ele me ama.
    Sentei-me exausto, aliviado por poder enxergar com clareza.  Pedi que Armanide sentasse no meu colo, como quando era criança e tinha pesadelos, abracei-a com carinho e disse:
    – Amanide, você tem toda razão, papai e mamãe sabem que este é o único caminho que você tem a seguir, agradeço ao Grande Deus que tenha encontrado um rapaz trabalhador e interessado em aprender as inúmeras ciências que envolvem nossa existência.  O que tenho a dizer é que papai está muito feliz por te ver feliz.
    Nós três nos abraçamos e fomos dormir, com  a certeza, que tudo que faz um de nós completos proporciona a mesma sensação aos outros.  Somos uma família.
    A noite terminou rapidamente, o domingo nos brindou radiante, tinha combinado com Antron e Lucius que os ajudaria na colheita do milho que estava atrasada.  Acordei tarde, pois estava muito cansado, quando cheguei na plantação, meus irmãos perceberam nas minhas feições a noite mal dormida.  Antron me olhou atentamente, franzindo as sobrancelhas:
    – Aimanon – começou ele – que bicho te mordeu?  Parece que Suzana te colocou para dormir com a cabra!
    Lucius completou:
    – E a cabra mugiu a noite toda no seu ouvido!
    Olhei sério para eles dizendo de uma só vez:
    – Armanide vai se casar.
    Os dois pararam de caçoar, levando um susto.
    – Não entendi Aimanon, nossa sobrinha é uma menina – replicou Lucius.
    – Ela vai fazer quinze anos – me expliquei.
    Antron deixou cair uma espiga que debulhava, falou angustiado:
    – Quem teve a ousadia de pedi-la em casamento?
    Expliquei em detalhes o que tinha acontecido no sábado e como fiquei com as mãos atadas.  Lucius tentou me consolar.
    – Mano, só nós três – grandes palermas – não percebemos que Armanide é uma mulher e nesta idade todas as meninas já estão prontas para casar-se, não vejo a hora de ser tio-avô!
    E eu, que não tinha ainda pensado nisso, em breve poderia ser avô: Grande Deus! Minha família se multiplicando!
    A partir daí tudo se aclarou definitivamente, minhas comiserações desapareceram, afinal aquilo que aconteceu era a Lei Natural da evolução, eu não poderia almejar ser um bom intermediário do Grande Deus se amealhasse a vida de meus filhos e impedisse que eles prosseguissem trilhando seus próprios caminhos através de suas escolhas.  O cerne da verdade me conduziu às etapas vindouras.
    Luca era um rapaz especial, educado, trabalhador, atento às futuras necessidades da família.  Armanide não se continha de tanta felicidade, dando a todos a nítida impressão que estava traçando sua vida exatamente como planejou, e isto me dava ainda mais vigor, quem sou eu para impedir tal escolha?
     Os preparativos estavam adiantados, a data marcada, a casa comprada, quando a mais inesperada das noticias chegou.  Saul – meu primo, pai de Luca – sofrera um acidente em Míkonos e não podia mais andar.  Caiu da proa do navio e quebrou a coluna, perdeu a sensibilidade nas pernas imediatamente, com isso, todos os planos de se estabelecer em Constantinopla foram cancelados.  Luca teria que voltar, pois nenhum de seus tios, nem seu irmão Rômulo poderiam substituir o pai, que apesar de paralítico queria prosseguir nos negócios.
    Naquela época, a locomoção era muito difícil, dependia muito das próprias pernas, pois tudo se movimentava e progredia a partir da disposição de cada um de caminhar, vencendo as barreiras da distancia apenas com a força da vontade, e alguém que não poderia fazê-lo por alguma restrição física estava fadado a não mais sair de casa, e foi o que ocorreu.  Saul terminou seus dias cercado por familiares, mas nunca mais trabalhou, nem tampouco deixou a cama que o prendeu definitivamente.
    Quando soubemos deste singular acontecimento, foi um grande choque.  Luca e Armanide conversaram longamente sem a nossa interferência, como quando ela decidiu unir-se a ele.  Terminada a conversa, eles nos chamaram até o jardim e quem primeiro falou, com lágrimas nos olhos, foi nossa filha:
    – Papai… mamãe… conversamos bastante sobre nosso futuro, pois Luca partirá daqui a dois dias, após devolver nossa casa aos proprietários e desfazer o negócio das murtas.
    Luca, interrompeu-a:
    – Minha querida noiva – disse ele pausadamente – se nega a partir comigo, portando peço que desconsiderem o pedido de casamento!
    Desde que soubemos que Luca não teria outra alternativa, a não ser voltar para Grécia. Eu  e Suzana tínhamos certeza absoluta que Armanide iria com ele, e essa agora?
    Olhei para Suzana e depois para Armanide e perguntei:
    – Filha, é isso mesmo que deseja, já pensou bem?  Levou em consideração que nós estamos envelhecendo e tudo que poderíamos fazer por você,  já fizemos?  Seria uma alegria partilharmos para sempre se sua companhia, mas como você mesmo disse todos devem construir suas próprias famílias.
    Serena, totalmente tranquila, sem lágrimas, até mesmo isenta de emoção, ela respondeu:
    – Mamãe, papai, o fato de não querer sair de Constantinopla não se deve a medo ou insegurança; é que sempre soube que terminaria meus dias aqui,  sonhei inúmeras vezes com isso desde menina, e sei que é verdade.  Quando Luca me pediu em casamento e tudo se encaminhou para que isto ocorresse, fiquei muito feliz e achei que seria ele o marido que o Grande Deus preparou para mim, mas agora sei que não é ele.
    – Isto é definitivo – prosseguiu ela, olhando fixamente para Luca – não me casarei mais.  Espero que você encontre uma pessoa que o faça muito feliz.
    Ele se despediu timidamente e se foi.  Armanide, por sua vez, nos pediu que não mais falássemos no assunto, pois o considerava encerrado.  Eu e Suzana ainda conversamos sobre isto algumas vezes, e eu sempre questionava, qual era a real verdade por trás de tudo isto?  Como Armanide pode, com apenas quinze anos, tomar decisões deste porte com tanta segurança?  Minha esposa não tinha as respostas, mas intuitivamente sabia que nossa filha  tinha feito o que deveria fazer.

continuação…

 

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