Constantinopla-32

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   Assim que Antron saiu, ajeitei as canecas de chá, limpei a mesa e fui embora.  Ao chegar em casa, encontrei mamãe e Suzana alteradas, dizendo que Miriam havia partido deixando as crianças sozinhas. Foi Caio, o filho mais velho de seis anos, que foi até a casa de mamãe e contou que sua mãe arrumou suas coisas e partiu, dizendo que nunca mais voltaria.  Mamãe veio até nossa casa na esperança de me encontrar, para que pudesse pegar Ana de três anos e Lisias de quatro anos, porque Caio não sabia onde Antron se encontrava.  O menino tinha ficado com vovó e Triciana.
    Depois que me recuperei da noticia, pedi que mamãe ficasse com nossos filhos e fui com Suzana até à casa de meu irmão.  Não era muito distante de nossa casa, mas tínhamos ido até lá apenas uma vez durante estes sete anos, no dia que Caio nasceu, mas fomos recebidos com tanto desdém por Miriam que nunca mais retornamos, nem mesmo quando as outras duas crianças nasceram.
    Após meia hora de caminhada, avistamos a casa, estava toda fechada e não vimos nenhum movimento do lado de fora.  Bati na porta e ouvimos o choro de uma criança. Quando entramos, nos deparamos com um cenário desolador, roupas sujas por todo lado, até em cima da mesa, onde se viam restos de comida e louça suja por todo canto.  Suzana correu para o quarto em direção ao choro que tínhamos ouvido, quando entrei, ela estava carregando a menor e consolando o maior, Lisias.  Lá dentro, a mesma desolação do resto da casa.  Minha esposa, me fitou e disse:
    – Não posso acreditar que alguém possa abandonar três crianças inocentes desta maneira.
    Eu respondi:
    – Conversei com Antron esta tarde, ele me disse que a situação estava insustentável, mas não imaginei que chegasse a tal ponto.
    Suzana trocou as duas crianças, apanhou algumas roupas, enquanto eu apenas observava, sem forças para pensar no que fazer naquele momento.  Nos pusemos a caminho de casa levando Ana e Lisias, era apenas isto que nos manteve focados, tirar os dois pequenos daquela situação de penúria.  Ao chegarmos em casa, encontramos Antron estirado na esteira, chorando compulsivamente.  Pedi que todos fossem para o quarto, a não ser Lucius que o havia encontrado na plantação neste estado e  trazido para minha casa na esperança  que pudesse fazer alguma coisa.  Antron não sabia que Miriam havia partido e nem tinha visto chegarmos acompanhados de seus filhos menores.
    Suzana, mamãe e todas as crianças, inclusive meus filhos saíram da sala.  Sentei-me ao lado de Antron, acompanhado de meu irmão caçula, pedi que parasse de chorar para que pudéssemos conversar.  Aos poucos foi se acalmando e olhando para nós dois, disse:
    – Meus irmãos! Acabou!  A única saída é acabar com minha vida.  Não posso mais conviver com Miriam e ver meus filhos sofrerem desta maneira, assim ela verá o quanto me esforço para que sejamos felizes e dará algum valor.
    Eu e Lucius sentimos uma grande compaixão por nosso irmão.  Ele, na ânsia de solucionar algo que estava além de suas forças, buscava em uma atitude extrema um alento que não se achava capaz de alcançar.  Olhando para mim, prosseguiu:
    – Aimanon, assim que saí da casa de Menéas esta tarde, fui para plantação pensando em alguma solução que você me disse haveria de encontrar e absolutamente nada me ocorreu.  No auge do desespero, pela primeira vez na vida, cai de joelhos e pedi ao seu Deus que me ajudasse. Acho que ele não me ouviu porque a única solução que me ocorreu depois disso, foi me jogar no mar como fez o pai de Artur, ou melhor, acho que me escutou sim e este gesto, resolverá tudo, fará com que Miriam enxergue o quanto poderia ser feliz e não é.
    Quando ele parou de falar, nos contando suas equivocadas conclusões, eu disse:
    – Antron, assim que você saiu, pensei muito no que havia me dito. Não consegui descobrir nenhuma solução, nem me passou pela cabeça esta que você acaba de me dizer. Mas eu também orei ao Grande Deus pedindo que ele trouxesse equilíbrio e felicidade para sua vida e para as crianças, pois Miriam, com certeza sabe onde encontrar a sua.  Pensando nisso voltei para casa, quando cheguei, encontrei mamãe e Suzana nervosas e preocupadas, pois Caio, seu filho, tinha ido até à casa de nossos pais e contado que sua mãe havia arrumado suas coisas e partido para nunca mais voltar.
    Antron saltou da esteira e Lucius arregalou os olhos, pois ainda não sabia do ocorrido, pedi que meu irmão se acalmasse e se sentasse.  Prossegui:
    – Quando soube, mamãe veio até aqui, pois Caio disse que não sabia onde você estava.  Eu e Suzana fomos até sua casa e trouxemos Ana e Licias.  Pude constatar com meus próprios olhos, a situação de penúria que se encontra sua casa, que confesso, é muito pior do que você me descreveu.
    Antron abaixou a cabeça, deu um profundo suspiro e disse pausadamente:
    – Obrigado Grande Deus !
    Nós nos abraçamos e dissemos que o ajudaríamos a criar as crianças e que eles seriam adultos preparados para cuidar de suas famílias com amor e carinho.
    Pedi que Suzana trouxesse as duas crianças.  Meu irmão abraçado a elas, não parava de agradecer ao Grande Deus.  Mamãe entrou na sala e ficou confusa com o que via, pois Antron era o filho mais apegado à suas crenças e de repente ele se mostra tão diferente, voltou para o quarto silenciosamente.
    Quando finalmente ele se acalmou, eu e Lucius nos colocamos como guardiões de nossos sobrinhos e oferecemos auxilio ilimitado para tudo que fosse preciso.  Suzana também se colocou à disposição dizendo:
    – Antron, sinto muito que seu casamento tenha se acabado desta maneira, mas de agora em diante eu vou me colocar como responsável em cuidar de seus filhos enquanto você trabalhar para conseguir alimentá-los.  Prossiga com sua vida de cabeça erguida, e mostre para eles o que um pai amoroso e ciente de suas responsabilidades, deve fazer.
    Abracei Suzana com muito amor e respeito, eu jamais ousaria fazer um pedido destes a ela, pois afinal já temos seis filhos e mais três crianças é algo muito difícil para uma só pessoa.
    Antron a olhou, sem dizer palavra, parecia não ter entendido o que ela havia falado, foi Lucius que interrompeu o silêncio.
    – Irmão, tudo que acontece de ruim a um de nós, diz respeito a todos, portanto, continue sua vida honestamente como sempre fez, cuide de seus filhos com o mesmo amor de sempre, que a sua família se encarrega de te auxiliar em tudo que precisar no dia a dia, inclusive o oferecimento de Suzana é algo que me deixou embevecido, pois ela se sente também nossa irmã, apesar de não ter obrigação de arcar com um fardo tão pesado.
    Só depois da fala de Lucius, percebemos que Antron voltou à realidade e finalmente se manisfestou.
    – Lucius, Suzana, Aimanon, meus irmãos, tantos acontecimentos terríveis neste dia e vocês me trazem este conforto tão pouco merecido por mim, pois sempre fui turrão e ausente nas necessidades de vocês e agora isto: Este apoio incondicional!  Falta-me palavras para agradecer, nossa família é realmente muito especial e desejo do fundo das minhas entranhas que meus filhos herdem a lisura de atitudes e o sentimento de compaixão que dá vida à nossa união.
    Enquanto meu irmão falava, lágrimas de emoção escorriam dos olhos de todos, inclusive de minha mãe, que apesar de não ter dito nada, presenciava a cena encostada à porta do quarto onde estavam as crianças. Meu coração disparou, minhas mãos transpiravam incessantemente, senti que meu rosto estava em brasa, mas mesmo assim falei com a mais sincera retórica:
    – Suzana e Lucius, a situação é realmente muito delicada, mas precisamos nos ater à disponibilidade de todos e não deixar a tarefa à cargo de uma só pessoa, por hoje as crianças e Antron ficam aqui em casa, amanhã não vamos pescar e todos se reúnem pela manhã na casa de mamãe, inclusive Claudia e Catarina, que eu mesmo me incumbo de avisar.  Este problema, como bem disse Lucius, é de toda família e não só de Antron, por isso deverá ser resolvido com o auxílio de todos.

continuação…

 

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